NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

 

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▪ Sebastião Alba
( Portugal 🇵🇹 )

HÁ SEMPRE UM COMBOIO QUE PARTE

Há sempre um comboio que parte
de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente
ansiosa da viagem para a parte incerta

Há sempre um futuro com destino
que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco
vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera
de um comboio que já partiu

 

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▪ Henrique Risques Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

CIDADE OCULTA

A cidade está oculta
Todo um rio de cimento
persegue as ruas

Porque agora as horas são mais sólidas
os homens abraçam-se com os filhos ao entardecer
A outra tarde é uma chuva num círculo
abraçando o fogo
Não há imagens
e o mistério deixa-se improvisar

Se houvesse uma mesa
por onde o pássaro gigante vomitasse o ruído
a noite decerto se mostraria
menos receosa

Mas o que se passa não é mais vida
nem pasmo fala-se
Vem uma máquina exterior
mastigar a voz

Depois as estradas numa infinita gravata
sufocam a paisagem guilhotina
de dois horizontes
Pausa para separar os dias do irremediável
A cidade segue oculta

Os dias deixam aquela baba peçonhenta
a roçar a cauda pelas sombras do musgo cortante

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▪ Fernando Lemos
( Portugal 🇵🇹 )

ANTES DO CLARÃO

Vestida de água, lavam-lhe o corpo,
mãos lentas, líquidas,
bordando segredos no silêncio da solidão.
O vestido, desmaiado na terra,
conversa com as pedras.
Uma pomba,num gesto de alheamento
entre flores brancas e amarelas,
pousa no chão.

O céu,sem tempo,espera
quieto.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

POEMA DO COMEÇO

Eu num camelo a atravessar o deserto com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia um vento de agulhas com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objecto estranho na algibeira – trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

 

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▪ António Maria Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

 

O amor já não é o que era

O amor já não é o que era
concluiu apressadamente o senhor Couto
vindo à tona do sonho de que o poema é feito.
O amor já não é o que era
repete-me a árvore roçagando
horas e horas, entre as folhas perdendo
um qualquer coisa que se juntasse a ela
e a ela acrescentasse uma qualquer lembrança
do que fosse o amor quando era o que era.

Sabe o senhor Couto que não ser o que foi
é tão fatal com ele como com o sentimento
de que avança a falar como se o sentisse?

 

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▪ Pedro Tamen
( Portugal 🇵🇹 )
in “Memória Indescritível”, Editora Gótica, Lisboa, 2000

Memória de Antonin Artaud

Não me reconheço entre os homens
porque são eles os demolidores do meu pensamento

Não participo desta razão comum de existir
porque luto dia a dia com sons e signos ocultos
para a invenção doutra linguagem
que não descobrirei
— sei-o perfeitamente —
mas a necessidade de estar só
dentro de um universo opiado e infinito
obriga-me a estender os cabelos no exílio

 

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▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )_
in “Pássaro-Lyra”, Averno, Lisboa, 2015

Nesta última tarde em que respiro

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

 

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▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

 

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▪ Manuel António Pina
( Portugal 🇵🇹 )