░ Dois poemas

 

░ Restos

 

Os ossos da minha mãe num nicho.
As cinzas da minha tia também.

Uma vida.
Uma vida.

 

 

░ Aprendam com a folha da amendoeira

 

 

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O resplendor
é o mais importante.

 

__
▪Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

░ Blake

Observo William Blake, que descobria anjos
nas copas das árvores todos os dias,
encontrou Deus nas escadas
da sua pequena casa e via luz em vielas sujas —
Blake que morreu cantando alegremente
numa Londres apinhada
de prostitutas, almirantes e milagres,
William Blake, gravador, que trabalhou
e viveu na pobreza mas não em desespero,
que recebeu sinais ardentes
do mar e do céu estrelado,
que nunca perdeu a esperança, pois a esperança
renascia sempre como a respiração,
vejo os que como ele caminharam por ruas sombrias,
na direcção da orquídea rósea da madrugada.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2008

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Blake

 

I watch William Blake, who spotted angels
every day in treetops
and met God on the staircase
of his little house and found light in grimy alleys—
Blake, who died
singing gleefully
in a London thronged
with streetwalkers, admirals, and miracles,
William Blake, engraver, who labored
and lived in poverty but not despair,
who received burning signs
from the sea and from the starry sky,
who never lost hope, since hope
was always born anew like breath,
I see those who walked like him on graying streets,
headed toward the dawn’s rosy orchid.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Eternal Enemies”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2008
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh

░ O MISTÉRIO DAS ORAÇÕES

Na minha família
as orações eram rezadas secretamente,
em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor;
quase murmuradas,
com um suspiro no princípio e no fim,
fino e limpo como uma gaze.

Junto à casa
havia apenas uma escada para subir,
de madeira, encostada à parede o ano inteiro,
de modo a reparar o telhado em Agosto, antes das chuvas.
Mas, em vez de anjos,
subiam e desciam homens
sofrendo de ciática.

Rezavam-Lhe olhos nos olhos,
na esperança de renegociar os seus contratos
ou adiar os respectivos prazos.

“Senhor, dá-me forças”, nada mais,
pois eram descendentes de Esaú,
abençoados com a única bênção que restara de Jacob
– a espada.

Na minha casa
a oração era considerada uma fraqueza
que nunca se devia mencionar,
tal como fazer amor.
E, tal como fazer amor,
era seguida pela assustadora noite do corpo.

 

_
▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia, n. 1968)
in “Telhados de Vidro n.º 22”, Averno, Lisboa, 2017

Mudado para português por _Inês Dias_ e _Marjeta Mendes_

░ APONTAMENTOS PARA UMA LENDA

Uma mulher está parada numa ponte
que nunca existiu
A sua pele que nunca foi beijada
flutua sobre as águas do tempo
como uma lembrança sem rosto
Uma carta nunca lida
esforça-se por alcançar a margem
no intuito de que alguém a encontre
Um homem que nunca leu
que não sabe ler
que nunca aprendeu
encontra a carta e o corpo
debaixo da ponte
O homem chora de impotência
enquanto a carta se desfaz
entre os seus dedos
O rio que está cheio de lágrimas
condói-se daquele homem
e revela-lhe o segredo da carta
E o homem louco de amor
reúne as suas noites e sonhos
para se lançar dessa ponte
que nunca existiu

 

_
▪ Mario Meléndez
(Chile, n. 1971)
in “Vuelo Subterráneo”, Talca, Chile, 2004

*

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

APUNTES PARA UNA LEYENDA

 

Una mujer está parada sobre un puente
que no existió jamás
Su piel que jamás fue besada
flota sobre las aguas del tiempo
como un recuerdo sin rostro
Una carta que jamás fue leída
lucha por alcanzar la orilla
para que alguien la descubra
Un hombre que jamás ha leído
que no sabe leer
que no aprendió jamás
halla la carta y el cuerpo
debajo de ese puente
El hombre llora de impotencia
mientras la carta se deshace
entre sus dedos
El río que está lleno de lágrimas
se apiada de aquel hombre
y le revela el secreto de esa carta
Y el hombre loco de amor
junta sus noches y sus sueños
para arrojarse de ese puente
que no existió jamás

 

_
▪ Mario Meléndez
(Chile, n. 1971)
Extraido del libro “Vuelo Subterráneo”, Talca, Chile, 2004

 

░ Caroço de abacate

Plantei um caroço de abacate
na minha cozinha
para a Ruth
e para o Alan, que morreram.
Amigos os dois, mais a Ruth —
A da voz de
aveia e mel.
Vou replantar o caroço
dar-lhe espaço para ser árvore
viver
enquanto a dor durar.

 

_
▪ Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Avocado Stone

 

I have planted an avocado stone
in my kitchen
for Ruth
and for Alan who died.
Both friends, Ruth more so —
She of the voice of
oatmeal and honey.
I will replant the stone
give it room to be a tree
To last
as long as grief lasts.

 

_
▪ Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
From “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

O violino de Aída

Minha mãe tocava o violino junto à janela nos dias de chuva.
Com olhar atento calculava a mecanografia secreta do grilo
que faz soar as cordas sob o arco de crina.
O professor de música a contemplava em silêncio,
fazia um súbito gesto brusco com a mão
ela silenciava e ele indicava como deveria repetir outra vez a peça.
O inverno era longo, todas as tardes durante uma hora
minha mãe tinha aulas de violino. O violino de minha mãe
era um Schuster & Co. que guardo agora em minha casa.
Próximo das quatro subia pela rua o professor de música,
com parcimônia e paciência se dispunha a ensinar-lhe a lição do dia,
as mariposas negras do pentagrama, as estrelas da partitura.
O inverno era longo, durante uma hora minha mãe tocava violino, chovia.
Próximo às cinco o professor dava por concluída a batalha,
fechava sua pasta, pegava seu casaco, tentava encontrar a porta.
Eu o via da janela descer pela rua como se estivesse preocupado
até desaparecer entre as árvores sua lenta figura vestida de negro.
O inverno era longo, próximo das seis minha mãe abria de novo seu estojo,
sacava o violino, começava a fazer seu dever de música, chovia.
Algo corria então que não deve ser compreendido,
algo que jamais deveria ser explicado,
a música do céu, a canção da chuva feito luz em suas mãos.

 

_
▪ Alejandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

Mudado para português por _Gustavo Petter_ (Poeta e tradutor), mora em Araçatuba/SP-Brasil, trabalha como professor da rede estadual. Mantém o blog agradaveldegradado.blogspot.com.br



EL VIOLÍN DE AÍDA

 

Mi madre tocaba el violín junto a la ventana los días de lluvia.
Con mirada atenta calculaba la mecanografía secreta del grillo
que hace sonar las cuerdas bajo el arco de crin.
El profesor de música la contemplaba en silencio,
hacía de pronto un gesto brusco con la mano
y ella se detenía y él le indicaba como debía repetir otra vez la pieza.
El invierno era largo, todas las tardes durante una hora
mi madre tomaba clases de violín. El violín de mi madre
era un Schuster & Co. que tengo yo ahora en mi casa.
A eso de las cuatro subía por la cuesta el maestro de música,
con parsimonia y paciencia se disponía a enseñarle la lección del día,
las mariposas negras del pentagrama, las estrellas de la partitura.
El invierno era largo, durante una hora mi madre tocaba el violín, llovía.
A eso de las cinco el profesor daba por concluida la batalla,
cerraba su carpeta, cogía su abrigo, intentaba encontrar la puerta.
Yo lo veía desde la ventana bajar por la cuesta como si se fuese abrumado
hasta que se perdía entre los árboles su lenta figura vestida de negro.
El invierno era largo, a eso de las seis mi madre abría de nuevo el estuche,
sacaba su violín, comenzaba a hacer sus deberes de música, llovía.
Algo ocurría entonces que no debe ser comprendido,
algo que jamás debiera ser explicado,
la música del cielo, el canon de la lluvia hecho luz en sus manos.

 

_
▪ Alejandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

░ SEM OFÍCIO

Eu que não tenho outro ofício
senão traduzir,
que mais do que ofício é uma astúcia,
observo os pedreiros
que lá em baixo
sabem quase tudo acerca
do cimento;
trabalham duramente,
misturando-se com ordem
à luz do dia.
Levantam do nada
uma matéria audível,
vêem como o simples lodo
se transforma
para nele se imprimir
a vontade comum.
Conforme o edifício cresce,
sobem de altura,
pisam a sua própria obra,
não têm dúvidas,
sabem que o mundo existe,
que cada andar custa
e cada metro exige
um sacrifício.
Sabem sem pensar,
com cada músculo que têm,
por isso regressam a casa
tão ligeiros,
sem tristezas,
e enquanto uns fumam,
os outros não tiram os olhos
da calçada,
estão fatigados,
deixaram tudo nos tijolos,
que arrefecem.

 

_
▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto )
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011

Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

SIN OFICIO

Yo que no tengo oficio
excepto traducir,
que más que oficio es una astucia,
miro a los albañiles
que en lo bajo
conocen todo o casi todo
del cemento;
trabajan duro,
mezclándose con orden
a la luz del día.
Levantan de la nada
una materia audible,
ven cómo el simple lodo
se transforma
para imprimirse en él
la voluntad común.
Conforme el edificio crece,
suben de altura,
pisan su propia obra,
no tienen dudas,
saben que el mundo existe,
que cada piso cuesta
y cada metro exige
un sacrificio.
Lo saben sin pensarlo,
con cada músculo que tienen,
por eso vuelven a sus casas
tan livianos,
sin pesadumbre,
y mientras unos fuman,
los otros no desvían los ojos
de la acera,
están cansados,
dejaron todo en los ladrillos,
que se enfrían.

_
▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto )
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011

░ Poema

Ao início da noite, como agora, um homem está curvado
sobre a sua secretária. Lentamente ergue a cabeça; uma mulher
surge, trazendo rosas.
O seu rosto flutua até à superfície do espelho,
marcado pelos raios verdes dos pés das rosas.

É uma forma
de sofrimento: depois a página transparente
levada sempre à janela até as suas veias aparecerem
como palavras por fim cheias de tinta.

E é minha obrigação compreender
o que as une
ou à casa cinzenta mantida no sítio com firmeza pelo crepúsculo

porque eu devo entrar nas suas vidas:
é primavera, a pereira
a cobrir-se com uma fina camada de flores brancas e frágeis.

 

_
▪ Louise Glück
(EUA, n. 1943)
in “Poems 1962-2012”, Editora Farrar, Straus and Giroux, First Edition, USA, 2012

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Poem

In the early evening, as now, a man is bending
over his writing table.
Slowly he lifts his head; a woman
appears, carrying roses.
Her face floats to the surface of the mirror,
marked with the green spokes of rose stems.

It is a form
of suffering: then always the transparent page
raised to the window until its veins emerge
as words finally filled with ink.

And I am meant to understand
what binds them together
or to the gray house held firmly in place by dusk

because I must enter their lives:
it is spring, the pear tree
filming with weak, white blossoms.

 

_
▪ Louise Glück
(USA, b. 1943)
From “Poems 1962-2012”, Farrar, Straus and Giroux, First Edition, USA, 2012

 

░ Violoncelo

Quem não gosta dele diz que é
apenas uma mutação do violino
que foi corrida do coro.
Não é assim.
O violoncelo tem imensos segredos,
mas nunca soluça,
canta apenas na sua voz baixa.
Nem tudo se transforma numa canção,
porém. Às vezes apanhamos
um murmúrio ou um sussurro:
sinto-me sozinho,
não consigo dormir.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Without End: New and Selected Poems”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2002

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Cello

 

Those who don’t like it say it’s
just a mutant violin
that’s been kicked out of the chorus.
Not so.
The cello has many secrets,
but it never sobs,
just sings in its low voice.
Not everything turns into song
though. Sometimes you catch
a murmur or a whisper:
I’m lonely,
I can’t sleep

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Without End: New and Selected Poems”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2002
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh