SOU DE VIDRO

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

 

▪ Lídia Jorge
( Portugal 🇵🇹 )

EN ROUTE

 

1 – SEM BAGAGEM

….. Viajar sem bagagem, dormir no comboio
….. num banco de madeira duro,
….. esquecer a terra natal,
….. sair de pequenas estações
….. quando um céu cinzento se levanta
….. e os barcos de pesca se dirigem para o mar.

 

2 – NA BÉLGICA

….. Na Bélgica chuviscava
….. e o rio serpenteava entre montes.
….. Sou tão imperfeito, pensei.
….. As árvores estavam nos campos
….. como padres de sotainas verdes.
….. Outubro escondia-se nas ervas.
….. Não, minha senhora, disse eu,
….. este é o compartimento de não faladores.

 

3 – UM FALCÃO ÀS VOLTAS POR CIMA DA AUTO-ESTRADA

….. Ficará desapontado se se lançar
….. sobre uma placa de ferro, gasolina,
….. uma cassete de música rasca,
….. os nossos corações apertados.

 

4 – MONT BLANC

….. De longe brilha, branco e cauteloso,
….. como uma lanterna para as sombras.

 

5 – SEGESTA

….. No campo um vasto templo—
….. um animal selvagem
….. aberto ao céu.

 

6 – VERÃO

….. O verão era gigantesco, triunfante—
….. e o nosso pequeno carro parecia perdido
….. na estrada para Verdun.

 

7 – A ESTAÇÃO EM BYTOM

….. No túnel subterrâneo
….. crescem pontas de cigarro,
….. não malmequeres.
….. Tresanda a solidão.

 

8 – REFORMADOS NUMA VIAGEM DE ESTUDO

….. Estão a aprender a andar
….. em terra.

 

9 – GAIVOTAS

….. A eternidade não viaja,
….. a eternidade espera.
….. Num porto de pesca
….. só as gaivotas são faladoras.

 

10 – O TEATRO EM TAORMINA

….. Do teatro em Taormina vê-se
….. a neve no cume do Etna
….. e o mar resplandecente.
….. Qual é o melhor actor?

 

11 – UM GATO PRETO

….. Um gato preto sai para nos saudar
….. como a dizer olhem para mim
….. e não para uma velha igreja românica.
….. Eu estou vivo.

 

12 – UMA IGREJA ROMÂNICA

….. No fundo do vale
….. uma igreja Românica em repouso:
….. há vinho neste barril.

 

13 – LUZ

….. Luz nas paredes de casas velhas,
….. Junho.
….. Transeunte, abre os olhos.

 

14 – DE MADRUGADA

….. A materialidade do mundo ao amanhecer –
….. e a fragilidade da alma.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, published by Farrar, Straus and Giroux, New York, 2008

*

Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh | (https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57094)

As minhas mãos haviam esquecido Lorca

Embora o meu corpo estivesse cheio dele pois
passara parte do sábado anterior a discutir
a sua poesia com um marinheiro chileno, as minhas mãos
haviam esquecido Lorca.

………………………………. Até esta noite em que,
dando uma vista de olhos a uma antologia,
deparei com um poema dele chamado Córdoba.

E, abrindo um atlas para procurar
esta cidade, apercebi-me ao deslocar
os dedos sobre o mapa de Espanha

de que afagava a face de Lorca.

 

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▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “The Right Foot of the Giant“ publicado por Bumper Books em 1999

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho

PEQUENOS VIDROS AZUIS

Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último –
e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
– as velas de um sopro apagou –
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de Dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.

 

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▪ João Miguel Fernandes Jorge
( Portugal 🇵🇹 )
in “Lagoeiros”, Relógio D’Água, Lisboa, 2011

PELAS NOITES LEIO MAIS A BÍBLIA

Os ruídos das rodas do carro no asfalto molhado:
viajar num táxi toda a vida
e crer firmemente que a fé é inútil
e que, depois da esquina, se não a felicidade
pelo menos indícios dela: um novo pressentimento.
Na rua nocturna, porém,
as folhas mortas, empapadas, fazem a calçada
escorregadia à luz ténue dos faróis
e ninguém fala de modo natural.
Nos rostos que se esboçam na obscuridade
não se pode decifrar uma expressão compreensível.

_

▪ Jarkko Laine
(Finlândia 🇫🇮)
Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado

INÚTIL COMO A CHUVA

Aceitaria de bom grado esta crítica sobre a poesia: a poesia é inútil como a chuva.

Há poetas que são como esses macacos que têm prazer em sacudir árvore para lhe fazer cair os frutos, imitando assim o gesto sagrado do homem.

As palavras são como a olaria de renome, extremamente porosa, donde a água se escapa misteriosamente. Tome-se uma palavra e revista-se-lha da matéria inflamável da alma.

O poeta não deve fazer esquecer o homem, mas o homem o poeta.

Alguns poetas não fazem a sua obra senão através dos vidros. Natural que a sua obra nos apareça muitas vezes maculada de caganitas de moscas.

A inspiração é a contra-inteligência do poeta, o agente secreto.

Come a tua mão. Guarda a outra para amanhã.

Escreve-se primeiro para nos conhecermos, depois para nos reconhecermos, enfim para nos desculparmos.

Uma poesia que perde a sua virgindade: é o que está certo Uma poesia que a reencontra: é ainda melhor.

Alguns poetas não vêem na poesia senão um fait-divers, ou uma beleza puramente anedótica. É colocar-se exactamente na situação do ladrãozeco de molas de roupa que marche, as mãos algemadas, entre dois polícias.

Preferirei sempre uma destruição de génio a uma construção comedida.

Ele há sempre um divórcio entre a poesia do momento e o público do momento.

Toda a poesia que corre de raiz lança-se no mar, tende-se a juntar-
se ao universal.

Quanto mais o poeta se aproximar da terra mais ele será aéreo, mais ele tenderá a desconfiar da fadiga dos seus músculos.

Uma poesia que não fizer apelo senão à meditação arrisca-se, ao fim de uns anos a patinar no vazio, pois todas as grandes batalhas foram sempre lutas de movimento.

Eu não sou militar de carreira. Eu não me bato por nenhum soldo, por nenhuma patente, por nenhuma pátria. Nem mesmo pela poesia: eu defendo a minha pele.

O tempo que me é dado, que o amor o prolongue.

 


▪ René Guy Cadou
(França 🇨🇵)
Mudado para português por António Cabrita