O HÓSPEDE

Perguntava-te tarde na outra noite
de onde brotam as violências do mundo
e tu abriste os teus olhos de farol em repouso
e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.

Há tantas coisas, amor, que não entendi,
mas a tua hospitalidade não é uma delas.

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▪ Juan Gabriel Vásquez
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice

 

SHIRLEY ANN EALES

Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.

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▪ Rui Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )

in ”Morada”, Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro de 2015

notas do caderno de apontamentos do meu avô francisco

Os
que entram no mundo
pelo silêncio das florestas.
Os que vêem apenas
quando a luz
os cega.
Os que repetem
em voz alta
os nomes dos frutos.
Os que procuram até ao fim
a árvore
dos significados.
Os
que não
acreditam.
Os que não temem
o frio
do inverno.
Os
que não têm
contas a prazo.
Os que chegam sempre
tarde
às paragens dos autocarros.
Os que se esquecem
de riscar os dias
nos calendários.
Os que se recusam
a serem jovens
para sempre.
Os que guardam
as sementes
nas gavetas das cómodas.
Os
que não têm
pátria.
Os que deixam
entre as folhas dos livros
os retratos antigos.
Os
que enlouquecem
devagar.
Os
que têm
a obsessão dos mapas.
Os
que se rendem
à linguagem.
Os que crêem
no poder obscuro
dos acasos.
Os
que olham
as estrelas.
Os
que se
perdem.
Os
que não esperam nada
do mundo.
Os
que não têm nada
a perder.

 

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▪ José Carlos Barros
( Portugal 🇵🇹 )

 

O SENHOR DEGAS ENSINA ARTE E CIÊNCIA NA ESCOLA INTERMEDIÁRIA DE DURFEE – DETROIT, 1942

Ele fez uma linha no quadro,
um traço negro da direita para a esquerda
a descer e recuou
para perguntar, sem olhar para ninguém em particular
como de costume: “O que é que eu fiz?”
Do fundo da sala Freddie
exclamou: “Quebrou um pedaço
de giz.” O senhor Degas não sorriu.
“O que é que eu fiz?” repetiu.
Os alunos mais inteligentes
concentraram o olhar nas escrivaninhas
excepto Gertrude Bimmler, que levantou
a mão antes de falar. “Senhor Degas,
o senhor criou a hipotenusa
de um triângulo isósceles.” Degas meditou.
Toda a gente sabia que Gertrude não podia
estar errada. “É possível,”
precisou ainda Louis Warshowsky,
“que tenha começado a representar
o telhado de um celeiro.” Lembro-me
de que passavam exactamente vinte das
onze, e eu pensei que na pior das hipóteses
isto continuaria por mais quarenta
minutos. Era o inicio de Abril,
a neve não tinha ainda derretido nos
pátios do recreio, os olmos e o ácer
bordejando passeios rachados
tremiam com o vento novo, e ocorreu-me
que antes que me desse conta estaria
a caminho da loja de doces
para comprar um Milky Way. O senhor Degas
enrugou os lábios e a aula
acalmou até que o braço longo
do relógio se moveu para o vinte e um
como que em cumplicidade com Gertrude,
que acrescentara confidente: “O senhor começou
a separar o escuro do escuro.”
Voltei-me a pedir ajuda mas agora as
árvores resistiam e tremiam e eu
percebi que isto podia durar eternamente.

 

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▪ Philip Levine
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães