TINDER

Preenche o vazio com cartas guardadas em caixas
para que recordes que dizer adeus é normal;

Ouve a Petula Clark por um momento
e enche-te dessa felicidade pré-fabricada:
“ when you’re alone and life is making you lonely
you can alaways go downtown “

liga-te de novo
aos apps, aos desconhecidos noite afora,
nada tem maior significado do que a tristeza
com que encho os lábios para distribuir beijos
vermelhos, rosa, hálito fresco a solidão

passeio agora os vestidos que despias,
devia ser proibido seguir sempre a razão
arriscar o tudo por um pouco de sossego
e agora vou de novo atrás de quem saiba
puxar o laço e abrir o fecho às verdades
que dissemos na escuridão.

 

Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )
in ”Amantes ocasionais”

 

Notícias do Paraíso

No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que dactilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado
A princípio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstracção
mas não foram capazes de separar completamente
o espirito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o ultimo desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne
São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos

 

_

▪ Zbigniew Herbert
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para prtuguês por Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz

MAS

O deus do canto e do riso há muito
fechou as portas da eternidade atrás de si.
Desde então apenas de vez em quando
uma ténue memória ecoa em nós.
E desde então só a dor
não é de tamanho natural,
é sempre maior que o homem
e no entanto, deve alojar-se no seu coração.

 

▪ Vladimir Holan
( Checoslováquia 🇨🇿)
Mudado para português por Carlos Mendonça Lopes

 

PALAVRAS, ACTOS

A ironia ensina a sabotar uma frase
como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
no verbo ou numa letra do substantivo,
a frase trágica torna-se divertida,
e a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
a linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.

 

▪ Gonçalo M. Tavares
( Portugal 🇵🇹 )

Amor peixe e outras loucuras

Amor peixe e outras loucuras
é um processo extenso de recuperação. Recuperar de anos mergulhada na doença mental; recuperar de uma ideia de amor (que no fim era outra coisa qualquer); recuperar de um término doloroso e injusto. A melhor parte do Amor peixe, é que realmente se tratou de uma cura, de um testemunho que deixei pela causa da saúde mental, mas também de uma última conversa que nunca teve lugar.

Fui o Diabo de alguém a troco de compulsivo
Amor nos braços de outrem. Queixava-se do tempo
que tinha o corpo trocado com o inferno
vestidos de Lolita, uma ninfeta sem amparo —
e um pacto quebrado que impede os sobrelimites
da escrita – e do andamento nefasto da morte:
do consumo exasperado de literatura a troco
de umas poucas moedas de vida. Banalidades
que desaprendo com a virtude de desconhecer
a mão perversa que guia todos os poemas:
Sou-o por mim e de mais ninguém, alegras-me,
solidão de memória, inventada para todas as ocasiões
tal qual o vestido negro que dispo perante
Anjos Caídos, figuras celestiais à coca
de paranoias inventadas – redenções e outros
desgostos vívidos da fantasia que teima a vigilância
do demónio Maior Amor, Corpo torpe que cai-cai
e brilha a música que preenche o vazio e é
orquestra de espirito sem maestro.

Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )

EU QUERIA VIVER CONTIGO

 

… Eu queria viver Contigo,
numa pequena cidade
onde o crepúsculo é eterno
e o repicar dos sinos também.
Num modesto hotel rural –
com o som minimamente audível
de um antigo relógio – como gotinhas de tempo.
Por vezes, a meio da tarde, vinda de qualquer sótão –
a melodia de uma flauta
e o flautista junto à janela,
grandes tulipas nas varandas
e entretanto é possível que Tu
nem nunca me tenhas amado…

_________

No meio da sala – uma lareira de azulejos,
em cada azulejo – um desenho:
uma rosa – um coração – um barco. –
E na única janela –
neve, neve, neve.

Tu estarias deitado – como gostava de ver-te:
preguiçoso, indiferente, descuidado.
Uma vez por outra o raspar
de um fósforo.

O cigarro arde e apaga-se,
na sua ponta treme,
como um poste consumido – a cinza.
Dá-Te preguiça sacudi-la –
o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.

 

10 de Dezembro 1916

▪ Marina Tsvetáieva
( Rússia 🇷🇺 )
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto (a partir de tradução para espanhol de Natalia Litvinova)
 

TELEFONA-ME PARA O SILÊNCIO

Telefona-me para o silêncio
Do meu coração, o som
Baterá no que resta ainda dos cristais
Nos recantos vazios da noite

Esta noite
Preciso da luz apagada
Da minha estrela
Chamo-te quando vem o silêncio
Desse lado do fio, do frio
Deste telefone público sem respostas
Na profundidade dos teus ouvidos
Caem as minhas chamadas
Há um grito
No limite das sombras
A perder-se no abismo.

 

▪ J. T. Parreira
( Portugal 🇵🇹 )

NATÁLIA CORREIA

 

NATÁLIA CORREIA

 

Floriu imensa. E até a divindade a viu
Beber da Fonte ouro e estrelas: pérolas
Encantadas, da noite, que cobriu,
Coroadas de estrelas e de auréolas.

Partiu p’ rás Índias no azul imenso
Das águas ou do céu, mão do Ocaso;
Partiu com «lírios e feras», intenso
Fado onde havia pérolas num vaso.

E no esplendor das mesas penteava
Sonhos, ondas, séculos de cristais:
Verdes sombras verdes que transformava

Em clarões, poeiras, risos de adegas,
Que no calendário das águas musicais
Servia a morte com magias cegas.

 
 

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O último Rei de Portugal”, Fundação Lusíada, 1992”

 

Natália de Oliveira Correia nasceu nos Açores, na ilha de S. Miguel, a 13 de Setembro de 1923 e faleceu em Lisboa em 1993).No poema Mãe Ilha, Natália Correia revela quão cedo se apercebeu portadora de um dom, o dom da poesia: «Parti p’rás Índias do meu estranho caso» escreve neste poema Natália Correia. Tendo, como legado, no coração da ilha o vaso cheio de pérolas dos sonhos maternos, teve a consciência da dificuldade de cumprir o enigma da sua singularidade pois entendia que cumpria à atividade poética uma missão histórica sagrada pelo seu ofício de profecia. O seu tempo era um tempo em que a palavra se refugiava na escrita. A fala era um lugar de disfarce e desencontro, tudo era subentendido, falar era estabelecer territórios, hierarquias. Á volta do carisma de Natália Correia se acolhia todos os que amavam a Literatura. Natália Correia dava à vida das pessoas a noção de sentido perdido , achado ou por achar. Para se cumprir isolou-se como Herberto Helder mas de outra maneira: mantendo-se, como os taoistas chineses , só no meio dos homens e das suas tempestades. O que lhe não foi dado no amor com que sonhou seja dado à sua memória.

MÃE ILHA

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p’ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p’rás Índias do meu estranho caso
— ó danos que dos versos sois o engate! —
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.


Natália Correia, Antologia Poética, Publicações Dom Quixote
(Texto de Joana Ruas)