MEU FILHO

Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.

 

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▪ Ana Pérez Cañamares
( Espanha 🇪🇸
Mudado para português por _ LF Parrado

A MULHER MAIS FEIA DO MUNDO

A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.

 

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▪ Carmen Ruiz Fleta
( España 🇪🇦 )
Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado

FORJA

São golpes silenciosos: nada se ouve.
Um é a incompreensão, outro é o desprezo,
outro é a humilhação, outro são os maus-tratos,
repetidos em ritmos desiguais.
O meu sofrimento tornou-se incandescente.
Como sinto o martelo, e como
vibra esta bigorna, a dura solidão,
e as pinças do Ferreiro doem.
E não sei qual será a minha forma…

 

 

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▪ Mário Miguez
( Espanha 🇪🇦 )

 

HÓSPEDE

Abri as portas da minha casa
as portas do meu tempo
as portas do meu nada
a um hóspede com joelhos de areia
que me traz o pequeno almoço à cama
e faz amor comigo usando as palavras remotas
de todos os degelos passados.

Nada de sério,
um clique da memória,
efémero,
uma aventura adolescente
que não imporá quarentena.
Um assobio de regresso
e voltarei alegre,
porque alegres são os reencontros
e até as melancolias.

O hóspede cheira ao tabaco preto
dos meses do pós-guerra
– espessa-me o sangue, causa trombos –
perfila sombras contra a minha luz.
Cheira a lúpulo e ao despertar de agosto,
adelgaça a cintura das minhas tardes
e incita-me a beijar os lábios do tempo.

Este meu hóspede parece-se tanto com a ausência
– carta timbrada na cidade que um poeta inventou –
que essa certeza me deixa vazia.
A minha casa.
O meu tempo.
O meu nada.

 

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▪ Carmem Ruiz Fleta
( Espanha 🇪🇦 )

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹  Poeta, tradutora e professora

Na manhã seguinte Cesare Pavese não pediu pequeno almoço

Desceu sozinho do comboio,
atravessou a cidade deserta sozinho,
entrou sozinho no hotel vazio,
abriu o seu quarto solitário
e, surpreendido, ouviu o silêncio.
Diz-se que pegou no telefone
para ligar a alguém,
mas é mentira, completamente falso.
Não havia ninguém a quem telefonar,
não vivia ninguém na cidade, nem no mundo.
Bebeu a água, os pequenos comprimidos,
e esperou a chegada do sono.
Com algum medo da sua coragem
– afirmara pela primeira vez a sua existência –
curioso talvez, com um gesto cansado,
sentiu o peso das pálpebras a fecharem-se.
Horas mais tarde – um estranho sorriso desenhava-lhe os lábios –
anunciou a si próprio, teimosamente,
a única certeza que, por fim, adquirira:
não voltaria a dormir sozinho num quarto de hotel.

 
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▪ Juan Luis Panero
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

CONTA-ME OUTRA VEZ

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.

 

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▪ Amalia Bautista
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português do brasil por Nelson Santander