A MÁQUINA “Volta” QUE AGRADECE

Disseram-me:
é pelo planeta.

Disseram-me:
é uma pequena mudança
que todos podemos fazer.

Eu gostei da palavra
pequena.

As coisas pequenas
cabem na cozinha.

Cabem debaixo do lava-loiça.
Cabem ao lado do caixote.
Cabem no canto onde antes
eu guardava coisas
que não sabia onde guardar.

Agora guardo garrafas.

Sou uma espécie de empregado
da minha própria casa.

Tenho um saco de plástico
cheio de futuros.

Levo o Futuro ao supermercado.
O Futuro faz fila.

O Futuro espera a sua vez
para ser reconhecido pela máquina.

A máquina tem um buraco
para cada coisa.

A máquina sabe mais
sobre as minhas latas
do que eu sei
sobre os meus vizinhos.

A máquina engole.
A máquina pensa.
A máquina cospe um papel.

Parabéns!…

Aqui estão os seus dez cêntimos.

Eu agradeço.
Agradeço muito.

É bonito quando uma máquina
nos devolve uma coisa
que nós comprámos
antes de ela nascer.

Chamam-lhe recompensa.

Mas eu lembro-me
de ter pago primeiro.

Chamam-lhe consciência.

Mas a consciência agora
vem com código de barras.

Chamam-lhe participação.

Eu participo.

Participo a separar.
Participo a transportar.
Participo a trabalhar.

De graça.

Porque me ensinaram
que o trabalho voluntário
é mais leve
quando vem embrulhado
em palavras verdes.

A garrafa não sabe
que é valiosa.

A lata não sabe
que vale dinheiro.

Eu sei.

Por isso guardo-as.

Sou o primeiro armazém.
Sou o primeiro camião.
Sou a primeira pessoa
da cadeia.

No fim,
recebo uma moeda pequena.

Tão pequena
que quase parece
uma anedota.

Mas não é.

É só o sistema
a dizer:

obrigado por fazer
o nosso trabalho.

E eu digo:
de nada.

Até amanhã.

Tenho mais garrafas
para salvar o mundo.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

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