ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que ainda não são a treva.
Buenos Aires,
que dantes se espraiava em arrabaldes
rumo à planície sem fim,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as confusas ruas do bairro Once
e as vacilantes casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo foi o meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e é parecida com a eternidade.
Os meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isto deveria amedrontar-me,
mas é uma doçura e um regresso.
Das gerações de textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que ainda hoje leio na memória,
lendo-os e transformando-os.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
ao meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
devaneios e sonhos,
cada ínfimo instante de outrora
e dos outroras do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os actos dos mortos,
o partilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou.

_
▪Jorge Luíz Borges
( Argentina 🇦🇷 )

SOMBRA DOS DIAS POR VIR

 

A Ivonne A. Bordelois

Amanhã
hão-de me vestir de cinzas ao alvorecer,
encher-me-ão a boca de flores.
Vou aprender a dormir
na memória de um muro,
na respiração
de um animal que sonha.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
Do livro “Os trabalhos e as noites”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2013
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto 🇵🇹 Poeta, Jornalista e Editor

 

Com esta boca, neste mundo

Não voltarei a pronunciar-te, verbo sagrado,
embora tinja as gengivas de azul,
embora traga debaixo da língua uma pepita de ouro,
embora derrame sobre o coração um caldeiro de estrelas
e flua pela minha testa a corrente sagrada dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para o outro lado da noite da alma,
que nenhuma lâmpada consegue alcançar,
onde não há sombra que guie o meu voo à entrada,
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
em que só o atrito dos ramos e o queixume do vento se inscrevem.

E nem um só tremor que sobressalte as mudas pedras.
Falámos demasiado do silêncio,
condecorámo-lo como a uma sentinela no arco final,
como se nele jazesse o esplendor depois da queda,
o triunfo da palavra com a língua cortada.

Ah, não se trata da canção, nem do soluço!
Já disse do que amei e do que perdi,
sustive com cada sílaba os bens que mais receei perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a melodia tenaz,
ecoam, propagam-se como o trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão.
O nosso longo combate foi também um combate até à morte com a morte, poesia.

Ganhámos. Perdemos,
porque – como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo apenas com esta boca neste mundo com esta boca só?

 

_
▪ Olga Orozco
( Argentina 🇦🇷 )
in “Con esta boca, en este mundo”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1979

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ Con esta boca, en este mundo

 

No te pronunciaré jamás, verbo sagrado,
aunque me tiña las encías de color azul,
aunque ponga debajo de mi lengua una pepita de oro,
aunque derrame sobre mi corazón un caldero de estrellas
y pase por mi frente la corriente secreta de los grandes ríos.

Tal vez hayas huido hacia el costado de la noche del alma,
ese al que no es posible llegar desde ninguna lámpara,
y no hay sombra que guíe mi vuelo en el umbral,
ni memoria que venga de otro cielo para encarnar en esta dura nieve
donde sólo se inscribe el roce de la rama y el quejido del viento.

Y ni un solo temblor que haga sobresaltar las mudas piedras.
Hemos hablado demasiado del silencio,
lo hemos condecorado lo mismo que a un vigía en el arco final,
como si en él yaciera el esplendor después de la caída,
el triunfo del vocablo con la lengua cortada.

¡Ah, no se trata de la canción, tampoco del sollozo!
He dicho ya lo amado y lo perdido,
trabé con cada sílaba los bienes que más temí perder.
A lo largo del corredor suena, resuena la tenaz melodía,
retumban, se propagan como el trueno
unas pocas monedas caídas de visiones o arrebatadas a la oscuridad.
Nuestro largo combate fue también un combate a muerte con la muerte, poesía.

Hemos ganado. Hemos perdido,
porque ¿cómo nombrar con esa boca,
cómo nombrar en este mundo con esta sola boca en este mundo con esta sola boca?

 

_
▪ Olga Orozco
( Argentina 🇦🇷 )
de “Con esta boca, en este mundo”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1979

 

░ a rosa é sem mais nem porquê

Angelus Silesius

uma mulher
espera
na margem do rio
para dizer ____o que não sabe

e o rio vê-a
e não a vê
e ela
na sua desnuda inexperiência
a ponto de chegar
ao que procura
isso
que talvez poderia dizer
mas não sabe
querer

canta
canta como se dormisse
no regaço da água
que a escreve
como falando
ao rio do seu corpo
que cala de desejo
na indecisa noite
que o inspira

e assim
na medida das coisas
espera
o que ansiaria preferir

um líquido tremor
uma música por cumprir
para saber
o que diz
quando diz
não saber

outono na ribeira
abertamente noite

não há
mais história além desta

uma mulher que invade
a página nervosa do desejo
como uma morte atenta
ao que vive
dentro dela

essa impaciência
por ser o que seria
se o coração falasse
calmo na sua orfandade

e o rio vê-a
e depois não a vê
e ela
que ignora o que soube
sem mais nem porquê a inverosímil casa
das coisas

canta
está cantando agora
como empreender um voo
até si mesma

e o rio vai
vai-se a pena escrita
levando a sua imagem
às terras do mar
onde ela
ainda não nasceu
e é já
uma conclusão

 

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



  VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ la rosa es sin por qué

Angelus Silesius

una mujer
espera
a la orilla del río
para decir ____lo que no sabe
y el río la ve
y no la ve
y ella
en su desnuda inexperiencia
a punto de llegar
a lo que busca
eso
que tal vez podría decir
pero no sabe
querer
canta
canta como dormirse
en el regazo del agua
que la escribe
como llamando
al río de su cuerpo
que calla de deseo
en la indecisa noche
que lo inspira
y así
en la medida de las cosas
espera
lo que ansiaría preferir
un líquido temblor
una música incumplida
para saber
qué dice
cuando dice
no saber
otoño en la ribera
abiertamente noche
no hay
más historia que ésta
una mujer que invade
la página nerviosa del deseo
como una muerte atenta
a lo que vive
dentro de ella
esa impaciencia
por ser lo que sería
si el corazón hablara
tranquilo en su orfandad
y el río la ve
y después no la ve
y ella
que ignora lo que supo
sin por qué la inverosímil casa
de las cosas
canta
está cantando ahora
como emprender un vuelo
hacia sí misma
y el río se va
se va la pena escrita
llevándose su imagen
a las tierras del mar
donde ella
todavía no nació
y es ya
una desinencia

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010