ANAMNESE

Não procures atravessar o espelho,
Não há nada atrás dele e nada nele,
Não é de vidro e prata a tua pele,
Nem te mira invertido o que há adiante —
É parede, não porta, esse aparelho
Que faz a luz mentir, presa no instante.

Mas no que há atrás de ti, e não se espelha
Ao fundo do teu simulado rosto,
Ali fica o portal, jamais exposto,
Que espera a chave nova e há eras lavrada,
Ali há um que contigo se assemelha,
E que a empunha a te olhar, e não diz nada.

 

21-9-2015
 
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▪ Alexei Bueno
( Brasil 🇧🇷 )
in “Desaparições”, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva, Editora Exclamação, Porto, 2017

 

VIDA RETIRADA

não tenho pressa de sair da cama, agora não há nada a fazer em casa
não tenho nada em particular a iniciar, o sítio é pacífico
a luz dos bambus concentra a cor da paisagem
o reflexo da minha cabana move-se na corrente do rio
as minhas crianças não vão à escola, deixo-as preguiçar por aí
sempre pobre, a minha mulher preocupa-se
cem anos de preocupações, cem anos de delírio
há um mês sem me pentear

 

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▪ Tu Fu
( China  🇨🇳 )
in “Entre Céu e Terra”, Editora Licorne, Évora, 2020

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Transgressão de _ Manuel Silva-Terra 🇵🇹 Poeta e editor

FALÁVAMOS DO IMPREVISTO

Falávamos do imprevisto
Das oportunidades que a vida nos dá. Do esforço, do rompimento,
Da investida.
Mas foram os teus olhos que me fizeram prosseguir nesta jornada.
Acreditei-os e desejara, desde logo, tudo. Menos o corpo.
Nada percebia dessas coisas.
Na minha vida tive apenas um laranjal
Cujos frutos não tive a quem dar e eu teria gostado de certa clientela.

Falámos de amor (eu não sabia o seu significado ou já teria
esquecido, nem sei)
E esperei que resumisses o teu corpo e o meu
Na combustão da locomotiva que partira, momentos antes.

Primeiro, despi-te em pensamento
Depois encontrei-te na ideia mais concreta de seres
um pássaro entre laranjas.

(a ti, leitor: muda de página, parte na tua história).

 

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▪ Rui Pedro Gonçalves
( Portugal 🇵🇹 )
Da revista “Telhados de Vidro”, Edições Averno, 2009

AO SOLDADO INTERNACIONAL CAÍDO NA ESPANHA

Se há homens que contém uma alma sem fronteiras,
espalhada a fronte e cabelos pelo mundo,
coberta de horizontes, barcos e cordilheiras,
com areia e neve, tu és um desses.

As pátrias te convocaram com todas as suas bandeiras,
que teu alento cobriu de movimentos belos.
Quiseste apaziguar a sede das panteras,
e hasteaste pleno contra seus flagelos.

Com o sabor de todos os sóis e mares,
a Espanha te colhe para que nela realizes,
tua majestade de árvore que abarca o continente.

Através dos teus ossos irão as oliveiras
desenraizando da terra as mais férreas raízes,
abraçando aos homens universal, fielmente.

 

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▪ Miguel Hernández
( Espanha 🇪🇸 )
in “Viento del Pueblo”, Valencia, Socorro Rojo Internacional, 1937
Prólogo de Tomás Navarro Tomás

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Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br


 

AL SOLDADO INTERNACIONAL CAÍDO EN ESPAÑA

 

Si hay hombres que contienen un alma sin fronteras,
una esparcida frente de mundiales cabellos,
cubierta de horizontes, barcos y cordilleras,
con arena y con nieve, tú eres uno de aquéllos.

Las patrias te llamaron con todas sus banderas,
que tu aliento llenara de movimientos bellos.
Quisiste apaciguar la sed de las panteras,
y flameaste henchido contra sus atropellos.

Con un sabor a todos los soles y los mares,
España te recoge porque en ella realices
tu majestad de árbol que abarca un continente.

A través de tus huesos irán los olivares
desplegando en la tierra sus más férreas raíces,
abrazando a los hombres universal, fielmente.

 

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▪ Miguel Hernández
( Espanã 🇪🇸 )
in “Viento del Pueblo”, Valencia, Socorro Rojo Internacional, 1937
Prólogo de Tomás Navarro Tomás