A MAN MET A WOMAN

A man met a woman and loosed a flower inside her.
Drifting on the wind the flower accompanied the woman for nine months.
And the wind laden with dead leaves cried: it is time for another flower to be born.
And the memory of the flower renounced its work.
And the woman said: I want my flower back.
And she heard her voice lost in an elsewhere.
Years later the man grew old and received the gift
of a coffin.
The woman leapt from a window.
Spring, brimming with flowers, turned unbearably beautiful.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— unpublished —

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Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist 



 

UM HOMEM ENCONTROU UMA MULHER

 

Um homem encontrou uma mulher e atirou para dentro dela uma flor.
A flor acompanhou a mulher durante nove meses arrastada pelo vento.
E o vento carregado de folhas mortas gritou: é tempo de nascer outra flor.
E a memória da flor deixou-se operar.
E a mulher disse: quero a minha flor de volta.
E ouviu a sua voz perdida noutro lugar.
Anos mais tarde o homem envelheceu e recebeu de presente
um caixão.
A mulher pulou da janela.
A primavera, repleta de flores, tornou-se insuportavelmente bela.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

░ Herança

A mulher deixou cair uma filha da barriga.
A barriga que tinha crescido morreu.
Deixou estampada uma folha de neve no chão.
Lá dentro meteu pauzinhos para fazer no inverno um caixão.
A filha que tinha crescido com uma folha da lua sepultada na face,
Deixou tombar os ponteiros de neve na sala.
Depois começou a lamber o sangue das paredes
como o útero de Deus.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal )
– inédito – 



– VERSION BY LESLEY SAUNDERS –

 

LEGACY

 

The woman let drop a daughter from her belly.
The belly that had grown big died.
She let a leaf of snow imprint the ground.
There within she stacked some little sticks to make a winter coffin.
The daughter who’d grown tall with a leaf of moonlight buried in her face
felled the pillars of snow in the room.
Then she began to lick the blood off the walls
as if they were the womb of God.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal )
– Unpublished –
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)

░ Tenho um minuto para escrever este poema

Tenho um minuto para escrever este poema
Um poema que fala de amor e de um deus morto
A minha pena é uma faca de luz e sou o anjo do desespero
Com os dentes trituro a esperança e a tinta da boca
escorre pelas ruas cobrindo-me os ombros.
Sou a nuvem que sobrevoa o silêncio.
O meu voo é o abismo da neve que grita:
Obrigada, meu Deus, por não existires.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com prévia autorização da autora



– Version by Lesley Saunders –

 

I’m taking a moment to write this poem

 

I’m taking a moment to write this poem
A poem that talks of love and of a dead god.
My pain’s a blade of light, I’m the angel of despair,
Between my teeth I splinter hope, the ink of my mouth
Floods the streets, runs down my shoulders.
I’m the cloud that scuds over silence.
My flight-path is the gulf of winter that howls:
Thank you, my God, for your non-existence.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, b. 1945)
Unpublished
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)