░ O gabinete de penitência

Eu fazia a correr e às escondidas
as coisas mais inocentes
por isso fui punida
fecharam-me numa casa chamada
Gabinete de Penitência
deram-me uma tesoura e uma folha de papel
vai dobrar a folha de papel
recortar meia menina
com as pontas dos cabelos viradas para fora
com uma saia
com mãos
com pés
quando abrir o que recortou
verá duas meninas
ligadas pelas pontas dos cabelos
pelas pontas das saias
pelas mãos
pelos pés
dobrei o papel em quatro
recortei meia menina
quando abri o papel
as duas meninas estavam separadas
a menina fez batota bem vi
mas vai aprender a fazer dobragens
para se penitenciar
cortando-as

 

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▪ Adília Lopes
(Portugal, n. 1960)
in “Um jogo bastante perigoso”, Editora Moinhos, Belo Horizonte BR, 2018

░ Deus nos lírios

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

 

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▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
Da revista “Telhados de Vidro – n.º 12”, Edições Averno, 2009

░ Dois poemas

 

░ Restos

 

Os ossos da minha mãe num nicho.
As cinzas da minha tia também.

Uma vida.
Uma vida.

 

 

░ Aprendam com a folha da amendoeira

 

 

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O resplendor
é o mais importante.

 

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▪Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

░ Blake

Observo William Blake, que descobria anjos
nas copas das árvores todos os dias,
encontrou Deus nas escadas
da sua pequena casa e via luz em vielas sujas —
Blake que morreu cantando alegremente
numa Londres apinhada
de prostitutas, almirantes e milagres,
William Blake, gravador, que trabalhou
e viveu na pobreza mas não em desespero,
que recebeu sinais ardentes
do mar e do céu estrelado,
que nunca perdeu a esperança, pois a esperança
renascia sempre como a respiração,
vejo os que como ele caminharam por ruas sombrias,
na direcção da orquídea rósea da madrugada.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2008

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Blake

 

I watch William Blake, who spotted angels
every day in treetops
and met God on the staircase
of his little house and found light in grimy alleys—
Blake, who died
singing gleefully
in a London thronged
with streetwalkers, admirals, and miracles,
William Blake, engraver, who labored
and lived in poverty but not despair,
who received burning signs
from the sea and from the starry sky,
who never lost hope, since hope
was always born anew like breath,
I see those who walked like him on graying streets,
headed toward the dawn’s rosy orchid.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Eternal Enemies”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2008
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh

░ O MISTÉRIO DAS ORAÇÕES

Na minha família
as orações eram rezadas secretamente,
em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor;
quase murmuradas,
com um suspiro no princípio e no fim,
fino e limpo como uma gaze.

Junto à casa
havia apenas uma escada para subir,
de madeira, encostada à parede o ano inteiro,
de modo a reparar o telhado em Agosto, antes das chuvas.
Mas, em vez de anjos,
subiam e desciam homens
sofrendo de ciática.

Rezavam-Lhe olhos nos olhos,
na esperança de renegociar os seus contratos
ou adiar os respectivos prazos.

“Senhor, dá-me forças”, nada mais,
pois eram descendentes de Esaú,
abençoados com a única bênção que restara de Jacob
– a espada.

Na minha casa
a oração era considerada uma fraqueza
que nunca se devia mencionar,
tal como fazer amor.
E, tal como fazer amor,
era seguida pela assustadora noite do corpo.

 

_
▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia, n. 1968)
in “Telhados de Vidro n.º 22”, Averno, Lisboa, 2017

Mudado para português por _Inês Dias_ e _Marjeta Mendes_

░ Há quem diga

A morte tem luvas brancas tão belas.
Todos os que amo já têm as suas.
E o temor das pessoas é como estrelas
sobre o seu arco de triunfo.

Seus dedos longos de bruma.
Revoltos pela luz do luar.
E pelo temor das pessoas.

Há quem diga que ela é um alforge da lua.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

 



Cambiado a español

 

░ Hay quien dice

 

La muerte tiene hermosos guantes blancos.
Tienen los suyos todos los que amo.
Y el temor de la gente, como estrellas
en su arco de triunfo.

Dedos largos de bruma.
Revueltos por la luz de la luna.
Y por el temor de las personas.

Hay quien dice que es alforja de la luna.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

                                                                                                     *

Cambiado a español por — José Ángel Cilleruelo — Poeta, narrador, traductor y crítico.

 

░ Os Abutres

 

Ao Herberto Helder, in memoriam

 
I

Morre um poeta
cai um avião
os abutres limparão os corpos
deixando os ossos espalhados
pelas encostas frias das montanhas

Roubarão ao poeta
as palavras não-ditas
que ele fora amortalhando
como se adivinhasse…

Bastaria morrer
para que se abrissem
as páginas dos jornais
com o seu rosto cansado

Poderá ver de longe
com um sorriso amargo
alguma correria aos livros
mais antigos, de que ele
dizia irónico são apenas folhetos…

II

Eu guardo para mim
os primeiros encontros
no café Gelo, ao Saldanha,
diante da bica
nesses anos sessenta, onde
o sucesso pouco importava e
apenas se falava do livro
entregue para publicação
ou de algum outro autor
que se estivesse a ler

Vivia-se entre amigos,
era o Carlos Ferreiro, pintor,
quem fazia as vinhetas
e os desenhos que o Vítor S. T.
lhe ia pedindo para as edições & etc.
Os seus desenhos eram ampliação
da palavra mais negra, mais oculta
batiam no coração.

Anos mais tarde, já depois
da Revolução de Abril,
era com o Alberto Pimenta
outro poeta, um amigo de sempre,
que se discutia o interesse da tão
aguardada nova escrita:
escassa e rara, fazia-se politiquice,
não se lia, o mundo lá fora pouco
ou nada existia
e era assim que o poeta
entristecia

Pego ao acaso num desses “folhetos”
que ele sabia enviar-me, sabia que eu gostava
fui sempre fiel e lia –
desde A Colher na Boca não mais me separara

E aqui o tenho e leio, um deles,
as folhas amareladas pelo ouro do tempo
O Corpo O Luxo A Obra
reparo que há lá dentro uma carta
de que não me lembrava,
estamos em 1978 e ele escreve
a agradecer algo que eu lhe tinha enviado.
É uma carta gentil, caligrafia miúda,
muito bem desenhada…

Para O Corpo O Luxo A Obra
ele escolhera uma epígrafe de Húmus
anterior de dez anos (1966/67)
mas já fecha o seu livro, o tal folheto,
com uma citação da Tabula Smaragdina,
de Hermes Trismegisto, o Pai fundador
da alquimia: é um aceno discreto que me faz
recordando que também ele estudava o ouro
da alquimia, “ouro que se gera a si próprio
no interior da terra”…

Queria ver talvez se eu tinha mesmo
chegado ao fim do livro, o seu folheto,
que o não era, era já o poema contínuo
de uma vida, ela sim forrada por dentro
a folha de ouro, o ouro das palavras
“o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra”.

Despeço-me, aqui mesmo,
como no café Gelo,
sem saber até quando

A mim, também já de saída,
citar ou evocar já não me chega,
aguardarei o sinal que a Mãe
na véspera me tinha dado
mas sem dizer mais nada:
era um sonho, vejo a Mãe,
aguardando de pé, elegante
e de negro, vestida para uma festa,
enquanto à sua frente, na mesa coberta
por toalha de linho, vários talheres de prata
ainda espalhados, iam ser arrumados

Vejo-a que espera, ainda faltava alguém,
ainda viria alguém para arrumar aquele
resto de vida: era afinal o Poeta,
o filho tão aguardado…

 

_
▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Poemas Com Endereço” (2010-2015), Mariposa Azual, Lisboa, 2015