Mendigos invadem a casa

Mendigos invadem a casa.

Já não cabem nas ruas,
foram escorraçados das praças e dos parques das cidades.

Caminharam quilómetros.
Transportam outros mendigos às costas.

Entram, ruidosos, por portas que alguém, ou alguma coisa,
abriu de par em par.

Não pedem dinheiro nem comida, pedem livros.

Alguns estão na biblioteca
e exigem que se lhe dê a ler os poemas que escolheram.

Sentam-se nas cadeiras ao acaso, deitam-se desordenadamente no chão,
distribuem-se, pensativos e sóbrios, pelas mesas que transbordam de comida.

Rezam antes de comer, pedem perdão pelas coisas que fizeram,
pelos crimes que cometeram
e pelos que voltarão a cometer.

De olhos fechados, quase imperceptivelmente, rezam movendo os lábios.

Abrem e fecham as mãos, onde brilham estrelas tatuadas.

Estão agora calmos; alguns velam, protegem os que adormeceram.

Um deles boceja, vencido pelo sono.

Outro levanta a cabeça por entre o mar de corpos enroscados
como um cão que interroga com o faro uma casa vazia, desde há muito
[fechada.

Como água correndo,
ouve-se o murmúrio inteligente de uma pessoa que chora em voz baixa.

Ninguém tem frio

No meio da imensa noite, alguém sorri.

_

▪ António Ladeira
( Portugal 🇵🇹 )

 

A CADEIRA DE VAN GOGH

A criança perguntou:
o que é isto?
São cerejas.
E isto?
São rosas.
Mas ninguém lhe falou do mistério que encerram.

O menino cansou-se de chamar as coisas pelos nomes,
de saber que uma cereja era uma cereja,
uma rosa uma rosa,
uma cigarra uma cigarra.

Não lhe bastava saber o nome das coisas.
Sondava-lhes o mistério, Apontava-lhes a alma,
trilhava o caminho de regresso à fonte.

Horas reveladoras,
Onde em tudo adivinhava o sentido
antes de tudo ser apenas um nome.

Já homem, apontou o seu coração ao coração de uma cadeira velha,

e por saber olhá-la,
imortalizou-a.

 

_
▪ Ana Zanatti
( Portugal 🇵🇹 )

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO

Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te
Chamas? Literatura. Nome estranho para um
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo,
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção,
Sentir fome, estar frio, respirar tubo de escape. Dei-lhe
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria
A própria escrita.

__

▪ Maria Gabriela Llansol
( Portugal 🇵🇹 )
In O Começo de um livro é precioso, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2003.

ACOLHIMENTO  *  APRESENTAÇÃO DE LIVRO  

 *

Apresentação do Livro A CASA DA MEMÓRIA De Maria Azenha
01 OUT 2024 – Terça-Feria às 18h30

 

Rua Coelho da Rocha, 16-18
Campo de Ourique
1250-088 Lisboa

Tel.: +351 213 913 270

Entrada livre, sujeita à lotação
Bilhetes disponíveis a partir das 17h30

 

*
Com Maria Azenha e apresentação de Risoleta C. Pinto Pedro
Leitura  de poemas por Denise Pereira
*

 

O NOME

Diz:

diz o nome

escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo

as rosas
de pétalas arrancadas

as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência

 

__

▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

Alegra-te comigo

Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar este poema.
Toquemo-lo com o sol da meia-noite
e com a luz do meio-dia.
Com ele exorcizemos a água dos refúgios
por entre palavras fendidas.

À sombra dos dragões do céu
silenciemos a nossa imensa solidão.

 

__

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

Eu fumo com relutância no escuro

Esta noite é mais uma noite sem dormir
em que as flores da minha vida murcham.
Pétala após pétala, sinto em mim um vazio mortal
que deixa para trás os olhos que estão esmagados na parede.
A vida à noite se afoga num copo de gim
E joga dados com um Deus bêbado que condena a alma.
Esta noite não é apenas mais uma noite sem dormir.
É a noite terrível que transforma em cristal o sangue que corre nas tuas veias
E te convida a girar o tambor do revólver na têmpora.
Gatos miam nas calçadas de cimento presas à iluminação pública;
Talvez Deus ou eu já tenhamos morrido.

 

 

_
▪ Lúcia Fraga
( Espanha 🇪🇸 )