TANTAS CIDADES A QUE DEVÍAMOS TER IDO

O nosso sonho é feito de cidades cultas,
com música e cafés familiares,
a majestade de um porto e estações
de ferro e de vidro com comboios brunidos pela noite
e pela chuva, a mesma chuva
que nos acompanha num pequeno hotel
ou nas janelas de um museu.
Há recantos ao abrigo de grandes árvores,
gente calada, educada e bem vestida
e as silenciosas livrarias
onde os olhos vagueiam enquanto cai a tarde.

Tantas cidades a que devíamos ter, ido, meu amor.
A lua emerge para lá daquelas pontes de ferro
dos anos que mudaram a nossa lei.
Desde então o tempo é uma chuva
que nos inunda como inunda os telhados.
Mas na luz do pátio vemos os templos
de mármore branco e dourado travertino.
Encontramos, nas ruas de pequenas aldeias,
faustosos estuques cor de terra
esgrafiados pelo vento. Esta casa
da varanda e do pátio tem uma luz
de conversas e conforto. De nós,
aquele que ficar terá por companhia
a memória do cipreste e das heras
até nos reencontrarmos nas cidades do sonho.

 

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▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸)
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção, tradução e posfácio – Miguel Filipe Mochila 🇵🇹
 

Essas coisas sempre acontecem de repente

Nada acontece. Ela está
num comboio expresso com destino
a Barcelona, e eu estou aqui,
na minha mesa de trabalho, a escrever
estes versos.
Ela partiu apenas há duas horas. Amanhã
falaremos por telefone.
Na TV, o seu sorriso esplêndido.
Nada acontece, como eu disse.
E de repente não sei o que fazer
com tanta solidão.

 
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▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )

 

“A solidão é, assim, a configuração extremada da ausência do Outro. O Outro que se torna presente pela própria ausência configura em meu ser a sua necessidade. O desespero do homem contemporâneo apresenta várias facetas de sofrimento, mas seguramente a ausência do Outro é um dos maiores espectros dessa realidade.”

Valdemar Augusto Angerami
in solidao-a-ausencia-do-outro_compress
 

 

SER VELHO

Entre as sombras dos galos
e dos cães nos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e água suja
quando as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
a escolher lentilhas
em noites de borralho,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim da guerra
tiveram de vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho é a guerra ter terminado.
É saber onde ficam os refúgios, agora inúteis.

 

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▪ Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Soledade Santos

ORAÇÕES

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
( Espanha 🇪🇦 )
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 

 

ORACIONES

 

La ventana del cuarto me lo muestra.
Lo dibuja la luz con pulso firme,
la claridad lo colorea
con manchas de pintor impresionista
sobre un lienzo de arena.
Lo enseña, pero no lo entrega.
El espacio. El olor a tierra húmeda,
hojas dispersas por el cauce,
destello de limón maduro,
fragancia de las rosas
cuando amanece, sinfonía
caótica de pájaros, canción
de la lluvia en las cañerías
y en los cristales. El espacio
está en mí
aunque no lo posea. En mí pervive
si lo contemplo desde esta ventana.
No me muestra lo que estoy viendo,
sino aquello que soy.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
( España 🇪🇦 )
Inédito publicado con autorización previa del autor

 

ENVIA-ME UMA CARTA

Envia-me uma carta
Envia-me uma carta, ainda que se perca.
Envia-me velas acesas, não sei,
um monte, por exemplo, que me olhe de cima.
Envia-me sonetos, pergaminhos,
capitéis coríntios que reforcem
esta luz da tarde que resvala.
Alguma coisa de Brahms, o mar e o seu epicentro.
Bandeiras sem manchas de cores,
que se possam pintar como se quiser.
E sobretudo ar, sem condutas, ar livre.
Por agora, a carta, ainda que se perca.

 

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▪ Blanca Sarasua
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Luis Filipe Parrado

DOIS POEMAS DE LUIS ALBERTO DE CUENCA

 

Bébetela

 

Dile cosas bonitas a tu novia:
“Tienes un cuerpo de reloj de arena
y un alma de película de Hawks.”
Díselo muy bajito, con tus labios
pegados a su oreja, sin que nadie
pueda escuchar lo que le estás diciendo
(a saber, que sus piernas son cohetes
dirigidos al centro de la Tierra,
o que sus senos son la madriguera
de un cangrejo de mar, o que su espalda
es plata viva). Y cuando se lo crea
y comience a licuarse entre tus brazos,
no dudes ni un segundo:
bébetela.

 

Bebe-a

 

Diz coisas bonitas à tua namorada:
“Tens um corpo de relógio de areia
e uma alma de filme de Hawks.”.
Di-lo muito baixinho, com os lábios
colados à sua orelha, sem ninguém
poder escutar o que estás a dizer
(ou seja, que as suas pernas são foguetes
dirigidos para o centro da Terra
ou que os seus seios são a madrigueira
de um caranguejo ou que as costas
são prata viva). E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços,
não hesites um segundo:
bebe-a.

 

No está muerta

 

Ella dijo, después de mil besos y abrazos:
“Soy tan feliz que quiero que el tiempo se detenga.”
Y él respondió: “No sufras, ya inventaré la fórmula
de que el tiempo no pase para ti.” Y la miraba
con los ojos nublados por la melancolía.
Y entonces ella dijo: “Si logras detenerlo,
que no vaya a dolerme y, sobre todo, que haga
juego con mi vestido.”

 

Não está morta

 

Depois de mil beijos e abraços, ela disse:
“Estou tão feliz que quero que o tempo páre.”.
“Não te preocupes, vou já inventar a maneira de o tempo
não passar para ti.”, respondeu ele. E olhava-a
com os olhos nublados pela melancolia.
Diz ela então: “Se conseguires detê-lo,
que não me doa e, sobretudo, que condiga
com o meu vestido.”

 

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▪ Luis Alberto de Cuenca
(España 🇪🇸 )

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho  🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático

 

OCÉANO

 
Las metáforas nacen en la piel. De la brisa húmeda que la ventana cuela. De una imagen que estremece recordar. De una caricia que se sintió durante un sueño. La piel da sentido a muchas palabras que prenden en las sensaciones del tacto. A otras que la cubren, en cantidad durante el invierno, com liviandad durante los días calurosos del verano. Y aun a términos que la explican, que la nutren, que la vivifican. Tanta locuacidad brota de la fuente incesante de sensaciones que es la piel. Pero lo decisivo, aquello que revive, dentro lo ya perdido, son las metáforas.

 
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▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in “Añil”, Editorial: Cypress Cultural, Sevilla (España), 2021