░ Os Abutres

 

Ao Herberto Helder, in memoriam

 
I

Morre um poeta
cai um avião
os abutres limparão os corpos
deixando os ossos espalhados
pelas encostas frias das montanhas

Roubarão ao poeta
as palavras não-ditas
que ele fora amortalhando
como se adivinhasse…

Bastaria morrer
para que se abrissem
as páginas dos jornais
com o seu rosto cansado

Poderá ver de longe
com um sorriso amargo
alguma correria aos livros
mais antigos, de que ele
dizia irónico são apenas folhetos…

II

Eu guardo para mim
os primeiros encontros
no café Gelo, ao Saldanha,
diante da bica
nesses anos sessenta, onde
o sucesso pouco importava e
apenas se falava do livro
entregue para publicação
ou de algum outro autor
que se estivesse a ler

Vivia-se entre amigos,
era o Carlos Ferreiro, pintor,
quem fazia as vinhetas
e os desenhos que o Vítor S. T.
lhe ia pedindo para as edições & etc.
Os seus desenhos eram ampliação
da palavra mais negra, mais oculta
batiam no coração.

Anos mais tarde, já depois
da Revolução de Abril,
era com o Alberto Pimenta
outro poeta, um amigo de sempre,
que se discutia o interesse da tão
aguardada nova escrita:
escassa e rara, fazia-se politiquice,
não se lia, o mundo lá fora pouco
ou nada existia
e era assim que o poeta
entristecia

Pego ao acaso num desses “folhetos”
que ele sabia enviar-me, sabia que eu gostava
fui sempre fiel e lia –
desde A Colher na Boca não mais me separara

E aqui o tenho e leio, um deles,
as folhas amareladas pelo ouro do tempo
O Corpo O Luxo A Obra
reparo que há lá dentro uma carta
de que não me lembrava,
estamos em 1978 e ele escreve
a agradecer algo que eu lhe tinha enviado.
É uma carta gentil, caligrafia miúda,
muito bem desenhada…

Para O Corpo O Luxo A Obra
ele escolhera uma epígrafe de Húmus
anterior de dez anos (1966/67)
mas já fecha o seu livro, o tal folheto,
com uma citação da Tabula Smaragdina,
de Hermes Trismegisto, o Pai fundador
da alquimia: é um aceno discreto que me faz
recordando que também ele estudava o ouro
da alquimia, “ouro que se gera a si próprio
no interior da terra”…

Queria ver talvez se eu tinha mesmo
chegado ao fim do livro, o seu folheto,
que o não era, era já o poema contínuo
de uma vida, ela sim forrada por dentro
a folha de ouro, o ouro das palavras
“o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra”.

Despeço-me, aqui mesmo,
como no café Gelo,
sem saber até quando

A mim, também já de saída,
citar ou evocar já não me chega,
aguardarei o sinal que a Mãe
na véspera me tinha dado
mas sem dizer mais nada:
era um sonho, vejo a Mãe,
aguardando de pé, elegante
e de negro, vestida para uma festa,
enquanto à sua frente, na mesa coberta
por toalha de linho, vários talheres de prata
ainda espalhados, iam ser arrumados

Vejo-a que espera, ainda faltava alguém,
ainda viria alguém para arrumar aquele
resto de vida: era afinal o Poeta,
o filho tão aguardado…

 

_
▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Poemas Com Endereço” (2010-2015), Mariposa Azual, Lisboa, 2015

░ O excesso mais perfeito

Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada—

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
(Lisboa, n. 1956)
in “Às vezes o paraíso”, Quetzal, Lisboa, 1998



– Traduzione –

 

L’eccesso più perfetto

Vorrei una poesia dal respiro teso
e senza pudore.
Con l’eleganza rotonda delle donne barocche
e tutto il contrario di un esile arbusto.
Una poesia che Rubens invidierebbe, nel vederla,
là dal profondo di tre secoli,
il suo corpo magnifico sdraiato su un divano,
e le braccia nude adagiate,
solo con braccialetti tanto (ma tanto) preziosi,
e un angioletto in cima,
nella sua piccola nicchia fatta nube,
a proteggerlo, dolce.
Una poesia così vorrei.
Molto più tutto che le greche dignità
dell’equilibrio.
Una poesia fatta d’eccessi e dorature,
eppure splendida nella sua potenza oscura
e mistica.
Ah, come vorrei una poesia differente
dalla purezza del granito, e dalla purezza del bianco,
e dalla trasparenza delle cose trasparenti.
Una poesia che esulti nell’angustia,
un grande rododendro color del sangue.
Un intero bosco di rododendri dove il vento,
passando, sostasse incantato
e premuroso. E lì restasse, catturato dal canto
dei suoi braccialetti tanto (ma tanto)
preziosi.
Nuda, dalle forme rotonde, una poesia così vorrei.
Una controriforma del silenzio.
Musica, musica, musica a colmarle il corpo
e i capelli intrecciati con fiori e serpenti,
e una fonte di stupore polifonico
a scivolarle tra le dita.
Adagiata sul divano foderato di velluto,
la sua nudità rotonda e piena
farebbe impallidire grifoni e sirene.
E i poveri templi, dalle linee tanto contenute e pure,
tremare di paura alla sola folgorazione
del suo sguardo. Dorato.
Musica, musica, musica e l’esplosione del colore.
Scrutando là dal fondo di tre secoli,
un muto Murillo, al veder che erano semplici i suoi angeli
insieme agli angeli nudi di questa poesia,
cantando in coro con altri
astri biondi
salmodie d’amore e di perfetto eccesso.
Gôngora impallidisce, come i grifoni,
ora che lo contempla.
Questa controriforma del silenzio.
E la sua mano tesa verso il cielo, carica
di nulla–

_
▪ Ana Luísa Amaral
(Lisbona, n. 1956)
in “Talvolta il Paradiso”, Quetzal, Lisbona, 1998
Traduzione di Chiara De Luca (Escritora, Traductora y Ensayista)

 

░ A ÚNICA VERDADE

Em louvor de Bernardim Ribeiro

A única verdade é a linha que puxo na extremidade da agulha,
ponto a ponto desenho
a paciência, refaço os gestos
das minhas avós.

Quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres em seu estrado,
em seus olhos dobrados,
e eu que nunca tive
paciência.

Mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender,
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente,
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite
que não pára de crescer.

 

_
▪ Soledade Santos
(Sabugal, n. 1957)
in “Sob os teus pés a terra”, Editora Artefacto, Lisboa, 2010

 

░ UM CANTO PARA WHITMAN

do sofrimento,
————– eu fiz um canto.

da alegria,
———– —da luta,
do fracasso,
————- do amor,
————- e do sol e do luar,
eu fiz um canto.

da miséria toda desta vida,

—————da minha pequenez,
—————da minha imensidão,

da sede infinita de infinito,

———–das certezas que não tenho,
eu fiz um canto.

da minha compaixão,

————– de palavras mendigadas,
no firmamento, na terra,
————– nas montanhas e nos mares,
———- —-aos animais
e ás árvores,
—————-à chuva
às tempestades,
—————-eu fiz um canto.

da noite
—————e da madrugada,
da melodia
—————e do silêncio,
dos vivos
—————e até dos mortos,

e do meu jardim secreto,

—————-com aromas e sabores
e dos tormentos dos homens,

do aço das duas fábricas,

eu fiz um canto.

da loucura,
————– do meu corpo,
e da guerra que há na paz,

————–de toda a minha ternura,
da minha raiva,
————–e descrença,
————–e até da minha esperança,
eu fiz um canto.

de tudo o que em mim ferveu,
————-do humano,
ao desumano,
————-céu e inferno,
do mortal ao imortal,
————-do Nascente
e do Sul,
———— do Poente,
e do Norte,
———— eu fiz um canto.

da prostituta perdida,
—————– dos meus olhos mentirosos,
do tempo que nunca volta,
—————– do desespero dos sábios,
da inocência dos tontos,
—————- eu fiz um canto.

do silêncio
—————- e da palavra,
do secreto
—————- e do patente,
da liberdade,
—————- do escravo,
e do senhor, que é o mais servo,
—————- eu fiz um canto.

do fogo
—————- e das suas cinzas,
do sonho que me assombrou,
—————- do mistério que há em Tudo,
e do Nada transparente,
—————- eu fiz um canto.

esse canto se evolou,

—————- por cima da minha vida,
por cima da minha morte,
—————- fulminante como um raio
soando com um lamento,
—————- ardendo como um vulcão.

eu não sei quem o criou.

sei que voou de repente

e que depois, mansamente,

em meu coração pousou.

 

_
▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Navegação imperfeita”, Editora Labirinto, Fafe, 2017

 

░ Este poema tem como hipotexto

Este poema tem como hipotexto
o Florbela Espanca espanca de Adília Lopes
e o Livro de Mágoas da Florbela
não me interessa quanto valem
na cotação da bolsa literária –
ainda não gozei nenhuma e
bolsa que me interesse
só mesmo a do canguru
mas tu não és minha mãe
nem meu pai, ou tia, ou
irmão, pseudo-Electra –
nem do seu mainstream.
Este poema é dedicado
à minha amiga Mónica
que faz ioga aos sábados de manhã,
cabeleireiro e depilação 2 vezes por mês
(cf. poema anterior)
luta contra uma auto-estima precária
mas sabe o que quer
quando lourifica o cabelo
como 43, 33 % das mulheres
com idade > 40 anos,
licenciadas,
em Portugal,
no ano de 2004:

«falar, falar, falar
a este àquele
a toda a gente
e não falar a ninguém»

«Bom dia, meu amor» ou
«Bonjour, tristesse»
como dizia Françoise Sagan
ao seu amante
trocado
por falsos versos.

 

_
▪ Ana Paula Inácio
(Porto, n. 1966)
in “Telhados de Vidro, nº. 9 “, Editora Averno, Lisboa, 2007

░ No fogo das estradas é que

No fogo das estradas é que
o medo de ter
tempo de mais as mãos pousadas
no amor nas espáduas
na amargura do rio
é que molhar as mãos
na água dos joelhos e andar
um pouco mais ainda sobre o fogo
das pernas e alcançar a terra
o ar do tronco o vapor o
movimento infindável do corpo em torno
do amor é que o mar as estradas
é que a locomoção por sobre a mágoa
no fogo das estradas é que tudo
se pode incendiar

 


▪ Gastão Cruz
(Portugal, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005