░ ADAGIO

Eu também teria quebrado o vaso de porcelana da China,
falado demais,
corado todas as vezes.
Eu também teria perdido Agláia Ivánovna,
casado com Nastássia Filípovna,
enlouquecido com Rogojin.

Idiota?

 

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▪ Maria Helena Nery Garcez
(Brasil SP, n. 1943)
in “Conta-gotas ”, Editora Scortecci, Brasil, 1987

░ CANÇÃO DE UM INICIADO

subi a escadaria azul até ao céu
subi até onde desabrochavam as rosas
_____ até onde falavam as rosas

não ouvi nada____nada que se ouvisse
_____ouvi o silêncio

subi até onde cantavam as rosas
____até onde aguardavam os deuses
____escadaria azul lá no alto do céu

mas não ouvi nada___nada que se ouvisse
____ ouvi o silêncio ___o silêncio

 

[Huichol]

 

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▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “O DIA & A NOITE Não Podem Viver Juntos”
Poemas de índios americanos numa recreação de Vasco Gato, Edição Debout Sur l’Oeuf , Coimbra, 2016

░ 1974

Junto a um deus cheio de gosma
(¿quem me diria o gosto do açúcar do creme
do querosene do sexo amor rapto
penicilina?)
moleza e carne assada consta que
horas antes da criação do mundo e dias
antes do carnaval
(ô Xangô
as preta véia não mente não sinhô
coisa que hoje eu posso dizer que sei)
antes excessivamente de se abrirem as bicas mas depois
ó deus goto de gosma
de arder o Joelma com gente dentro que pulou
pra fora e meses antes
de Ademir entrar mudo e sair calado de uma disputa que
disputava mais nada
de Carvoeiro aparecer vivo numa outra bem antes de
sumir do mapa
de uns soldados com flores mudarem em português
de muita gente a cor do gesto
Eloy Rodrigues d’Almeida perdeu
sua carteira de motorista e desesperou calado vendo
dias dias dias
parada sua Brasília na garagem da casa em
Ponta Grossa Sobradinho Alfama Condomínio
dos funcionários do Ministério do Trabalho
Pampulha Rua Haddock Lobo esquina com
Matoso onde toda a confusão começou
(barba é coisa que não para de crescer e ninguém
ouve)
enquanto Liza Minnelli perdia a chance de entrar
cantando e sair suada sem incêndio em português claro
nem tão claro aos ouvidos de Sophia Cunha Pinheiro
que não perdera a carteira nem a chave
perderia
perdeu
(Put down the knitting the book and the broom it’s
time for a holiday)
o show de Liza Minnelli e
aquilo que deu depois da gosma e da
carne assada e que não diz
pula pra fora
ou diz
¿diz?
o gosto do repto do creme rinse da gosma
do deus da gosma
mas
¿do amor?
mas
put down the it’s time for

 

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▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “40”, Editora Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2015

░ Como alcançar o paraíso

Tens de ter coragem
para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre “sim” e “não”,
vindo do “por quê”,
com “para quê”,
para ser “agradecido”,
mesmo quando
não o merece.

 

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▪ Daiva Cepauskaite
(Lituânia, n. 1967)
– Versão de Luís Parrado a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008. pp. 119-121.

░ 2006

Abrir a porta é
entre os gestos de coragem
o que viola mais de frente o Feng Shui
Muitas coisas são esparzidas pelo vento e acolhidas pela água
tu por exemplo
Eu
que não sou guerreiro e só vejo o que se mostra ao largo do
olho mágico
eu que enxergo o visível e
o invisível deixo para quem tem olho neste
mundo de cegos
eu sarnento que teria de trocar de pele os dias todos
todos os banhos na Lagoa Rodrigo de Freitas no Tejo ou
na tua baba mas
não troca
digo-te
pula pra dentro me abraça esconde a espera e me mostra a faca da
folia e da carne a mal passarmos
o fio de enfrentarmos juntos os diabos vesgos deste apartamento
os fantasmazinhos que nós não inventamos
a espessura do que é alimento se você
presente coda desta casa inflada
pular pra dentro
Abri a porta
o ferrolho sempre deu pro pátio interno
e eu
de lado para a porta a fim de estar mais salvo ao fim do dia das visitas
dos besouros
olhei o apartamento nos teus olhos devolvido e ali a chave
o oriente
era bem perto era a esta mão mas
a jornada não cabia na aliança
o olho súbito a dizer que demoraras
a indicar que as muitas milhas de roteiro no invisível
(eu que vejo só por olhos)
eram cansaço
mas mentira
a estrada foi o que ressalvou nosso Feng Shui
Abri a porta
pula pra dentro
que seja
entre os gestos de coragem
o mais violante e violado aquele que em você me diga
existo

 


▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “40”, Editora Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2015

 

░ Na cidade breve as ilustres criaturas

Na cidade breve as ilustres criaturas
apodrecem de vidinha inveja e conversata
entre voracidade e íngreme bajulação

descuidadamente espirram teorias
enquanto os pés ensaiam uma dança
de fulgor e desencanto
tão longe já do voo imaginado

recolhidas viajam no silêncio
enquanto os olhos se fecham

levemente ausentes

com a certeza de que acabou
a incandescência.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Pequeno bestiário académico”, Ed. Licorne, Évora, 2014

ROSÁCEA

Passo a tarde dentro em ti A tarde
passa e eu em ti na humana rosácea de teu bico
lápis com a ponta na ponta da tarde e eu
ardo-te encontro na tarde que parte o
espinho e a cal que teu lápis de
feita ponta fez-me
de cor
no arder do hoje à tarde que passa e eu
em ti passando em branco e rubro em
ti e tudo

……………… Esta tarde é a carne das palavras que
eu não disse teu ouvido a carne pronta a
pôr o tempo em descarrilho e a mão na boca Tudo é a
carne que se coma a
boca livre a
chão aceso a
pedra e arte e extrema
sonda que parece a tua boca mas é só a tua
boca em uso estrito
em dente e carne em mim
deposta

 


▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor

░ Sede

Está vazio o teu peito__No lugar
do coração talvez um ataúde
ou nem isso__uma sombra
igual a essa noite onde procuras
o mar__o imenso mar__e só encontras
sede

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Revista Relâmpago, nº. 35″, Lisboa, 2014

░ comício

é preciso plantar uma solução
nos lábios clássicos da ascendência de orfeu

é preciso que um objeto novo
arrisque-se a maturar suas estruturas
sem que o aço ao sol em carne viva espelhe o céu

é preciso não haver necessidade
de uma escritura tão libertária
quanto as trocas capitalistas mais que isso

é preciso não se relacionar ao modernismo
para além de seus impulsos anarquistas

a europa caminha para o regresso
a mão invisível balança o berço

 

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▪ Fabio Riggi
(Brasil – SP, n. 1982)
in “Cidade adeus”, Patuá Editora, Brasil, 2014