Eu fumo com relutância no escuro

Esta noite é mais uma noite sem dormir
em que as flores da minha vida murcham.
Pétala após pétala, sinto em mim um vazio mortal
que deixa para trás os olhos que estão esmagados na parede.
A vida à noite se afoga num copo de gim
E joga dados com um Deus bêbado que condena a alma.
Esta noite não é apenas mais uma noite sem dormir.
É a noite terrível que transforma em cristal o sangue que corre nas tuas veias
E te convida a girar o tambor do revólver na têmpora.
Gatos miam nas calçadas de cimento presas à iluminação pública;
Talvez Deus ou eu já tenhamos morrido.

 

 

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▪ Lúcia Fraga
( Espanha 🇪🇸 )

 

SEM CABEÇA

Até mesmo a manhã custa a perceber.
É como se alguém me decepasse a cabeça a meio da noite
e as horas se enganassem à volta do meu pescoço.

É fácil retratar uma degolação poética
em tempos de barbárie
tecnológica.

Afinal acordei no meio de gente ainda com cabeça
e eu sou aquele avô que os media
sempre ensinam.

Desgraçados dos tais
vestidos de amarelo para melhor serem vistos
com a faca viva encostada à garganta.

Comecei com a manhã imprecisa
meio cego a procurar um verso meu no meio da bruma
com a delicada nervosa faca de papel.

O mundo é um globo de gente ajoelhada,
de cabeças suspensas. E eu ao sair, só, do sono,
decapito o poema.

 

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▪ Armando Silva Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )

A CHUVA, OS TRABALHOS, OS DIAS.

Foi tudo o que aprendi: límpida e generosa é a chuva.
Molha a delicada cambraia dos senhores e os andrajos do
camponês,
inunda os lábios gretados dos amantes,
lava as mãos impunes dos cobardes,
a folha caduca da perene não distingue.
Poupa ao lavrador o trabalho e a despesa de regar os pomares.
Com um pouco de sorte e de espanto
também este ano
abundarão as sacas de laranjas e de romãs
na tua arrecadação.

 

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▪ Luís Filpe Parrado
( Portugal 🇵🇹 )

in “Roma Não Perdoa a Traidores”

No mês do Setembro Amarelo, escritor e poeta aramyz expõe em livro sua luta contra a depressão
“Suicídios Diários”, obra publicada pela editora Urutau, reúne poemas de caráter autobiográfico, que a editora Debora Ribeiro Rendelli define como um “livro para celebrar a vida”, embora trate de um tabu social, o suicídio

Suicídios Diários, do poeta aramyz

 
Setembro é o mês em que a importância dos cuidados com a saúde mental ganha ainda mais notoriedade na população, devido à campanha Setembro Amarelo (da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina), voltada à prevenção do suicídio.

Embora o assunto ainda seja considerado um tabu na sociedade, a campanha é uma ótima oportunidade para conscientizar a população, fazer com que estes estigmas sejam quebrados e, acima de tudo, estimular que as pessoas busquem e ofereçam ajuda.

Partindo deste princípio de jogar luz sobre este tema-tabu e trazendo sua história de luta pela vida como referência, o escritor e poeta baiano-paranaense aramyz decidiu transformar em poemas a sua luta pessoal contra a depressão que culminou ao extremo de tentativas de suicídio – felizmente frustradas.

E o público poderá ter contato de perto com a história e as emoções de aramyz por meio deste seu novo livro de poesias, Suicídios Diários (Editora Urutau, 100 págs.), que acaba de ser lançado e já vem sendo bem recebido por críticos que tiveram contato com a obra. Alan dos Santos, criador do blog e do perfil no Instagram Deus Ateu, faz o seguinte comentário sobre o livro: “Um magnetismo absurdo. Só quem escreve com o corpo, com a existência e suas dores consegue produzir algo assim. O que seria da literatura se não fosse a dor e a delícia de estar vivo diante da morte?”.

Livro para Comemorar a Vida – Com prefácio da renomada escritora portuguesa Maria Azenha, Suicídios Diários reúne 60 poemas de caráter autobiográfico, que embora tratem de um tema pesado, foram publicados como “um livro para comemorar a vida”, como assim definiu a editora Debora Ribeiro Rendelli.

aramyz revela que, para organizar o livro, resgatou seus poemas escritos nos momentos de crise que, segundo ele, “estavam guardados, trancafiados, escondidos em cadernos, e-mails e gavetas”. Ele destaca que “venho escrevendo desde que tive o primeiro pensamento suicida. Foi um livro construído ao longo da vida, por isso, tão pessoal. Esses poemas foram escritos a cada sobrevivência de uma crise e a decisão de publicar foi exatamente num momento onde se fez necessário falar. Em algum momento ele viria à tona”, analisa o autor.

Conscientização do Público – Para cumprir esta missão de quebrar o tabu e conscientizar o público, Suicídios Diários traz o texto introdutório “porque preciso falar sobre isso”, em que o próprio autor relembra sua trajetória pessoal, incluindo a descoberta de ser portador do transtorno do espectro autista.

“minha vida, minha solidão, minha aversão a barulhos, ambientes agitados, excesso de iluminação, alguns comportamentos que chamam de toc, meu mau humor, aversão a contatos físicos, minha dificuldade de olhar nos olhos das pessoas, minha aversão a letras maiúsculas, seletividade alimentar, minhas depressões, minhas tentativas de suicídio, minhas solidões, meus interesses restritos e repetitivos, meu hiperfoco, alguns comportamentos e falas mal colocadas, que são vistos como falta de empatia. hoje tomo medicação controlada, faço análise, terapia ocupacional, e as ideias de suicídio diminuíram, mas não passaram” – trecho de Suicídios Diários.

Ainda no texto de abertura de seu novo livro, aramyz reforça lições importantes sobre aprendizado e gratidão: “tenho aprendido todos os dias que minha vida é importante, um presente do qual tiro o laço, desembrulho do papel colorido, visto e uso por mais um dia, com todos os altos e baixos, sendo atropelado por estranhas sensações e pensamentos que me doem, tenho aprendido a viver assim, um dia depois do outro, entendendo minhas dores, falando sobre elas, brindando minhas vitórias, convivendo com minhas derrotas e meus fracassos, quero continuar lutando, continuar vivendo, e agradecendo, agradecendo todos os dias”.

Já para a poeta portuguesa Maria Azenha, “esta confrontação com a sombra é um difícil e às vezes trágico duelo entre o poeta e o lado sombrio de si mesmo. aramyz não deixa ninguém indiferente”, define no prefácio de Suicídios Diários. Ela completa ainda, ressaltando que “esse mundo quase ignorado que pode emergir de maneira inesperada e quase sempre inquietante em qualquer poema deste livro”.

Gritos no Abismo – Quando questionado sobre como trabalha esta necessidade de “gritar ao mundo”? aramyz é enfático: “todo grito vem do abismo, acredito que os abismos são lugares sem luz, sem som, os precipícios, as profundezas, quando se atinge esse ponto, ou se desce mais e se enterra na escuridão, ou sobe e grita, eu escolhi gritar”.

Suicídios Diários
Autor: aramyz
Editora: Urutau
Páginas: 100
ISBN: 978-65-5900-706-6
Dimensões: 13cm x 16,5cm

 

in: Gazeta da Semana 

SOM

Nem sequer é música isto que ouvimos,
é um arrastar de pés, de pedras, de pás que
escavam uma casa de cinzas,
são degraus que descemos,
martelando surdamente,
esmagando pétalas, insectos, cristais,
é um trabalho de facas no trono das acácias,
dos cedros,
facas que atravessaram os pulsos e o coração,
é um rangido de portas,
janelas que batem,
o vento nos ramos,
nas folhas quebradas do Outono,
não, nem sequer é música isto que ouvimos.

 

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▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Anjos Caídos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

CORVO GIGANTE

Na cidade existe um único pássaro
que grita.

Tudo se esboroa num momento
de silêncio.

Ele fica só
e chama as coisas pelos nomes
o mármore as pedras o cimento
a água os canos.

Tudo aquilo tem um sabor
que se estende pelo mar
como um corvo gigante.

É um pássaro lilás
que rouba as nogueiras
e desespera.

 


▪ Jaime Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A perfeição das coisas”, Editorial Caminho, Lisboa, 1988

A CASA GRANDE

Estamos a sair da casa grande.
Malas feitas, eu já me despedi
de toda a gente,
falta só ir à cozinha
dar um último abraço.

A casa grande.
Por que vamos embora?
Igual à vida,
um sítio de passagem?
Na vida não se fica,
é só viagem…

Enquanto digo adeus
trazem como oferenda
uma taça de vidro
com morangos
polvilhados de açúcar.
Escolho alguns e chega
entretanto um dos meus filhos
a quem também são dados
em partilha.

Comemos só
um ou outro morango
a taça ainda fica cheia.

Os morangos:
fruto do coração?
Fruto vermelho
como o sangue da vida?
A vida partilhada
na hora da despedida?

 

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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.