DEMORO-ME NAS HORAS MAIS TARDIAS

Demoro-me nas horas mais tardias.
É tempo que entretenho e o detenho
(Plo menos no meu espírito o tenho),
É tempo que ficou de outros dias.
E o tempo que me sobra é para nada…
É todo para o meu entardecer.
Gostava, enfim, de ver, enfim, de ter
Por toda a grande cada a pequenada!…
A vida… bem, tem dias… gosto dela…
Mas ela não é nada nem é grande.
Às vezes ela é tudo, às vezes nada.
Enfim… não há senão sem haver bela.
No escuro o tempo pára, mesmo que ande.
É um cortejo fúnebre e uma estrada.

 

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▪ Daniel Jonas
( Portugal 🇵🇹 )
in “Nó”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014
 

UMA CADEIRA

 

( para Caroline Tyssen )

 

Eu já não peço muito:
uma cadeira ao sol
perto da Galileu
uma bica na mesa
dois dedos de conversa
com a Caroline amiga
olhar à minha volta
ver quem está a ler livros
e quem saiu com pressa

 
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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

I

Durante essa tua natação de fera oculta
há um papiro que se desdobra na minha boca
e nunca o futuro teve o sabor
de palavras tão sobejamente pronunciadas
família___rapaz___umbigo
palavras com que se poderia redigir
tão pouca coisa
se não fosse a reinvenção da tua chegada
inscrita no mundo como pedra preciosa
que não é pedra
antes um modo inalienável de reluzir
pelas braços fora

Sei que haverás de te deslocar
timidamente
por estas ruas e prédios que bocejam
dos nomes que lhes deram
e que contigo terão uma razão mais forte
para conspirarem na longa malha
inanimada
em que se decidem os bichos
a que chamamos homens
e que tão pobremente os têm
habitado – garanto-te –
à excepção de uma ou outra carne
mais obstinada em escapar
à bala comum

Para tudo isso terás tempo
ainda que rapidamente te dês conta
de que tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo que esperei
e que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos
o fruto magro que hás-de roer noite dentro
nalgum bairro de pormenor
quando o escasso amor que te deram
for alimento oportuno
de um amor mais desenvolto
– estranho comércio, sim –
o tempo que não terei para nos lançarmos
os dois ao mar
nalguma noite desesperada
partilhando o sal de tudo largar
esse gosto tão raro
tão sigilosamente próximo

Perdoa a falta de graça
o tom melancólico _____ a guerra
mas é que vivo numa época
que como muitas antes dela
repetiu os subsídios ao nojo
bateu o sangue em castelo
para se levar ao forno da ambição
deu uma sova às pequenas respirações
– sim, intersticiais, subtis, difíceis –
sem as quais um corpo é apenas
um estorvo à sua própria morte
percebes isso?
um estorvo à sua própria morte

Porque essas finuras de que te falo
são sem dúvida a única ousadia
frente à inevitável conflagração do espaço
– perdoa uma vez mais, eu reformulo –
tudo isto que ainda não vês mas verás
tudo isto que ainda não tocas mas tocarás
não durará mais do que a sua própria
experiência
e é essa a única lei
e é esse o único hino
país tão desabitado que festejado
cada desembarque como se trouxessem
o oceano

Se a eternidade fosse um espelho
o que mostraria?
Isto agora porque é aqui
que vive a luz e é está a paisagem
que nenhum deus pode apagar
senão à custa da sua fome
não receies por isso deus nenhum
nem eternidade nenhuma
a tua carne é o único tesouro
– sei-o enquanto nadas –
digno de ser embrulhado pela treva

 

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▪ Vasco Gato
( Portugal 🇵🇹 )
in “Fera Oculta”, Douda Correria, Lisboa, 2014

 

PÁGINA ANTIGA DE UM DIÁRIO INEXISTENTE

Mandei hoje cortar a araucária do
jardim.
_____Plantei-a ali há cerca de dezasseis
anos. Tinha um palmo de altura, como os
companheiros da Branca de Neve. Cresceu,
agigantou-se, ultrapassou o telhado da casa,
impregnou-se de azul.
_____Há dias, pelo S. João, pousou-lhe nos
ramos ásperos, penetrantes como agulhas,
um balão aceso. Ficou chamuscada, perdeu
a compostura, a elegância. Há nela, agora,
alguns ramos secos. Também em mim algo
vai secando, morrendo.
_____Mandei hoje cortar a araucária do
Jardim…

No mesmo dia

_____Adiei a decisão. Adiei-a, não: anulei-a.
Há feridas que não saram, males para os
quais não há remédio.
_____Ao subir, há pouco, ao terraço, reparei,
ajudado pelos olhos do Frederico e pela sua
sensibilidade ecológica, naqueles ramos
verdes a roçar as telhas. E recuei, então.
Emendei o gesto.
Cresce, minha araucária, cresce! De mim
não se dirá que tirei a vida a quem dei.

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▪ Albano Martins
( Portugal 🇵🇹 )
in “Assim São As Algas” – Poesia 1950-2000, Campo das Letras, Porto, 2000

NO VAGAR DOS ROCHEDOS

Eu ia devagar.
Caminhava por dentro dos rochedos e seguia
o acre fio das algas particulares
que eu – ao mesmo tempo comovido e cansado-
lambia como se sustento fossem
de um viagem longa, atribulada.

No som vertiginoso que se ouvia
e ecoava desde muito longe
até às grandes e clamorosas aberturas
descidas de repente sobre o mar,
sentia-me a pairar no coração das turfas
que se vestem de alegria.

___________________ Ou seja,
que brandamente seguem a luz íntima
que vai da consciência à temperança.

Em vão eu tentaria ali lembrar (recuperar)
as outras tristes músicas:
o deve e o haver doutros tumultos
e mesmo as renúncias que são dores
que roem todo o corpo e o desgastam.

Eu ia devagar.
Passava por caminhos que, de facto,
poisos eram, clamorosas aberturas.

E dissolvia-me no mar.

 

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▪ João Rui de Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
in “Enquanto a noite, a folhagem”, Editora Tertúlia, Sintra, 1991

A LOUCURA DAS FACAS

UMA FACA AZUL NOS DENTES

 

O espaço é uma grande máquina de sombras e
o poema uma miragem de letras
não posso escrever os meus gritos
não posso dizer-te quem sou

escrevo um testemunho inútil numa noite imensa
e o amor para sempre é um defunto
com uma faca azul nos dentes.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A loucura das facas“, pág. 13, Editora Urutau (Galiza, Brasil, Portugal), 2021

JUDAS

Do lado de lá ouço a linha cortada
e às vezes julgo que a minha chamada
toca num dispositivo noutra dimensão,
porque a minha mão segura fria as
cadências das músicas que ouvias
e tudo são passos em lugares onde já estive
e é verdade, não consegui confiar
nessa escuridão, na minha própria sombra.

Escrevi num caderno, “You can love an addict,
but you can’t heal him” e tomei esta verdade
como se fosse o único valor na equação,
mas ao fim do dia o teu corpo escorregava
tornava-se líquido venoso, dentro de mim
e também eu cometia os mesmos erros que tu:
masturbava-me com a tristeza da tragédia
conservava a cor azul no centro dos pulsos
ouvia as canções com que pratiquei a morte.

Deitava-me ao teu lado,
era assim que os limites se quebravam
e a melancolia transformava-se em beleza:
queria dizer-te que não me sentia tão viva
que sorvia o paladar de todos os prazeres do mundo
que gostava de ter adormecido até à manhã seguinte;
agora sei como essa claridade nos bastava
e que poderias ter conservado o meu sorriso
e essa fosse a melhor última memória desses tempos.

Receio ter chegado tarde demais, outra vez
e que nenhum poema me possa substituir
jamais possa ser uma melhor versão de mim mesma
e que o carinho seja um labirinto do qual
não consigo encontrar saída — que estas palavras
sejam ecos em lugares onde nunca mais te possa encontrar.

 

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▪ Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Fio de Ariadne”, Revista de Literatura, nº. 1 – Primavera de 2021, Organização: Armando Halpern, Lisboa

 

LÍRIOS

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
– sem frio nem perda nem desastre –
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.

 

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▪ Rosa Maria Martelo
( Portugal 🇵🇹 )
in “Matéria”, Editora Averno, Lisboa, 2014

 

TIVE UMA AMIGA

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel branco
com uma jóia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem jóias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela

 

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▪ Helder Macedo
( África do Sul 🇿🇦 )
in “Poemas Novos e Velhos”, Editorial Presença Lisboa, 2011