░ o nó da tristeza

de ter esperado tanto
eu risquei, eu rasguei, eu matei luas
nos abismos perversos
dos espelhos

e dancei na poalha
dos cinzéis
até as mãos chorarem sujas
por entre as fendas
dos muros

 

rasguei-me
na terra e nas árvores
para que da dor que sobrasse
se multiplicassem estátuas de chumbo
de lábios abertos e olhos
gigantes

por onde a escuridão morresse
e deixasse ao uivo dos lobos
a tarefa difícil de murmurar a luz
no coração da terra fria
por entre a água e a pedra
no peito dos pinheiros
por onde rebentavam as manhãs
amenas,

suaves, como eram
as tuas mãos no meu rosto
ou a tua voz de abrigo
quando tropeçava naquela linha
onde se esconde o nó
da tristeza

 

_
▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “Água Forte” _ Poesia Reunida _ Editora Urutau, Galiza e Brasil, 2019

░ O passageiro de barbas

Consta que vestia como um operário,
mas a camisa
imaculadamente branca. O chapéu
de abas largas guardava
o crânio do poeta da democracia.
Cantou sozinho,
percorreu léguas, foi quase vadio.
Na sua bíblia os salmos incitam
à fraternidade, à vida plena.
Cantou a saúde e a bondade,
a rebeldia. Cantou o sexo
naturalmente livre e a América
não gostou.
Acabou os seus dias na casita
em Camden, atafulhada de exemplares
de Leaves of Grass
numa rua miserável, fedorenta.

 

_
▪ Isabel de Sá
(Esmoriz, n. 1951)
in “Repetir o Poema”, Edições Quasi, V.N. de Famalicão, 2005

░ Rising

hoje é início de janeiro
mas só consigo escrevê-lo
dois meses depois: morreu
a cantora Lhasa de Sela,
li no canto do ecrã,
assim, em letra corrida,
ainda a manhã mal tinha
chegado às mãos. não era
possível ver ali uma única
palavra com sentido,
‘i was caught in a storm’
e a chuva partia-se fria
contra os olhos.
‘hitting the ground
and breaking and breaking’,
é o que acontece à alma,
em dias destes, quando janeiro
só se pode dizer em março,
sem primavera.

 

_
▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
in “Small Song, 2.ª Ed. Rev., Alambique, Lisboa, 2015

░ 4

A malandrice chamou-me a atenção aos cinco anos,
quando escrevi as primeiras linhas.
«a minha mãe é loira de olhos azuis e eu gosto muito dela»
Comia-se marmelada com pão, não se varriam migalhas
que o tempo urgia em galgar.
De joelhos no chão esborrachavam-se formigas
e depois tinha-se pena e ia-se para casa em silêncio
punha-se um letreiro na porta a dizer «compram-se idosos»
mesmo que não fosse verdade
experimentavam-se línguas em bocas e andava-se à roda
literalmente
e os arrepios eram os primeiros coitos
e as interrupções eram miúdas
mijava-se em poesia, mesmo de cócoras
a solidão de domingo era água das pedras
e nem havia telefone para lhe tocar

 

_
▪ Cláudia R. Sampaio
(Portugal, n. 1981)
in “A primeira urina da manhã”, Douda Correria, Lisboa, 2015

░ ASSURDO

Oh fiore di ansia sul mondo
— escremento della rovina —
verso che affoga di fronte al Nulla!

La poesia arde sui suoi cavalli ardui.
La disperazione terrorizza la pagina.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “A Casa de Ler no Escuro”, Editora Urutau, São Paulo – Brasil, 2016

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



VERSÃO ORIGINAL

 

░ ABSURDO

 

Oh flor de ânsia sobre o mundo
— excremento da ruína —
verso que se afoga frente ao Nada!

O poema arde em seus cavalos árduos.
O desespero horroriza a página.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “A Casa de Ler no Escuro”, Editora Urutau, São Paulo – Brasil, 2016

 

░ LO ZELO DELLE TENEBRE

Lui amava la donna.
Lei si impiccò nella casa della spiaggia.
La trovò da sola senza i piedi sul suolo.

La vide
Dopo
vicino alla finestra
immergersi nel silenzio della sala.

Starà
provando i rami teneri
della Primavera?
O spia dentro gli specchi
di Marzo?

Difficile immaginare questi alberi
di tenebre
senza aria alcuna!

Nei miei sogni lei dice sempre addio
cavalcando verso il mare

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “A Casa de Ler no Escuro”, Editora Urutau, São Paulo – Brasil, 2016

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



VERSÃO ORIGINAL

 

░ O ZELO DAS TREVAS

 

Ele amava a mulher.
Ela enforcou-se na casa de praia.
Encontrou-a sozinha sem os pés no solo.

Viu-a
Depois
junto à janela
mergulhar no silêncio da sala.

Será
que prova ramos tenros
da Primavera?
Ou espia para dentro dos espelhos
de Março?

Difícil imaginar estas árvores
de trevas
sem nenhum ar!

Nos meus sonhos ela está sempre a dizer adeus
cavalgando para o mar

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “A Casa de Ler no Escuro”, Editora Urutau, São Paulo – Brasil, 2016

 
 
 

░ O gabinete de penitência

Eu fazia a correr e às escondidas
as coisas mais inocentes
por isso fui punida
fecharam-me numa casa chamada
Gabinete de Penitência
deram-me uma tesoura e uma folha de papel
vai dobrar a folha de papel
recortar meia menina
com as pontas dos cabelos viradas para fora
com uma saia
com mãos
com pés
quando abrir o que recortou
verá duas meninas
ligadas pelas pontas dos cabelos
pelas pontas das saias
pelas mãos
pelos pés
dobrei o papel em quatro
recortei meia menina
quando abri o papel
as duas meninas estavam separadas
a menina fez batota bem vi
mas vai aprender a fazer dobragens
para se penitenciar
cortando-as

 

_
▪ Adília Lopes
(Portugal, n. 1960)
in “Um jogo bastante perigoso”, Editora Moinhos, Belo Horizonte BR, 2018

░ Deus nos lírios

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

 

_
▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
Da revista “Telhados de Vidro – n.º 12”, Edições Averno, 2009

░ Há quem diga

A morte tem luvas brancas tão belas.
Todos os que amo já têm as suas.
E o temor das pessoas é como estrelas
sobre o seu arco de triunfo.

Seus dedos longos de bruma.
Revoltos pela luz do luar.
E pelo temor das pessoas.

Há quem diga que ela é um alforge da lua.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

 



Cambiado a español

 

░ Hay quien dice

 

La muerte tiene hermosos guantes blancos.
Tienen los suyos todos los que amo.
Y el temor de la gente, como estrellas
en su arco de triunfo.

Dedos largos de bruma.
Revueltos por la luz de la luna.
Y por el temor de las personas.

Hay quien dice que es alforja de la luna.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

                                                                                                     *

Cambiado a español por — José Ángel Cilleruelo — Poeta, narrador, traductor y crítico.