Não me mostres nenhum norte

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

 

 

▪ A. M. Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

MORDISCA-ME OS LÁBIOS

Mordisca-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter de te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim

 

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▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
in “Dobra” (Poesia Reunida 1983 – 2007)

O QUARTO DO PSICANALISTA

O quarto do psicanalista
alberga o retrato ausente do pai
e a escolha de vinte e cinco anos da mãe;
No divã cai a dor de existir
cortando, de bisturi, o traço
fisionómico da loucura
repetindo-se consecutivamente
na tragédia da genética.
Os móveis de mogno pesado
pisam o chão que desaba
debaixo dos pés de Freud
e Freud, o chão do psicanalista,
desabando na impaciência da normalidade.
A dor só tem olhos para a vista da rua
e a sua sociedade mais forte
perante a catástrofe:
Lisboa desabando como em 1755
e nos manicómios salvando-se apenas
os diagnósticos dos cadáveres.
Todas essas folhas sem dono
são como o legado de um poeta.
“Jorge Reis, desempregado, esquizofrénico;
Maria Isabel Santos, prostituta, toxicodependente;
Ventura Casimiro, sapateiro, bipolar I;
Liliana, estudante, desgosto de amor”.
No chão ficou a voz una dos desgraçados,
o pé descalço do fetichista,
a fotografia do incendiário,
o anel de ouro comprado antes do divórcio;
Ficou a carta de Adriano e nela
o apocalipse, o nascimento de Roma
e uma ida a Marte
(Amar-te, Amar-te, Amar-te).

 


▪ Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )

Bebendo vinho com alguns contemporâneos

Os malefícios da multidão.
As sequóias sequiosas na sequência das secas.
As consequências de um choro na configuração do rosto.
A erva destrói o exterior da moradia.
O tédio é fraca compensação dos compromissos.

Que dizeis a este fim de caminho, onde o escritor recupera
a verdadeira solenidade da Afirmação?
Não conheço outro modo de escrever, isto é,
de substituir ao arrojo invertebrado da juventude
a coragem de uma lúcida conveniência. Assim,
renuncio ao pessimismo em proveito de outros sentimentos
mais fecundos – o nojo, o orgulho, o desejo nunca satisfeito.

Se acaso me ouvis
– não terei eu razão?

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

AGORA QUE O AMANHÃ

Agora que o amanhã é apenas
ficar mais velha
no meio das pausas e dos passos pelo corredor

a tua ausência não mudou o lugar de nada
e há palavras que ocupam cada vez mais espaços

vivo neste tempo de casas dispersas
e tenho medo de sair

 


▪  Maria Sousa
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

Queria que me acompanhasses

Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

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▪ Ana Paula Inácio
( Portugal 🇵🇹 )
In “Poetas sem qualidades”, Edições Averno, 2002