IL PIETRISCO TRANSLATIONS
Mirrors, Landscapes, Battles
21st
– century Poetry by Women –
edited by
Monica Boria and Ángeles Carreres
*
— »» Mirrors, Landscapes, Battles. 21-Century Poetry by Women
MARIA AZENHA
translated by Lesley Saunders p. 16
IL PIETRISCO TRANSLATIONS
Mirrors, Landscapes, Battles
21st
– century Poetry by Women –
edited by
Monica Boria and Ángeles Carreres
*
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MARIA AZENHA
translated by Lesley Saunders p. 16
Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te
Chamas? Literatura. Nome estranho para um
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo,
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção,
Sentir fome, estar frio, respirar tubo de escape. Dei-lhe
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria
A própria escrita.
__
Eu não sabia, não, quando cantavas
– talvez em Abril, no quarto azul –
que eras tu mãe, e que eu era o filho.
Escutavam-te as montanhas e as planícies,
as andorinhas apaziguadas nas goteiras
e eu encantado na almofada branca.
No teu canto abriam-se as esperas
do confuso presente, as tristezas
de todos os improváveis futuros.
Compreendi então que eras a companheira
de uma viagem de agruras, de tormentos,
para lá das paredes e das portas.
Por muitas estações esse engano
dentro de mim criei e fingi-me aquele
que na noite anda à frente.
Esta noite dizes com voz de pranto.
– sobe no céu a Lua de Agosto –
que andaste sozinha pelas ruas escuras.
_
▪ Elio de Pecora
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Simonetta Neto
Mãe,
acho que vou fazer uma visita ao Inferno.
Não importa que seja muito longe.
Partirei de manhã como se estivesse a sair para o trabalho,
voltarei à noite como se tivesse saído do trabalho.
Não te esqueças das refeições, mastiga bem os alimentos antes de engolir,
certifica-te que desligas o gás quando saíres
e não te preocupes comigo.
O inferno deve ser um lugar onde vivem pessoas.
Se eu for para o Inferno para ganhar a vida
poderei finalmente tornar-me uma pessoa.
_
▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga
Cruzar-lhe os braços sobre o peito – assim.
Endireita-lhe um pouco mais as pernas – assim.
E chamar o carro para que a leve a casa.
A mãe dela há de chorar, e também as irmãs e os
irmãos.
Mas os outros salvaram-se todos: foi ela a única
rapariga da fábrica que não teve sorte ao saltar cá
p’ra baixo quando o fogo irrompeu:
Andou aqui a mão de Deus – e a falta de uma saída
de emergência.
__
▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Alexandre O’Neill
Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradaram.
Não pedia mais.
Saí então para deixar o lixo no corredor
e atrás de mim, com a corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
ouvindo as vozes dos meus vizinhos
através das portas.
É transitório, disse a mim mesmo;
assim também pudesse ser a morte;
um corredor escuro,
uma porta fechada à chave por dentro
e na mão o lixo.
_
▪ Fabián Casas
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Hugo Miguel Santos
*
Rua Coelho da Rocha, 16-18
Campo de Ourique
1250-088 Lisboa
Tel.: +351 213 913 270
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