Diz:
diz o nome
escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo
as rosas
de pétalas arrancadas
as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência
__
Diz:
diz o nome
escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo
as rosas
de pétalas arrancadas
as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência
__
No Outono eu sou a árvore da casa
e começo a recolher-me, a guardar
as últimas tranças do sol. Um frio ligeiro
arranha o pouco que tenho, as noites
começam a ser mais longas e as pessoas
que amava vão-se embora. É mais difícil
o início.
a ideia da ausência, do meu corpo sem folhas,
do que a ausência viva que habitará o Inverno.
À minha frente, parada como eu, a árvore
da outra casa sofre a mesma agonia. E não falamos,
não aprendemos como se falam e abraçam,
as árvores no outono.
_
▪ Teresa Agustín
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga
Na noite do funeral
eles abraçaram-me,
beijaram-me, mesmo esses
que habitualmente não beijam.
Apoiaram-me e perguntaram
se precisava de soporíferos,
estimulantes,
um xerez ou companhia para a noite.
Cada noite é um funeral
mas ninguém vem para me abraçar.
Ninguém pergunta como as coisas vão
se preciso de companhia para a noite,
um xerez, um soporífero.
Porque é apenas um dia como tantos
que morreu, e todos
temos que gerir isso o melhor que pudermos.
__
▪ Margareta Ekström
(Suécia 🇸🇪 )
Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães
Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar este poema.
Toquemo-lo com o sol da meia-noite
e com a luz do meio-dia.
Com ele exorcizemos a água dos refúgios
por entre palavras fendidas.
À sombra dos dragões do céu
silenciemos a nossa imensa solidão.
__
Esta noite é mais uma noite sem dormir
em que as flores da minha vida murcham.
Pétala após pétala, sinto em mim um vazio mortal
que deixa para trás os olhos que estão esmagados na parede.
A vida à noite se afoga num copo de gim
E joga dados com um Deus bêbado que condena a alma.
Esta noite não é apenas mais uma noite sem dormir.
É a noite terrível que transforma em cristal o sangue que corre nas tuas veias
E te convida a girar o tambor do revólver na têmpora.
Gatos miam nas calçadas de cimento presas à iluminação pública;
Talvez Deus ou eu já tenhamos morrido.
_
▪ Lúcia Fraga
( Espanha 🇪🇸 )
Até mesmo a manhã custa a perceber.
É como se alguém me decepasse a cabeça a meio da noite
e as horas se enganassem à volta do meu pescoço.
É fácil retratar uma degolação poética
em tempos de barbárie
tecnológica.
Afinal acordei no meio de gente ainda com cabeça
e eu sou aquele avô que os media
sempre ensinam.
Desgraçados dos tais
vestidos de amarelo para melhor serem vistos
com a faca viva encostada à garganta.
Comecei com a manhã imprecisa
meio cego a procurar um verso meu no meio da bruma
com a delicada nervosa faca de papel.
O mundo é um globo de gente ajoelhada,
de cabeças suspensas. E eu ao sair, só, do sono,
decapito o poema.
__
▪ Armando Silva Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )
Foi tudo o que aprendi: límpida e generosa é a chuva.
Molha a delicada cambraia dos senhores e os andrajos do
camponês,
inunda os lábios gretados dos amantes,
lava as mãos impunes dos cobardes,
a folha caduca da perene não distingue.
Poupa ao lavrador o trabalho e a despesa de regar os pomares.
Com um pouco de sorte e de espanto
também este ano
abundarão as sacas de laranjas e de romãs
na tua arrecadação.
_
▪ Luís Filpe Parrado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Roma Não Perdoa a Traidores”
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