O Medo Manda

A fome come medo ao peque-almoço.
O medo ao silêncio que atordoa as ruas.
O medo ameaça.
Se ama, terá sida.
Se fuma, terá cancro.
Se respira, será contaminado.
Se bebe, terá acidentes.
Se come, terá colesterol.
Se fala, terá desemprego.
Se anda, terá violência.
Se pensa terá angústia.
Se duvida, enlouquece.
Se sentir terá solidão.

 

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▪ Eduardo Galeano
( Uruguai 🇺🇾 )

 

Mês de maio

Escrevo, escrevo, escrevo
e não conduzo a nada, a ninguém.
As palavras debandam ao me ver
como pombas, surdamente crepitam,
arraigam-se em seu torrão escuro,
se prevalecem com escrúpulo fino
do inegável escândalo:
sobre a imprecisa escrita sombra
mais me importa amar-te.

 

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▪ Ida Vitale
( Uruguai 🇺🇾 )
in “Oidor andante” 1972, Arca Editorial, Uruguai

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Mudado para português por _ Gustavo Petter _ Poeta, Tradutor, Professor / Araçatuba/SP, Brasil
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VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

Mes de mayo

 

Escribo, escribo, escribo
y no conduzco a nada, a nadie.
Las palabras se espantan de mí
como palomas, sordamente crepitan,
arraigan en su terrón oscuro,
se prevalecen con escrúpulo fino
del innegable escándalo:
por sobre la imprecisa escrita sombra
me importa mas amarte.

 

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▪ Ida Vitale
( Uruguai 🇺🇾 )
De “Oidor andante” 1972, Arca Editorial, Uruguay