ARTE POÉTICA

Entre tantos ofícios, exerço este que não é meu,
como um amo implacável
me obriga a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
debaixo de chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a doença submerge as mãos

A este ofício me obrigam as dores alheias,
as lágrimas, os lenços acenantes,
as promessas no meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos do adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.

Nunca fui o dono das minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros os escrevem como disparar contra a morte.

 

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▪ Juan Gelman
( Argentina 🇦🇷 )

SEM CHAVES E ÀS ESCURAS

Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradaram.
Não pedia mais.
Saí então para deixar o lixo no corredor
e atrás de mim, com a corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
ouvindo as vozes dos meus vizinhos
através das portas.
É transitório, disse a mim mesmo;
assim também pudesse ser a morte;
um corredor escuro,
uma porta fechada à chave por dentro
e na mão o lixo.

 

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▪ Fabián Casas
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Hugo Miguel Santos

DIÁRIOS

Eu não saio, não ligo para ninguém. Cumpro uma estranha penitência.
O meu coração dói terrivelmente.
Tanta solidão. Tanto desejo. E a família pairando ao meu redor, sobrecarregando-me com a sua horrível carga de problemas diários.
Mas eu não os vejo. É como se eles não existissem.
Sinto, quando eles se aproximam de mim, uma aproximação de sombras irritantes.
É verdade que quase todos os seres me irritam.
Quero chorar. E faço-o.
Choro porque não existem seres mágicos.
O meu ser não estremece diante de qualquer nome ou olhar.
Tudo é pobre e sem sentido.

 

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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )

Convite para o Kremlin (Inverno de 1405)

O ícone da Virgem de Vladimir
fixou-me nos olhos e disse:

“Procura-me no muro onde a tarde estende
a sua plumagem.

Estou atrás dos pendões de cauda
de cavalo,

por baixo das folhas e
dos frutos.

Procura-me no ar, nas
cinzas.

Estou sobre a ponte de
todos os rios,

sobre a pegada dos
lobos.

Procura-me no arco onde
o sangue se desata.

Estou sob a asa da
noite».

 

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▪ Diego Roel
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Soledade Santos

LOS AMANTES

Con la carne en paz se miran
los amantes;
traen de otros aires la levedad
del tiempo.
Se miran sorprendidos
el perfil
ante el espejo
que envejeció de pronto.

Algo se quiebra ante sus ojos:
ella se cubre,
él inicia la fuga
sin moverse.

 

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▪ Antonio Aliberti
( Argentina 🇦🇷 )

 

FRAGMENTOS PARA DOMINAR O SILÊNCIO

I.

As forças da linguagem são as damas solitárias, desoladas, que cantam através de minha voz que escuto à distância. E longe, na negra areia, jaz uma criança densa de música ancestral. Onde a verdadeira morte? Quis iluminar-me à luz de minha falta de luz. Os ramos morrem na memória. A jacente aninha em mim com sua máscara de loba. A que não pode mais e implorou chamas e ardemos.

II.

Quando voa o telhado da casa da linguagem e as palavras não a protegem, eu falo.

As damas de vermelho se extraviaram dentro de suas máscaras embora regressem para soluçar entre flores.

Não é muda a morte. Escuto o canto dos enlutados selar as rachaduras do silêncio. Escuto teu dulcíssimo pranto florescer meu silêncio triste.

III.

A morte restituiu ao silêncio seu prestígio enfeitiçante. E eu não direi meu poema e eu hei de dizê-lo. Mesmo que o poema (aqui, agora) não tenha sentido, não tenha destino.

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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )

ALEGRIA DEMORADA

Este poema tem um dia adormecido entre os braços.
Este dia torna-se poente a oeste do peito.
Este poente sente uma rua passar por suas veias.
Esta rua sobe ao céu em frente de uma casa.
Esta casa abre as asas quando chamo
Estas asas amparam o sono de amêndoa de Jacqueline.
Jacqueline é o retrato de uma menina de onze anos.
Esta menina aproxima-me dez horizontes com os dedos.
Estes horizontes têm uma lua sentada nos joelhos.
Esta lua nasceu numa janela minha, que já não canta.
Esta janela recupera seu céu e eu regresso pelos olhos.
Estes olhos viram uma rapariga que sorri.
Esta rapariga reclina a voz num pássaro que passa.
Esta voz é o eco dos passos do entardecer.
Este eco descansa meus caminhos e enxuga minhas estrelas.
Estas estrelas, que são filhas de tua noite e minha fronte.
Esta fronte, onde um rei de fogo governa um país de neve.

 

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▪ Francisco Luis Bernárdez
( Argentina 🇦🇷 )
in “Rosa do Mundo”, Assírio & Alvim, Porto, 2001

*

Mudado para português por _ José Bento  

 

ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que ainda não são a treva.
Buenos Aires,
que dantes se espraiava em arrabaldes
rumo à planície sem fim,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as confusas ruas do bairro Once
e as vacilantes casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo foi o meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e é parecida com a eternidade.
Os meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isto deveria amedrontar-me,
mas é uma doçura e um regresso.
Das gerações de textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que ainda hoje leio na memória,
lendo-os e transformando-os.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
ao meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
devaneios e sonhos,
cada ínfimo instante de outrora
e dos outroras do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os actos dos mortos,
o partilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou.

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▪Jorge Luíz Borges
( Argentina 🇦🇷 )

SOMBRA DOS DIAS POR VIR

 

A Ivonne A. Bordelois

Amanhã
hão-de me vestir de cinzas ao alvorecer,
encher-me-ão a boca de flores.
Vou aprender a dormir
na memória de um muro,
na respiração
de um animal que sonha.

 

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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
Do livro “Os trabalhos e as noites”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2013
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto 🇵🇹 Poeta, Jornalista e Editor