░ Abdicação

Aceito morrer em breve
mas não irei ter contigo
às salinas escuras
por onde tens andado
ficando à minha espera.

Também não quero o mar
nem a montanha
locais de iniciação

Quero um regato ameno
de água fina correndo
por entre arbustos rasteiros.

E então ao longe
a figueira
de folhas enganadoras

com uma sombra que oculta
o gesto da maldição.
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▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Canções do Rio Profundo”, Asa Editores, Porto, 2002

░ Destino

Não bordo por destino
nem me dobro

Não cedo à mão da vida
nem me encubro

Não cumpro_ não aceito
nem me calo

Não amo o que é imposto
nem me afundo.

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom quixote, Lisboa, 2009

Conselho aos críticos do novo século

Desdenha de quem escreve coisas simples
e desconfia, desconfia sempre
dos sentimentos, das convicções.

Diz mal da tua época,
procura dar a tudo um ar difícil
e cita alguns autores que ninguém leu.

Se queres que te respeitem,
reserva a admiração e o elogio
pra certos mortos bem escolhidos,
de preferência estrangeiros,
e acima de tudo
não caias nunca na vulgaridade
de ser compreendido pelos que te lerem.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Pena Suspensa”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004

Ninguém nos tira a morte

Ninguém nos tira a morte

levamo-la nos ossos no sangue
cola-se a nós nos recantos da pele

e senta-se à espera
do momento de nos arrastar

ninguém nos tira a morte

nem quando levantamos a cabeça
e juntamos os joelhos

nem quando derrubamos os moinhos apesar de tudo
nem quando à força de ar ajustamos armaduras

ninguém nos tira a morte
sequer

quando nos escondemos sem fazer ruído sem ocupar espaço
para que não nos veja

ninguém nos tira a morte ainda
mas há quem se mantenha

íntegro
à sua passagem

 

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▪ María Gómez Lara
(Colômbia, n. 1989)
in “Nó de Sombras”, Editora Glaciar, Lisboa, 2015
Tradução – Nuno Júdice

Morte

Mais tarde, a cor deslumbrante da morte
ocuparia o limbo, as folhas destacar-se-iam
e cairiam deslizando no ar brumoso,
voltas semelhantes às dos aviões de papel
que lançam os alunos. Rabanadas de vento
de Oeste, empurrando velas de chuva,
fariam ranger como mastros
os ramos altos. As gaivotas planariam,
asas abertas, quase imóveis, sob o desfile
de nuvens baixo, cinzento e suave.
Todo o parque flagelado pela tempestade
tomaria matizes oceânicos. Vê-lo-íamos
caminhar só, mãos cruzadas atrás das costas,
ou então enfiadas nos bolsos,
ligeiramente arqueado, olhos no chão,
pelas alamedas molhadas. Qual marinheiro
desembarcado, pensava eu, tornado melancólico
pela recordação das vagas que levam,
depois abandonam, depois voltam a levar
o seu corpo: dobrado, desdobrado, batendo
como um coração ao ritmo da grande
pulsação das águas. Para sempre inerte.
Ó morte, velho capitão.

 

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▪ Olivier Rolin
(França, n. 1947)
in “Porto-Sudão”, Asa, Lisboa, 1995
Tradução – João Duarte Rodrigues