░ Herança

A mulher deixou cair uma filha da barriga.
A barriga que tinha crescido morreu.
Deixou estampada uma folha de neve no chão.
Lá dentro meteu pauzinhos para fazer no inverno um caixão.
A filha que tinha crescido com uma folha da lua sepultada na face,
Deixou tombar os ponteiros de neve na sala.
Depois começou a lamber o sangue das paredes
como o útero de Deus.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal )
– inédito – 



– VERSION BY LESLEY SAUNDERS –

 

LEGACY

 

The woman let drop a daughter from her belly.
The belly that had grown big died.
She let a leaf of snow imprint the ground.
There within she stacked some little sticks to make a winter coffin.
The daughter who’d grown tall with a leaf of moonlight buried in her face
felled the pillars of snow in the room.
Then she began to lick the blood off the walls
as if they were the womb of God.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal )
– Unpublished –
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)

░ Orientation

J’ai écrit des milliers de vers
pour oublier. J’ai embrassé quelques femmes
pour me rappeler. Maintenant je peux déjà dire
le son à chair vive.

La ville ressemble à un camp
abandonné dans le désert. Les nomades
sont partis sur leurs chameaux, avec provision
de tamars et d’eau.
Il y a des restes de déchets, panneaux de signalisation
feuilles arrachées à des revues pornographiques,
au gré du vent, parmi des pétales sèches.

Il y a des résidus d’endroits où j’ai été avec toi
fragments de vers en verre, tout
très net, inscrit, plié en or.

 

_
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “O Som do Sôpro”, Edição Livraria Poesia Incompleta, Lisboa, 2011

Mudado do português por Eduardo Veras, pesquisador colaborador e pós-doutorando na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Brasil, onde atuou em 2016 como professor de Literatura Francesa. Especialista na obra de Charles Baudelaire, sobre quem escreveu tese de doutorado (UFMG, 2013), realizou dois estágios de pesquisa no “Centre de Recherche sur la Littérature Française du XIXe Siècle” da Université Paris-Sorbonne, sob a supervisão do professor Dr. André Guyaux. Atualmente, prepara uma nova tradução dos poemas em prosa de Baudelaire, de quem já traduzira o ensaio “L’École Païenne”. É autor de “O oratório poético de Alphonsus de Guimaraens” (Relicário, 2016) e co-organizador da coletânea de ensaios “Por uma literatura pensante: ensaios de filosofia e literatura” (Fino Traço, 2012). Tem publicado artigos sobre diversos poetas, brasileiros e franceses, em periódicos especializados.



VERSÃO ORIGINAL

 

Orientação

 

Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

 

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▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “O Som do Sôpro”, Edição Livraria Poesia Incompleta, Lisboa, 2011

░ Lua cheia

nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.

sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
– é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canção ao acordar do ano.

vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
– vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.

hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.

 

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▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “Um Mover de Mão”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

Tenho um minuto para escrever este poema

Tenho um minuto para escrever este poema
Um poema que fala de amor e de um deus morto
A minha pena é uma faca de luz e sou o anjo do desespero
Com os dentes trituro a esperança e a tinta da boca
escorre pelas ruas cobrindo-me os ombros.
Sou a nuvem que sobrevoa o silêncio.
O meu voo é o abismo da neve que grita:
Obrigada, meu Deus, por não existires.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com prévia autorização da autora



– Version by Lesley Saunders –

 

I’m taking a moment to write this poem

 

I’m taking a moment to write this poem
A poem that talks of love and of a dead god.
My pain’s a blade of light, I’m the angel of despair,
Between my teeth I splinter hope, the ink of my mouth
Floods the streets, runs down my shoulders.
I’m the cloud that scuds over silence.
My flight-path is the gulf of winter that howls:
Thank you, my God, for your non-existence.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, b. 1945)
Unpublished
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)

░ Poema com duas imagens tiradas a Dylan Thomas

Gosto das noites frias de inverno
quando não estás. Escuto
canções de homens cansados de cantar
e vejo como a solidão
se dispersa no fogo lento da lareira.
Ou releio poemas que me falam das águas
do coração e das suas marés,
amontoo pratos e talheres no lava-loiça,
abro a última garrafa
de um vinho precioso.

Nas outras noites de inverno,
quando estás, nada de semelhante acontece.
A casa mantém-se sóbria, silenciosa,
perplexa. Por isso, desligo as luzes
e ponho-me a seguir os traços
contínuos do teu rosto no escuro,
depois da morte de deus
parece impossível mas a luz irrompe ainda
onde nenhum sol brilha.

 

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▪ Luís Filipe Parrado
(Seixal, n. 1968)
in “Entre a Carne e o Osso”, Língua Morta nº. 24, Lisboa, 2012

░ UMA OUTRA PRIMAVERA

Como andorinha que, em pleno Fevereiro,
chega do sul precipitadamente,
iludida por um dia prematuro
de Primavera, que rompeu a rotina
do frio e da chuva (mas não se repetirá) –

saio do esconderijo, solto-me no ar
e faço acrobacias, perseguindo
os poucos insectos que também
como a andorinha se equivocaram,
convocados por um sol que pouco dura.

Mas vem o dia seguinte e o inverno
com seu rol feroz de apoquentações
regressa nele e embarga-me o voo.

Então, contrariamente à andorinha
– que acha perfeitamente naturais
estes sobressaltos e embustes do tempo –,
proclamo a berros que fui ludibriado,
zango-me e mordo a língua.

Quando a espuma da ira se desfaz,
ponho-me atrás dos vidros como quem não quer
———————————            ———- ——-a coisa,
à espera de uma outra Primavera prometida,
menos fraudulenta e mais durável,
que um dia há-de vir, mas tarda tanto –
de novo recolhido, sedentário,
com a impaciência enroscada ao pescoço
como um langue pitão domesticado.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

░ Vejo brilhar uma estrela que,

Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.

 

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▪ Maria do Rosário Pedreira
(Lisboa, n. 1959)
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013

░ Still Life

Os livros
abandonados no apartamento de Jan falavam
línguas distintas. Podíamos ir pela estante
(colecionando fronteiras)
tentando adivinhar quem os teria legado
(quem sabe se em desagravo
pelo rumo da história)
suponho que: pelo desvelo que impele
à partilha. Cruzando o apartamento alugado
tantos anos saudei
nos livros esquecidos a experiência do mundo
(breves rasgões na lombada
testemunhando a viagem)
o olvido por companhia cedo demais
para morrer. Nessa idade em que uma mão (a
minha a
sua: leitor) podia da vida quieta
extrair vida ainda.

 

__
▪ João Luís Barreto Guimarães
(Porto, n. 1967)
in “você está aqui”, Quetzal Editores, Lisboa, 2013