DOIS EXTREMOS

Minha vida tem dois extremos.
No extremo esquerdo estou eu.
No extremo direito, Deus.
Deus e eu nunca nos encontramos,
embora mais de uma vez  os nossos
extremos se tenham tocado.
Enquanto ele olha para cima, eu olho para baixo,
tentando não cair.
Porque as duas pontas estão unidas por um cabo fino,
alto e esticado, como um pássaro de aço.
À noite caminho em direção ao fim de Deus,
mas assim que chego, Deus desaparece.
O vazio que fica em seu lugar é a única prova
de que existo.

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▪ Rogelio Guedea
( México 🇲🇽 )

 

AR DO TEMPO

Nuvem
Ergue-se um cavalo branco
E é madrugada na estalagem onde despertará o
primeiro que aparecer
Vais andar a vadiar no meio da gente a vida inteira
Semi-morto
Semi-adormecido
Não estás farto dos lugares comuns
As pessoas olham-te sem se rirem
Têm olhos de vidro
E tu passas
Perdes o teu tempo
Passas
Contas até cem e fazes batota para matar mais dez segundos
Estendes bruscamente o braço para morrer
Não tenhas medo
Mais tarde ou mais cedo
Só haverá mais um dia e a seguir um dia
E depois pronto
Nunca mais será preciso ver os homens nem esses abençoados
bichinhos que eles afagam de quando em vez
Nunca mais será preciso falar sozinho durante a noite
para não ouvir o lamento da lareira
Nunca mais será preciso abrir as minhas pálpebras
Nem lançar o meu sangue como um disco
Nem respirar sem ter vontade disso
Contudo não desejo morrer
O sino do meu coração canta em voz baixa uma
uma esperança muito antiga
Esta música
Bem sei
Mas a letra da canção
Que dizia a letra ao certo
Imbecil


▪ Louis Aragon
( França 🇨🇵 )
Mudado para português por Regina Guimarães

ESTADO INTERIOR

Com o mar de um lado e do outro o campo, como não pensar o símbolo e o ritual? O título da autobiografia de Woody Allen, “A Propósito de Nada”, serve de cenário ao filósofo Byung-Chul Han. Pensamento fundamental num mundo em dispersão. Alerta para as perigosíssimas consequências do esquecimento do símbolo:
“Enquanto forma de reconhecimento, a percepção simbólica percebe o duradouro. Desse modo o mundo é libertado da sua contingência e ganha algo que permanece. Ao mundo, hoje, falta muito o simbólico. Dados e informações carecem de força simbólica.
Logo não permitem nenhum reconhecimento. No vazio simbólico, as imagens e as metáforas geradoras de sentido e fundadoras de comunidade que dão estabilidade à vida perdem-se.
A experiência da duração diminui. E a contingência aumenta radicalmente. ”

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▪ Byung-Chul Han
( Coreia do Sul 🇰🇷)
in “Do Desaparecimento dos Rituais”, ed. Relógio D’Água

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“Se uma flor tivesse em si mesma a sua plenitude ôntica, não teria necessidade de que a contemplassem. O que significa que a flor tem uma carência, uma carência ôntica. O olhar amoroso, esse “conhecimento guiado pelo amor”, redime-a do estado de indigência, fazendo com que esse conhecimento venha a ser “análogo à redenção”. O conhecimento é redenção. O conhecimento entabula uma relação amorosa com o seu objeto enquanto outro.”

Byung-Chul Han

O Medo Manda

A fome come medo ao peque-almoço.
O medo ao silêncio que atordoa as ruas.
O medo ameaça.
Se ama, terá sida.
Se fuma, terá cancro.
Se respira, será contaminado.
Se bebe, terá acidentes.
Se come, terá colesterol.
Se fala, terá desemprego.
Se anda, terá violência.
Se pensa terá angústia.
Se duvida, enlouquece.
Se sentir terá solidão.

 

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▪ Eduardo Galeano
( Uruguai 🇺🇾 )

 

Mendigos invadem a casa

Mendigos invadem a casa.

Já não cabem nas ruas,
foram escorraçados das praças e dos parques das cidades.

Caminharam quilómetros.
Transportam outros mendigos às costas.

Entram, ruidosos, por portas que alguém, ou alguma coisa,
abriu de par em par.

Não pedem dinheiro nem comida, pedem livros.

Alguns estão na biblioteca
e exigem que se lhe dê a ler os poemas que escolheram.

Sentam-se nas cadeiras ao acaso, deitam-se desordenadamente no chão,
distribuem-se, pensativos e sóbrios, pelas mesas que transbordam de comida.

Rezam antes de comer, pedem perdão pelas coisas que fizeram,
pelos crimes que cometeram
e pelos que voltarão a cometer.

De olhos fechados, quase imperceptivelmente, rezam movendo os lábios.

Abrem e fecham as mãos, onde brilham estrelas tatuadas.

Estão agora calmos; alguns velam, protegem os que adormeceram.

Um deles boceja, vencido pelo sono.

Outro levanta a cabeça por entre o mar de corpos enroscados
como um cão que interroga com o faro uma casa vazia, desde há muito
[fechada.

Como água correndo,
ouve-se o murmúrio inteligente de uma pessoa que chora em voz baixa.

Ninguém tem frio

No meio da imensa noite, alguém sorri.

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▪ António Ladeira
( Portugal 🇵🇹 )