ir
no redondo da vela mais branca
navegar
o silêncio dos clarões
passar
por nenhuma ponte
morrer
no lado maior do que não há
_
▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014
ir
no redondo da vela mais branca
navegar
o silêncio dos clarões
passar
por nenhuma ponte
morrer
no lado maior do que não há
_
▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014
Gosto das noites frias de inverno
quando não estás. Escuto
canções de homens cansados de cantar
e vejo como a solidão
se dispersa no fogo lento da lareira.
Ou releio poemas que me falam das águas
do coração e das suas marés,
amontoo pratos e talheres no lava-loiça,
abro a última garrafa
de um vinho precioso.
Nas outras noites de inverno,
quando estás, nada de semelhante acontece.
A casa mantém-se sóbria, silenciosa,
perplexa. Por isso, desligo as luzes
e ponho-me a seguir os traços
contínuos do teu rosto no escuro,
depois da morte de deus
parece impossível mas a luz irrompe ainda
onde nenhum sol brilha.
__
▪ Luís Filipe Parrado
(Seixal, n. 1968)
in “Entre a Carne e o Osso”, Língua Morta nº. 24, Lisboa, 2012
Como andorinha que, em pleno Fevereiro,
chega do sul precipitadamente,
iludida por um dia prematuro
de Primavera, que rompeu a rotina
do frio e da chuva (mas não se repetirá) –
saio do esconderijo, solto-me no ar
e faço acrobacias, perseguindo
os poucos insectos que também
como a andorinha se equivocaram,
convocados por um sol que pouco dura.
Mas vem o dia seguinte e o inverno
com seu rol feroz de apoquentações
regressa nele e embarga-me o voo.
Então, contrariamente à andorinha
– que acha perfeitamente naturais
estes sobressaltos e embustes do tempo –,
proclamo a berros que fui ludibriado,
zango-me e mordo a língua.
Quando a espuma da ira se desfaz,
ponho-me atrás dos vidros como quem não quer
——————————— ———- ——-a coisa,
à espera de uma outra Primavera prometida,
menos fraudulenta e mais durável,
que um dia há-de vir, mas tarda tanto –
de novo recolhido, sedentário,
com a impaciência enroscada ao pescoço
como um langue pitão domesticado.
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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011
Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a
daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade
faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.
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▪ Maria do Rosário Pedreira
(Lisboa, n. 1959)
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013
Os livros
abandonados no apartamento de Jan falavam
línguas distintas. Podíamos ir pela estante
(colecionando fronteiras)
tentando adivinhar quem os teria legado
(quem sabe se em desagravo
pelo rumo da história)
suponho que: pelo desvelo que impele
à partilha. Cruzando o apartamento alugado
tantos anos saudei
nos livros esquecidos a experiência do mundo
(breves rasgões na lombada
testemunhando a viagem)
o olvido por companhia cedo demais
para morrer. Nessa idade em que uma mão (a
minha a
sua: leitor) podia da vida quieta
extrair vida ainda.
__
▪ João Luís Barreto Guimarães
(Porto, n. 1967)
in “você está aqui”, Quetzal Editores, Lisboa, 2013
Em Roma, onde há artérias de flores e mármores que servem
de espelho às concubinas, ela caminha entre ecos de beleza
em busca do futuro. Abandonada à melancolia das ruinas
ao estremecimento do tempo que passa.
Em Roma, onde a lua se cobre de sangue e o ombro macio do
papel se transforma em amante antigo, ela aprende a durar.
_
▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Errâncias”, Escritor, Lisboa, 1992
Papel amarrotado desse chá que tomaste
na tarde de qual dia, ou o copo de vidro
depressa transformado na total transparência,
não é que inexistente, mas de mínima espessura
sobre o cais deste porto onde ninguém aporta,
não o papel rasgado, não o desfeito em fogo,
incolor, inodoro, antraz ignoto, anuro,
coisa que sim, que é, mas já não o que foi,
vazia intensidade, inútil excrescência
da vida tilintante
_____________________– eis o que tenho agora
quando o dia amanhece e cai no saco roto
da débil complacência com que já não me vejo
_
▪ Pedro Tamen
(Lisboa, n. 1934)
in “Retábulo das Matérias”, Editora Gótica, Lisboa, 2001
Investia duramente
mãos arranhadas
das silvas e da ternura dilapidada.
Investia sobre as palavras,
era a intempérie/a míngua
a mais antiga das tempestades
que regressava.
_
▪ Soledade Santos
(Sabugal, n. 1957)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora
Un uomo senza nome
Porta al polso un orologio senza nome
Sul viso un tatuaggio senza nome
Dice alla donna senza nome
Su un autobus senza nome
Che l’ama senza nome
Su un pesce senza nome
Che attraversa una città senza nome
La donna senza nome
Con una mano aperta senza nome
Dice un addio senza nome
A un uomo senza nome
Sul fondo di un fiume senza nome
Che attraversa una città
_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poesia inedita pubblicata previa autorizzazione dell’autrice
Mudado para italiano por – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.
░ Take This Waltz
Um homem sem nome
Traz no pulso um relógio sem nome
No rosto uma tatuagem sem nome
Diz à mulher sem nome
Num autocarro sem nome
Que a ama sem nome
Num peixe sem nome
Que atravessa uma cidade sem nome
A mulher sem nome
Com uma mão aberta sem nome
Diz um adeus sem nome
A um homem sem nome
No fundo de um rio sem nome
Que atravessa uma cidade
_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora
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