IL PIETRISCO TRANSLATIONS
Mirrors, Landscapes, Battles
21st
– century Poetry by Women –
edited by
Monica Boria and Ángeles Carreres
*
— »» Mirrors, Landscapes, Battles. 21-Century Poetry by Women
MARIA AZENHA
translated by Lesley Saunders p. 16
IL PIETRISCO TRANSLATIONS
Mirrors, Landscapes, Battles
21st
– century Poetry by Women –
edited by
Monica Boria and Ángeles Carreres
*
— »» Mirrors, Landscapes, Battles. 21-Century Poetry by Women
MARIA AZENHA
translated by Lesley Saunders p. 16
Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te
Chamas? Literatura. Nome estranho para um
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo,
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção,
Sentir fome, estar frio, respirar tubo de escape. Dei-lhe
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria
A própria escrita.
__
*
Rua Coelho da Rocha, 16-18
Campo de Ourique
1250-088 Lisboa
Tel.: +351 213 913 270
Diz:
diz o nome
escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo
as rosas
de pétalas arrancadas
as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência
__
Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar este poema.
Toquemo-lo com o sol da meia-noite
e com a luz do meio-dia.
Com ele exorcizemos a água dos refúgios
por entre palavras fendidas.
À sombra dos dragões do céu
silenciemos a nossa imensa solidão.
__
Esta noite é mais uma noite sem dormir
em que as flores da minha vida murcham.
Pétala após pétala, sinto em mim um vazio mortal
que deixa para trás os olhos que estão esmagados na parede.
A vida à noite se afoga num copo de gim
E joga dados com um Deus bêbado que condena a alma.
Esta noite não é apenas mais uma noite sem dormir.
É a noite terrível que transforma em cristal o sangue que corre nas tuas veias
E te convida a girar o tambor do revólver na têmpora.
Gatos miam nas calçadas de cimento presas à iluminação pública;
Talvez Deus ou eu já tenhamos morrido.
_
▪ Lúcia Fraga
( Espanha 🇪🇸 )
Até mesmo a manhã custa a perceber.
É como se alguém me decepasse a cabeça a meio da noite
e as horas se enganassem à volta do meu pescoço.
É fácil retratar uma degolação poética
em tempos de barbárie
tecnológica.
Afinal acordei no meio de gente ainda com cabeça
e eu sou aquele avô que os media
sempre ensinam.
Desgraçados dos tais
vestidos de amarelo para melhor serem vistos
com a faca viva encostada à garganta.
Comecei com a manhã imprecisa
meio cego a procurar um verso meu no meio da bruma
com a delicada nervosa faca de papel.
O mundo é um globo de gente ajoelhada,
de cabeças suspensas. E eu ao sair, só, do sono,
decapito o poema.
__
▪ Armando Silva Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )
Foi tudo o que aprendi: límpida e generosa é a chuva.
Molha a delicada cambraia dos senhores e os andrajos do
camponês,
inunda os lábios gretados dos amantes,
lava as mãos impunes dos cobardes,
a folha caduca da perene não distingue.
Poupa ao lavrador o trabalho e a despesa de regar os pomares.
Com um pouco de sorte e de espanto
também este ano
abundarão as sacas de laranjas e de romãs
na tua arrecadação.
_
▪ Luís Filpe Parrado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Roma Não Perdoa a Traidores”
Nem sequer é música isto que ouvimos,
é um arrastar de pés, de pedras, de pás que
escavam uma casa de cinzas,
são degraus que descemos,
martelando surdamente,
esmagando pétalas, insectos, cristais,
é um trabalho de facas no trono das acácias,
dos cedros,
facas que atravessaram os pulsos e o coração,
é um rangido de portas,
janelas que batem,
o vento nos ramos,
nas folhas quebradas do Outono,
não, nem sequer é música isto que ouvimos.
_
▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Anjos Caídos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003
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