░ Um evangelho úmido

Gostava que o mundo semeasse crimes,
que os sonhos fossem abertos com um machado.
No teatro, galgava o lugar desabado,
a fileira onde se podia fazer amor.
Queria entrar para sempre na fumaça
e desertar os traidores da sombra e da ira.
Sua mãe – não era sua mãe.
Seu pai – não era seu pai, etc.
Assim, para deixar sua casa intacta,
cobriu-a de memórias,
entregou-a ao coveiro mudo.
Era um passageiro, desses que se perdem.
Por isso, podia sempre dizer: “Eu retornei”.

Apreciava mudar as árvores de lugar
e também as montanhas.
Atirava a esmo nos escritórios
e somente distribuía as próprias dívidas.
Era, para as vacas, um novo profeta,
liberto das profecias e sobretudo do futuro.
Seus olhos nunca miravam a alvenaria
ou a engenharia fictícia dos filósofos,
porque ele sabia que o mundo não estava
assentado nas costas de um pote de barro.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sou um oleiro
[das coisas”.

Comia as ramagens que se multiplicam,
sobretudo durante a noite.
Não raro seu prato continha vidros de estrela.
Preferia o esquecimento das grandes eternidades
e não se entristecia com a origem de tudo.
Em sua mão, o espaço se inaugurava a partir de um vazio,
como um útero que viesse do céu.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sirvo às altitudes”.

 

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▪ Augusto Meneghin
(Brasil SP, n. 1987)
Poema inédito publicado com prévia autorização do autor

░ Um suspiro

Cresci ao lado do piano de minha irmã
a pedir-lhe Um suspiro, de Liszt: as notas
desencadeadas como o mar, querendo uma
voz , uma sentença, um rastro de silêncio,

que eu, bruto e lírico, ouvia entre pedras
de marfim. O medo a cobrir-me o rosto
sempre que pedia… Era bom sentir a vida
derretendo, se os dedos de outono vestiam-se

de mãe. As cordas do tempo no Essenfelder
− já agora vejo – a se romperem eram
as do meu peito (incapazes de sofrer).

Por mil e uma noites dentro do teclado,
segui, movendo-se distante – como eu ainda
hoje −, o frágil coração de minha irmã.

 

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▪ Sérgio Nazar David
(Brasil, n. 1964)
Da revista “Relâmpago”, nº.33, Outubro 2013

 

░ BOLERO DOS DEDOS SUSPENSOS

preciso de uma palavra
como se precisasse de uma vida
não da palavra exata
mas da palavra volátil
que dê perspectiva ao vazio onde ainda
caberia um mundo
preciso tanto dessa palavra
não a palavra imaginária
retrato brilhante de seu criador
mas a palavra ouvida
uma palavra já pensada
estou certo de que já foi dita
lançada às marés do vento
uma palavra que gire em torno de mim
que volte e embora gasta
se quede ao menos
uma vez

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Manuel de flutuação para amadores”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2015

░ Sumário

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.

Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).

 

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▪ Eucanaã Ferraz
(Brasil – RJ, n. 1961)
in “Cinemateca”, Editora Companhia das Letras, São Paulo BR, 2008