Anoitece em inferno a minha casa

Anoitece em inferno a minha casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras.
Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa.

 

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▪ Helga Moreira
( Portugal 🇵🇹 )

In “Agora que falamos de morrer”, & Etc Editora, Lisboa, 2006

ESCREVIAS PELA NOITE FORA

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

 

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▪Helder Moura Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
in “De Novo as Sombras e as Calmas”- Contexto, 1990

Vem,minha irmã

 

Vem, minha irmã, traz o cântaro de azeite.

acompanha-me! Pois não esqueceste o ritual
entre nós devotamente guardado.
Este é o sétimo verão que ouvimos, enquanto,
tirando água da fonte, conversávamos:
nesse mesmo dia o nosso noivado morreu:
vamos à fonte do prado, onde dois álamos
estão de guarda perto de um pinheiro,
buscar água com o cântaro de barro cinzento.

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▪ Stefan George
( Alemanha 🇩🇪 )

Mudado para português por Luís Costa

 

ESQUEÇO-ME DE OLHAR

A fotografia da minha mãe no seu escritório dos anos 50
anda na minha carteira há vinte anos,
o papel acastanhado foi desbotando
e a borda recortada enrolou-se, depois endireitou-se.

A gola do vestido está discretamente cruzada.
Poderíamos supor que a chamam de longe,
dado o ângulo que o pescoço toma.

Era a primeira da família a apanhar
o autocarro de Claremont
que sobe a colina até à universidade.

A certa altura, durante as aulas na escola de medicina,
os estudantes negros tinham de arrumar as suas coisas
e de abandonar o anfiteatro, caminhando ao longo das filas de carteiras.

Atrás da porta fechada, decorria uma autópsia
e os estudantes negros não deviam ver
a pele branca exposta e cortada.

Sob a faca, sob a pele,
mistério da semelhança
num mundo que definia o modo como preto e branco
podiam olhar-se mutuamente, tocar-se,
a minha mãe olha para trás com uma desenvoltura intacta.

Cada vez que abro a carteira,
lá está ela, tão familiar que me esqueço
de olhar.

 


▪ Gabeba Baderoo
(🇿🇦 África do Sul)
Mudado para português por _ Soledade Santos _ a partir da versão francesa

Líquido amor

Líquido amor
meu lago de narciso
onde pra ver-me não posso penetrar
e onde penetro sempre
porque na minha imagem
destruída
talvez te encontre a ti
se tu existes

e então existiria
para o lado de lá da ironia
com que nem finjo já sequer acreditar
no que procuro
sempre
porque já sei demais que esta procura
é o seu próprio fim
para que eu teça
e seja
o falso corpo construído
verdadeiro
da minha luz perdida

se tivesse havido luz
que eu pudesse ter perdido

mas nem lagos há
onde
me olhando
eu veja a tua imagem
há o teu corpo
há o meu corpo
há esta raiva fria
que prevê
e além da roupa e do perfume
em que fingimos nossos corpos
não temos nada mais que ossos e sangue
os lagos que os rochedos separaram
pra que não possam mais que reflectir
a sua bloqueada comunhão

 

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▪ Helder Macedo
(🇿🇦 África do Sul)
in “Poemas Novos e Velhos”, Editorial Presença Lisboa, 2011

EU VI KAFKA NO QUARTO DE BRINQUEDOS

Eu vi Kafka no quarto de brinquedos
Conduzia um trem infinito
sobre trilhos que pareciam enguias
Debaixo da cama outra criança desarmava
uma lagarta fluorescente
A lagarta tinha o rosto de Kafka
também os móveis, os relógios
as paredes tinham seu rosto
as aranhas aborrecidas em suas teias
os brinquedos no quarto
O único que não tinha o rosto de Kafka
era o próprio Kafka cujo rosto
parecia uma página em branco.

 

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▪ Mario Meléndez
( Chile 🇨🇱 )
Mudado para português do brasil por _ Floriano Martins