Ninguém nos tira a morte

Ninguém nos tira a morte

levamo-la nos ossos no sangue
cola-se a nós nos recantos da pele

e senta-se à espera
do momento de nos arrastar

ninguém nos tira a morte

nem quando levantamos a cabeça
e juntamos os joelhos

nem quando derrubamos os moinhos apesar de tudo
nem quando à força de ar ajustamos armaduras

ninguém nos tira a morte
sequer

quando nos escondemos sem fazer ruído sem ocupar espaço
para que não nos veja

ninguém nos tira a morte ainda
mas há quem se mantenha

íntegro
à sua passagem

 

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▪ María Gómez Lara
(Colômbia, n. 1989)
in “Nó de Sombras”, Editora Glaciar, Lisboa, 2015
Tradução – Nuno Júdice

Morte

Mais tarde, a cor deslumbrante da morte
ocuparia o limbo, as folhas destacar-se-iam
e cairiam deslizando no ar brumoso,
voltas semelhantes às dos aviões de papel
que lançam os alunos. Rabanadas de vento
de Oeste, empurrando velas de chuva,
fariam ranger como mastros
os ramos altos. As gaivotas planariam,
asas abertas, quase imóveis, sob o desfile
de nuvens baixo, cinzento e suave.
Todo o parque flagelado pela tempestade
tomaria matizes oceânicos. Vê-lo-íamos
caminhar só, mãos cruzadas atrás das costas,
ou então enfiadas nos bolsos,
ligeiramente arqueado, olhos no chão,
pelas alamedas molhadas. Qual marinheiro
desembarcado, pensava eu, tornado melancólico
pela recordação das vagas que levam,
depois abandonam, depois voltam a levar
o seu corpo: dobrado, desdobrado, batendo
como um coração ao ritmo da grande
pulsação das águas. Para sempre inerte.
Ó morte, velho capitão.

 

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▪ Olivier Rolin
(França, n. 1947)
in “Porto-Sudão”, Asa, Lisboa, 1995
Tradução – João Duarte Rodrigues