A INCRÍVEL NECESSIDADE DE ESCREVER

A Poesia não é um exercício. É uma experiência.
A Poesia é um modo peculiar de “tirar” as pessoas da banalidade, de lhes outorgar a sua singularidade.
O Poema, uma língua “partida”, traz as suas cicatrizes.
As cicatrizes são os estados em que a língua estremece, no lapso, ao inventar uma palavra ou ao usar um gesto gráfico.
No Poema há um mal-estar que permite que o “eu” faça uma viagem até a uma fonte .
Depois o sujeito, já acompanhado pelo eu poético e pela exposição, achará um caminho.
Há uma espécie de intercomunicação que se faz e que nunca um sistema político fará.
De todos os discursos que existem hoje, o único discurso que conversa com a transformabilidade do psíquico, da sobrevivência do indivíduo, da pessoa humana, é a Poesia.
A Poesia preserva a liberdade do indivíduo.
A Poesia é polifónica.
Quando não se entra fundo, a Poesia acaba por ser um partido.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Reflexões “

 

PORTUGAL

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

 

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▪ Jorge Sousa Braga
( Portugal 🇵🇹 )

 

POR DENTRO

A caminho de tua casa para uma festa de amor
a uma esquina vi
uma velha pedinte.

Peguei-lhe na mão,
beijei-lhe a face delicada,
falámos,
por dentro era como eu,
a mesma natureza,
percebi logo isso
como um cão conhece outro
pelo cheiro.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia afastar-me dela.
No fim de contas, precisamos
de alguém que nos seja próximo.

E depois não sabia já
por que estava a ir para tua casa.

 

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▪ Anna Swir
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para português por Francisco Craveiro de Carvalho,a partir da tradução inglesa de Czeslaw Milosz & Leonard Nathan

UMA FOLHA DE ERVA

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
Do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
Não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia àcerca
De como uma folha de erva
Se torna cada vez mais difícil de oferecer

E de como quanto mais envelheces
Uma folha de erva
Se torna mais difícil de aceitar.

 


▪Brian Patten
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga