Memória de Antonin Artaud

Não me reconheço entre os homens
porque são eles os demolidores do meu pensamento

Não participo desta razão comum de existir
porque luto dia a dia com sons e signos ocultos
para a invenção doutra linguagem
que não descobrirei
— sei-o perfeitamente —
mas a necessidade de estar só
dentro de um universo opiado e infinito
obriga-me a estender os cabelos no exílio

 

_
▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )_
in “Pássaro-Lyra”, Averno, Lisboa, 2015

Nesta última tarde em que respiro

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

 

_
▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

 

_

▪ Manuel António Pina
( Portugal 🇵🇹 )

 

MEMÓRIA

Os homens vão e vêm pelas ruas da cidade.
Compram comida, jornais, dirigem-se às mais diversas empresas.
Têm rosados os rostos, os lábios cheios e vívidos.
Levantaste o lençol para ver o seu rosto,
baixaste-te para beijá-lo, num gesto corriqueiro.
Mas era a última vez. Era o mesmo rosto de sempre,
mas um pouco mais cansado. Era o mesmo vestido de sempre.
E os mesmos sapatos. E as mãos eram as mesmas mãos
que partiam o pão e serviam o vinho.
Hoje à medida que o tempo passa ainda levantas
o lençol para ver o seu rosto uma última vez.
Quando caminhas pela rua, ninguém te acompanha,
e quando tens medo, ninguém te dá a mão.
E não é a tua rua, nem é a tua cidade.
Não é tua a cidade iluminada: a cidade iluminada é dos outros,
dos homens que vão e vêm comprando comida e jornais.
Podes aproximar-te devagar da janela quieta,
observar em silêncio o jardim na escuridão.
Dantes quando choravas havia a sua voz serena;
e quando te rias lá estava o seu delicado riso.
Mas esse portão que se abria à noite está fechado para sempre;
e deserta ficará a tua juventude, o fogo apagado, a casa vazia.

 

_
▪ Natalia Ginzburg
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Hugo Miguel Santos

A ESCRITA E A ETERNIDADE

Contra o poder desagregador do corpo
da escrita,
não há realidade, por mais extrema,
capaz de superar
a certeza moral da sua
eternidade. As mãos da mulher permanecem, hoje,
________apoiadas na
profunda névoa da
almofada.
No leito, soerguido, ela tenta ainda,
ainda,
uma vez mais, uma vez mais,
deixar-nos uma
mensagem.
Mas a caneta pende, frouxa, dos lírios
dos dedos
como se fora um leve descuido de vento aflorando
das mangas cumpridas
da camisa de noite.
Não sei se, de tão nus, estes
não conseguem mais pensar em fazer ouvir ideias
simples,
tais como as de um poema
poder ser (ou não)
o que o anula no silêncio do pó: ou se todos os seus
não terão contido «mais ciência
que virtude»: e não porque a profanação (e imperfeição)
da arte
lhes não tenha atravessado a discrição e gentileza,
mas porque os traumas,
as proibições,
as doenças,
a loucura,
a loucura, a loucura,
Sylvia,
foi, decerto, o que neles superou
o instante
em que o animal
se afastou – entendendo sermos
sob a terra penosamente
móveis
e mortais.

 

_
▪ Eduarda Chiote
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘Órgãos Epistolares’, Edições Afrontamento, Porto, 2010

EU PERCEBO, CLARO, QUE NÃO ME COMPREENDAS

Eu percebo, claro, que não me compreendas. Há um momento em que ficamos completamente sós com os nossos fantasmas. E não há, disso, amor algum que nos salve. Constatamos, em silêncio, que tudo desabou.

Mas o que eu não queria, de todo, era fazer literatura desta casa. Devo-lhe demasiadas memórias, pensei muitas vezes na sua provável ruína. Saber que é agora «minha» representa um acréscimo de dor e de responsabilidade.

Tem-me ajudado, reconheço, trazer aqui amigos, e partilhar com eles o impartilhável. Pois é-lhes difícil adivinhar quantas recordações estão associadas a uma fotografia aparentemente banal, a uma jarra coberta de pó ou ao velho gira-discos do meu pai.

 

_

▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ah, vous dirai-je, Maman”, Edição de Autor, Lisboa, 2015

NA FRÁGIL LUZ DAS PAISAGENS

No outono as cidades amarelecidas prolongam-se
para dentro de guarda-chuvas abertos
que teimam socorrer os amantes de um dilúvio universal.

Algumas folhas de árvores esvoaçam como aves
em estado de chamas na frágil luz das paisagens.

Há bilhetes de outono espalhados por toda a parte,
alguns tristes,
outros dão para uma porta fechada que se pode abrir
a qualquer instante.

Quando entrei em casa não havia ninguém lá dentro.
Nem o inverno me esperava.

 

__

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

in “A Casa da Memória”, Editora Urutau, 2024

 

 

SOBRE LA FRÁGIL LUZ DE LOS PAISAJES

 

En otoño las ciudades empalidecidas se prolongan
hacia dentro de paraguas abiertos
que se empeñan en socorrer a los amantes de un diluvio universal.

Algunas hojas de árbol revolotean como aves
en llamas sobre la frágil luz de los paisajes.

Hay mensajes de otoño esparcidos por todas partes.
algunos tristes,
otros dan a una puerta cerrada que se puede abrir
en cualquier momento.

Cuando entro en casa no hay nadie dentro.
Ni el invierno me aguarda.

__

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

Mudado para castelhano por José Ángel Cilleruelo ( 🇪🇸 )
 
 

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

 
_

▪ Jorge Sousa Braga
( Portugal 🇵🇹 )