INÚTIL COMO A CHUVA

Aceitaria de bom grado esta crítica sobre a poesia: a poesia é inútil como a chuva.

Há poetas que são como esses macacos que têm prazer em sacudir árvore para lhe fazer cair os frutos, imitando assim o gesto sagrado do homem.

As palavras são como a olaria de renome, extremamente porosa, donde a água se escapa misteriosamente. Tome-se uma palavra e revista-se-lha da matéria inflamável da alma.

O poeta não deve fazer esquecer o homem, mas o homem o poeta.

Alguns poetas não fazem a sua obra senão através dos vidros. Natural que a sua obra nos apareça muitas vezes maculada de caganitas de moscas.

A inspiração é a contra-inteligência do poeta, o agente secreto.

Come a tua mão. Guarda a outra para amanhã.

Escreve-se primeiro para nos conhecermos, depois para nos reconhecermos, enfim para nos desculparmos.

Uma poesia que perde a sua virgindade: é o que está certo Uma poesia que a reencontra: é ainda melhor.

Alguns poetas não vêem na poesia senão um fait-divers, ou uma beleza puramente anedótica. É colocar-se exactamente na situação do ladrãozeco de molas de roupa que marche, as mãos algemadas, entre dois polícias.

Preferirei sempre uma destruição de génio a uma construção comedida.

Ele há sempre um divórcio entre a poesia do momento e o público do momento.

Toda a poesia que corre de raiz lança-se no mar, tende-se a juntar-
se ao universal.

Quanto mais o poeta se aproximar da terra mais ele será aéreo, mais ele tenderá a desconfiar da fadiga dos seus músculos.

Uma poesia que não fizer apelo senão à meditação arrisca-se, ao fim de uns anos a patinar no vazio, pois todas as grandes batalhas foram sempre lutas de movimento.

Eu não sou militar de carreira. Eu não me bato por nenhum soldo, por nenhuma patente, por nenhuma pátria. Nem mesmo pela poesia: eu defendo a minha pele.

O tempo que me é dado, que o amor o prolongue.

 


▪ René Guy Cadou
(França 🇨🇵)
Mudado para português por António Cabrita

Fuga da morte

Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros cantem
e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a tocar para a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes
E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith

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▪ Paul Celan
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por João Barrento

*
Paul Pessach Antschel, romeno-judeu-alemão, nascido em 1920, com histórico familiar de passagem por campos de concentração, e considerado uma das vozes mais radicalmente singulares da poesia de todos os tempos, adotou o nome de Paul Celan após o termo da Segunda Guerra Mundial, passando grande parte da vida, num exílio voluntário, na cidade de Paris, onde se suicidou, em 1970, atirando-se da ponte Mirabeau ao rio Sena.

UM DEUS IRADO

Um deus irado
Batia num homem;
Espancava-o ruidosamente
Com golpes atroadores
Que soavam e ressoavam pela Terra.
Toda a gente veio a correr.
O homem gritava e procurava libertar-se,
E mordia furiosamente os pés do deus.
As pessoas exclamavam: “Ah, que homem malvado!”
E –
“Ah, que deus formidável!”

 

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▪ Stephen Crane
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Antologia de Poesia Anglo-Americana”
Mudado para português _ António Simões

AS PESSOAS DE QUE EU GOSTO

Não gosto de pessoas que não têm sombras.
Não gosto de pessoas que não gostam de sombras.
Gosto de pessoas que se tornaram na sombra debaixo de uma árvore.
A luz do sol também precisa de sombra para brilhar e deslumbrar os olhos.
Sentado à sombra de uma árvore
observo a luz do sol brilhando entre as folhas,
que beleza a deste mundo.

Não gosto das pessoas que não têm lágrimas.
Não gosto das pessoas que não gostam de lágrimas.
Eu gosto das pessoas que se tornaram numa lágrima.
A alegria também não é alegria sem lágrimas.
Será que existe amor sem lágrimas?
A visão de alguém sentado à sombra de uma árvore
enxugando as lágrimas do outro,
beleza e quietude.

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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

MUDANÇAS DE NOME

Aos amantes das belas letras
Faço chegar os meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas
A minha posição é esta:
O poeta não cumpre a sua palavra
Se não mudar o nome das coisas.
Por que razão o sol
Há-de continuar a chama-se sol?
Peço que se chame Micifuz
O das botas de quarenta léguas!

Os meus sapatos parecem ataúdes?
Pois saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comunique-se, anote-se e publique-se
Que os sapatos mudaram de nome:
Doravante chamam-se ataúdes.
Bem, a noite é longa
Qualquer poeta que se tenha em boa conta
Deve ter o seu próprio dicionário
E antes que me esqueça
Ao próprio deus é preciso mudar o nome
Que cada qual o chame como queira:
Esse é um problema pessoal.

 

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▪ Nicanor Parra
( Chile 🇨🇱 )
in “Acho que Vou Morrer de Poesia” – Antologia Breve, Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção e tradução – Miguel Filipe Mochila

O ENCONTRO

Muda mil e uma vezes de sapatos,
de blusa, de casaco, de batom…
Por fim dá um último toque
numa sobrancelha e sorri: “Já está”.
Trauteando uma velha canção,
pega no saco e sai. Feliz.
Como nunca pensou poder sentir-se.

 

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▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )

in “Estas Coisas Acontecem de Repente” _
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

NOITES VAZIAS

Acho que me posso desintegrar;
uma noite fria
fechada em casa
Acho que posso explodir.
Talvez as minhas chamas saiam pelas janelas,
E as minhas cinzas inundem a sala
– a cor das paredes finalmente mudaria –
As minhas cartas provavelmente disparariam
violentamente até ao teto
e a fumaça perfuraria o céu –
uma dessas noites vazias.

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▪ Avgi Lilli
(🇨🇾 Chipre)