O PRÍNCIPE DOS LÍRIOS

O príncipe dos lírios esta noite não vem
Não sei se o espero ainda se me calo até ti
ou me atravessa o passo só o porto onde embarque
rumo ao brilho dessa ilha em águas de ninguém
da manhã em que chegas enquanto a manhã parte
como partem as ilhas quando chega o navio

 

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▪ Miguel Serras Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

UM DEUS IRADO

Um deus irado
Batia num homem;
Espancava-o ruidosamente
Com golpes atroadores
Que soavam e ressoavam pela Terra.
Toda a gente veio a correr.
O homem gritava e procurava libertar-se,
E mordia furiosamente os pés do deus.
As pessoas exclamavam: “Ah, que homem malvado!”
E –
“Ah, que deus formidável!”

 

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▪ Stephen Crane
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Antologia de Poesia Anglo-Americana”
Mudado para português _ António Simões

CAIXA DE CHOCOLATES

Era uma desbragada comédia:
o pai oferecia caixas de chocolates
e a empregada de limpeza comia-os –

pensava-se que era uma oferta de amor,
mas ela ensinou-me que os presentes dos homens
servem para envaidecer o paladar da solidão

também eu os comi como se fossem para mim:
os doces cariavam as bonecas de porcelana
e doíam-me os seus olhos azuis de imobilidade

queria que sorrissem a minha boca suja
com as palavras que havia aprendido
quando encontrei os seus vestidos despenhados

num grande acidente doméstico, num grande
fim de aparelhos de cozinha que se avariavam
consoante o tempo passavam à espera de uma carta

foi assim que aprendi a limpar o silêncio,
à espera do tom certo para começar poemas
sobre essas vis atividades em que as mulheres

se despedem para continuarem a engrandecer as lides,
como se pudessem dizer adeus enquanto aquecem a panela:
e na mesa onde cabem muitos filhos genéticos

tiram-se os lugares suficientes para que o útero,
respire especiarias, um pouco de farinha branca
com que um dia fará as vezes de uma mãe a sós

e quando os créditos do filme passarem sob a sombra,
só a empregada se rirá do derradeiro presente:
o estômago estava cheio de um amor que não lhe era dedicado.

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▪ Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )

Para os outros a bola era a meia

Para os outros a bola era a meia
altura, mas a ti batia-te na cara.
E ias muito zangado para dentro
de casa como se eu tivesse feito
de propósito e te tivesse atirado
a bola à cara. Eu era lá capaz de fazer
uma coisa dessas, também já fui
muito pequenino, sabes, chegaram
a levar-me ao psiquiatra, eu não
ia fazer uma coisa dessas. Quando
me apetece atirar a bola contra
alguém, atiro-a contra uma parede
ou uma árvore. O problema
é que nem sempre acerto na árvore
(na parede acerto sempre, porque
é grande) e às vezes, sem querer,
estás a ouvir, sem querer, acerto
em alguém que vai a passar.

 

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▪ Helder Moura Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Eu Depois Inventei o Resto”, Companhia das Ilhas, Açores, 2013

AS PESSOAS DE QUE EU GOSTO

Não gosto de pessoas que não têm sombras.
Não gosto de pessoas que não gostam de sombras.
Gosto de pessoas que se tornaram na sombra debaixo de uma árvore.
A luz do sol também precisa de sombra para brilhar e deslumbrar os olhos.
Sentado à sombra de uma árvore
observo a luz do sol brilhando entre as folhas,
que beleza a deste mundo.

Não gosto das pessoas que não têm lágrimas.
Não gosto das pessoas que não gostam de lágrimas.
Eu gosto das pessoas que se tornaram numa lágrima.
A alegria também não é alegria sem lágrimas.
Será que existe amor sem lágrimas?
A visão de alguém sentado à sombra de uma árvore
enxugando as lágrimas do outro,
beleza e quietude.

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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga