É BOA A GUERRA

 

Não chores, rapariga, é boa a guerra.
Lá porque o teu rapaz ergueu as mãos ao céu
E a galope o cavalo se perdeu,
Não chores, não.
É boa a guerra.

Tambores de regimento rufam roucos,
E esta gente sequiosa de lutar
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
A inexplicada glória os sobrevoa,
É grande o deus da guerra, e é seu reino
Um campo com milhares a apodrecer.

Não chores, criancinha, é boa a guerra.
Porque o teu pai tombou na lama da trincheira,
Esfacelado o peito e já sem vida,
Não chores, não.
É boa a guerra.

Bandeiras crepitando esvoaçantes,
Águias douradas, rubras! Esta gente
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
Mostrai-lhe as eficácias do massacre,
Dizei-lhe a excelência de matar,
De um campo com milhares a apodrecer.

Mãe cujo amor é qual botão mesquinho
Na esplêndida mortalha do teu filho,
Não chores, não.
É boa a guerra.

 

Stephen Crane
in Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena,

 

O RETRATO

A minha mãe nunca perdoou o meu pai
por se ter matado,
e logo num momento tão estranho
e num parque público,
naquela primavera
em que eu estava à espera de nascer.
Ela trancou o nome dele
no seu armário mais profundo
e não o deixaria sair,
embora eu o pudesse ouvir a bater.
Quando desci do sótão
com o retrato a pastel na minha mão
de um estranho de grandes lábios
com um bigode corajoso
e olhos castanhos profundos,
ela rasgou-o em pedaços
sem uma única palavra
e deu-me uma grande bofetada.
Mesmo agora com sessenta e quatro anos
consigo sentir a minha bochecha
ainda a arder.

 

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▪ Stanley Kunitz
(E.U.A. 🇺🇸)
Mudado para português por_ Jorge Sousa Braga

BALADA DA BÓSNIA

Enquanto te serves de um uísque,
esmagas uma barata, olhas para o relógio,
enquanto compões a gravata,
há pessoas a morrer.

Em cidades com nomes curiosos,
atingidas por balas, apanhadas pelas chamas,
em regra sem saberem porquê,
as pessoas morrem.

Em pequenas localidades desconhecidas,
porém vastas, que não deixam hipótese
de gritar ou dizer adeus,
há pessoas a morrer.

As pessoas morrem enquanto eleges
novos apóstolos da incúria,
do autodomínio, etc. — pelos quais
as pessoas morrem.

Demasiado longe para o amor
pelo vizinho/irmão eslavo,
onde os querubins temem voar,
há pessoas a morrer.

Enquanto observas a pontuação dos atletas,
verificas o último extrato, ou
cantas uma canção de embalar ao teu filho,
há pessoas a morrer.

O tempo, cuja cortante sede de sangue separa
os mortos daqueles que matam,
anunciará a tribo derradeira
como o teu grupo sanguíneo.

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▪ Joseph Brodsky
(E.U.A. 🇺🇸)
Mudado para português por_ Lauro Machado Coelho

A PAZ DAS COISAS SELVAGENS

Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo a meio da noite com o mais pequeno som,
com medo do que possa vir a ser a minha vida e a vida dos meus filhos,
vou e deito-me onde o pato-marreco
repousa na sua beleza na água e a garça-real se alimenta.
Penetro na paz das coisas selvagens
que não sobrecarregam as suas vidas com a premeditação da tristeza. Entro na água parada.
e sinto por cima de mim as estrelas cegas durante o dia esperando com a sua luz. Durante algum tempo
descanso na graça do mundo e sou livre.

 
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▪ Wendell Berry
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

A MORTE NÃO TERÁ NENHUM DOMÍNIO

E a morte não terá nenhum domínio.
Nus, os mortos serão um só
Como o homem ao vento e a lua do poente;
Quando descarnados os ossos limpos se forem,
Pés e cotovelos serão visitados pelas estrelas;
Embora enlouqueçam, serão lúcidos,
Embora no mar se afundem, ressurgirão;
Embora se percam os amantes, não se perderá o amor:
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Sob as tortuosidades do mar,
Os que aí jazem não morrerão tortuosos;
Retorcidos em suplícios ao rasgar dos nervos,
Amarrados a uma roda, nem assim rebentarão;
Nas suas mãos a fé fender-se-á sem apelo
E os males do unicórnio serão o seu atropelo;
Cindidos de uma ponta à outra não irão quebrar;
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
Nem o clamor das vagas voltará a eclodir nas praias;
Onde uma flor de aurora desabrochou não mais
Erguerá a corola aos golpes de chuva;
Embora estejam loucas e mortas como pregos,
Cabeças rasgam caminho através das margaridas,
Irrompem ao sol até o sol ser derrotado,
E a morte não terá nenhum domínio.

 

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▪ Dylan Thomas
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Frederico Pedreira

A CASA ESTAVA SILENCIOSA E O MUNDO ESTAVA CALMO

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

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▪ Wallace Stevens
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por David Mourão-Ferreira

PARA O ANO DOS LOUCOS UMA ORAÇÃO

Ó Maria, frágil mãe,
ouve-me, ouve-me agora
embora eu desconheça as tuas palavras.
O rosário negro com o seu Cristo de prata
permanece por benzer na minha mão
porque eu sou a descrente.
Cada conta redonda e dura entre
os meus dedos,
um pequeno anjo preto.
Ó Maria concede-me esta graça,
esta passagem,
embora eu seja feia,
submersa no meu próprio passado
e na minha própria loucura.
Embora haja cadeiras
eu estendo-me no chão.
Apenas as minhas mãos estão vivas,
a tocar contas,
palavra a palavra, eu tropeço.
Uma iniciada, sinto a tua boca tocar a minha.

Conto contas como ondas,
a baterem sobre mim,
estou doente com os seus números,
doente, doente, no calor do verão
e a janela por cima de mim
é a minha única ouvinte, o meu ser estranho
ela é uma larga recebedora, uma mitigadora.

A dadora de respiração
ela murmura,
exalando o seu largo pulmão como um peixe enorme.

Cada vez mais perto
vem a hora da minha morte,
enquanto eu rearranjo a minha cara, volta a crescer,
cresce por desenvolver e com o cabelo liso.
Tudo isto é morte.
Na memória há um beco estreito chamado morte
E eu movo-me nele
como se fosse água .
O meu corpo não tem utilidade.
Jaz, enrolado como um cão na carpete.
Desistiu.
Não há palavras aqui senão as meio aprendidas,
o Avé Maria e o cheia de graça.
Agora entrei no ano sem palavras.
Anoto a entrada estranha e a voltagem certa.
Sem palavras elas existem.
sem palavras podemos tocar no pão
e ser-nos-á entregue pão
sem som.

Ó Maria, terna médica
vem com pós e ervas
Porque eu estou no centro.
É muito pequeno e o ar é cinzento
como numa casa de máquinas.
Dão-me vinho como dão leite a uma criança.
É apresentado num copo delicado com um bojo redondo e uma borda fina.
O vinho tem cor de breu, bafiento e secreto.

O copo ergue-se sozinho em direcção à minha boca
E eu reparo nisto e percebo isto
Apenas porque aconteceu.
Tenho este medo de tossir
mas não falo,
um medo de chuva, do cavaleiro
que cavalga para a minha boca.
O copo inclina-se sozinho
E eu estou em chamas.
Vejo dois finos fios a
queimarem-me o queixo.
Fui cortada em dois.

Ó Maria, abre as tuas pálpebras.
Estou no domínio do silêncio,
o reino dos loucos e dos adormecidos.
Há sangue aqui
E eu comi-o
Ó mãe do ventre
vim apenas pelo sangue?
Ó pequena mãe,
estou na minha própria mente.
Estou trancada na casa errada.

 

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▪ Anne-Sexton
(Estados Unidos 🇺🇸)

Mudado Para Português por Maria Sousa