MÃE

Mãe,
acho que vou fazer uma visita ao Inferno.
Não importa que seja muito longe.
Partirei de manhã como se estivesse a sair para o trabalho,
voltarei à noite como se tivesse saído do trabalho.
Não te esqueças das refeições, mastiga bem os alimentos antes de engolir,
certifica-te que desligas o gás quando saíres
e não te preocupes comigo.
O inferno deve ser um lugar onde vivem pessoas.
Se eu for para o Inferno para ganhar a vida
poderei finalmente tornar-me uma pessoa.

 

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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para Português por Jorge Sousa Braga

O RETRATO

A minha mãe nunca perdoou o meu pai
por se ter matado,
e logo num momento tão estranho
e num parque público,
naquela primavera
em que eu estava à espera de nascer.
Ela trancou o nome dele
no seu armário mais profundo
e não o deixaria sair,
embora eu o pudesse ouvir a bater.
Quando desci do sótão
com o retrato a pastel na minha mão
de um estranho de grandes lábios
com um bigode corajoso
e olhos castanhos profundos,
ela rasgou-o em pedaços
sem uma única palavra
e deu-me uma grande bofetada.
Mesmo agora com sessenta e quatro anos
consigo sentir a minha bochecha
ainda a arder.

 

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▪ Stanley Kunitz
(E.U.A. 🇺🇸)
Mudado para português por_ Jorge Sousa Braga

BALADA DA BÓSNIA

Enquanto te serves de um uísque,
esmagas uma barata, olhas para o relógio,
enquanto compões a gravata,
há pessoas a morrer.

Em cidades com nomes curiosos,
atingidas por balas, apanhadas pelas chamas,
em regra sem saberem porquê,
as pessoas morrem.

Em pequenas localidades desconhecidas,
porém vastas, que não deixam hipótese
de gritar ou dizer adeus,
há pessoas a morrer.

As pessoas morrem enquanto eleges
novos apóstolos da incúria,
do autodomínio, etc. — pelos quais
as pessoas morrem.

Demasiado longe para o amor
pelo vizinho/irmão eslavo,
onde os querubins temem voar,
há pessoas a morrer.

Enquanto observas a pontuação dos atletas,
verificas o último extrato, ou
cantas uma canção de embalar ao teu filho,
há pessoas a morrer.

O tempo, cuja cortante sede de sangue separa
os mortos daqueles que matam,
anunciará a tribo derradeira
como o teu grupo sanguíneo.

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▪ Joseph Brodsky
(E.U.A. 🇺🇸)
Mudado para português por_ Lauro Machado Coelho

TERAPIA

Leio Santa Teresa
e rezo na hora de pôr a mesa.
Li Miguel de Cervantes
e continuo como antes.
Leio Jorge Manrique
e faço dísticos com minha psique.
Li São João da Cruz
e o caixão é lindo.
Li Nietzshe e li Kafka
e minha razão se rompe.

Léo e Léo e Leão Felipe!!!
Ser poeta é uma delícia.
Leio ensaios, leio romances,
fico acordado a noite toda.
Leio poesia, teatro,
minha alma cresce com o tempo.

Ler é uma terapia,
quem não lê fica cego
e surdo como uma parede.

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▪ Belén Reyes
( Espanha 🇪🇸 )

O POEMA É UM PASSAPORTE

Fiz a viagem inteira de pé:
ninguém me deu o lugar
mesmo que eu tivesse uns cem anos a mais que os outros passageiros
mesmo que em mim fossem óbvios
os sinais de três grandes males:
o Orgulho, a Arte, a Solidão.


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▪ Nina Cassian
(Roménia 🇹🇩)
Poema dito e mudado para português por Diogo Costa Leal

LEMBRANÇA DE AMANHÃ

Ficámos nas fotografias todos juntos
(vivos, mortos, tanto faz, sim, todos juntos)
com caras de turistas já cansados
de percorrer cidades invisíveis
à procura das mães. O turismo
é uma forma alegre de orfandade.
Pagar para sofrer, perder países.

Fartos de tirar fotografias, epitáfios
a cores, e felizes por nada compreendermos,
regressamos a casa, já era tempo,
carregados de recordações e desejos
de não voltar a sair,
de nos deixarmos de viagens e histórias,
de não termos de percorrer o mundo
perguntando ao mundo,
com um mapa na mão,
onde estamos, quem falta, aonde vamos.

O caos tem um calendário rigoroso
e o nada, festas para guardar.

Trouxe-te estas fotografias, vê-as.

São uma estranha lembrança da morte.

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▪ Juan Vicente Piqueras
( Espanha 🇪🇸 )

Mudado para português por Manuel Alberto Valente

A PAZ DAS COISAS SELVAGENS

Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo a meio da noite com o mais pequeno som,
com medo do que possa vir a ser a minha vida e a vida dos meus filhos,
vou e deito-me onde o pato-marreco
repousa na sua beleza na água e a garça-real se alimenta.
Penetro na paz das coisas selvagens
que não sobrecarregam as suas vidas com a premeditação da tristeza. Entro na água parada.
e sinto por cima de mim as estrelas cegas durante o dia esperando com a sua luz. Durante algum tempo
descanso na graça do mundo e sou livre.

 
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▪ Wendell Berry
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga