TELEFONA-ME PARA O SILÊNCIO

Telefona-me para o silêncio
Do meu coração, o som
Baterá no que resta ainda dos cristais
Nos recantos vazios da noite

Esta noite
Preciso da luz apagada
Da minha estrela
Chamo-te quando vem o silêncio
Desse lado do fio, do frio
Deste telefone público sem respostas
Na profundidade dos teus ouvidos
Caem as minhas chamadas
Há um grito
No limite das sombras
A perder-se no abismo.

 

▪ J. T. Parreira
( Portugal 🇵🇹 )

NATÁLIA CORREIA

 

NATÁLIA CORREIA

 

Floriu imensa. E até a divindade a viu
Beber da Fonte ouro e estrelas: pérolas
Encantadas, da noite, que cobriu,
Coroadas de estrelas e de auréolas.

Partiu p’ rás Índias no azul imenso
Das águas ou do céu, mão do Ocaso;
Partiu com «lírios e feras», intenso
Fado onde havia pérolas num vaso.

E no esplendor das mesas penteava
Sonhos, ondas, séculos de cristais:
Verdes sombras verdes que transformava

Em clarões, poeiras, risos de adegas,
Que no calendário das águas musicais
Servia a morte com magias cegas.

 
 

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O último Rei de Portugal”, Fundação Lusíada, 1992”

 

Natália de Oliveira Correia nasceu nos Açores, na ilha de S. Miguel, a 13 de Setembro de 1923 e faleceu em Lisboa em 1993).No poema Mãe Ilha, Natália Correia revela quão cedo se apercebeu portadora de um dom, o dom da poesia: «Parti p’rás Índias do meu estranho caso» escreve neste poema Natália Correia. Tendo, como legado, no coração da ilha o vaso cheio de pérolas dos sonhos maternos, teve a consciência da dificuldade de cumprir o enigma da sua singularidade pois entendia que cumpria à atividade poética uma missão histórica sagrada pelo seu ofício de profecia. O seu tempo era um tempo em que a palavra se refugiava na escrita. A fala era um lugar de disfarce e desencontro, tudo era subentendido, falar era estabelecer territórios, hierarquias. Á volta do carisma de Natália Correia se acolhia todos os que amavam a Literatura. Natália Correia dava à vida das pessoas a noção de sentido perdido , achado ou por achar. Para se cumprir isolou-se como Herberto Helder mas de outra maneira: mantendo-se, como os taoistas chineses , só no meio dos homens e das suas tempestades. O que lhe não foi dado no amor com que sonhou seja dado à sua memória.

MÃE ILHA

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p’ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p’rás Índias do meu estranho caso
— ó danos que dos versos sois o engate! —
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.


Natália Correia, Antologia Poética, Publicações Dom Quixote
(Texto de Joana Ruas)

MORTO DAS NOVE ÀS CINCO NOS DIAS ÚTEIS

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e estender-me sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestado
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

 

▪ Rui Knopfli
( Portugal 🇵🇹 )

Antologias de Poesia 1951 a 1963 CEI Mocambique_UCCLA

A Divisão de Cristo

Dividamos o mundo em duas partes iguais:
uma para portugueses, outra para espanhóis.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus:
a metade morreu na viagem do oceano.

Dividamos o mundo entre as pátrias.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras:
a metade morreu nos campos de batalha.

Dividamos o mundo entra as máquinas.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das fábricas:
a metade morreu na escuridão, sem ar.

Não dividamos o mundo.
Dividamos Cristo:
todos ressuscitarão iguais.

 
 

_

▪ Jorge de Lima
( Brasil 🇧🇷 )

La tentation la plus forte de l’homme est celle de l’inertie

“Oui, c`est la vérité que nous vivons sans avenir et que le monde d’aujourd`hui ne nous promet plus que la mort ou le silence, la guerre ou la terreur. Mais c’est la vérité aussi que nous ne pouvons pas le supporter parce que nous savons que l’homme est une longue création et que tout ce qui vaut la peine de vivre, amour, intelligence, beauté, demande le temps et la maturité. Et si nous ne pouvons pas le supporter, nous devons le dénoncer.”
Et la première chose justement est de pousser ce cri de révolte.
Car la terreur et la fatalité sont faites pour moitié au moins de l’inertie et de la fatigue des individus en face des principes stupides ou des actions mauvaises dont on continue d`empoisonner le monde.
La tentation la plus forte de l’homme est celle de l’inertie.
Et parce que le monde n’est plus peuplé par le cri des victimes, beaucoup peuvent penser qu’il continuera d’aller son train pendant quelques générations encore.
Il ira son train, en effet, mais parmi les prisons et les chaînes.
Parce qu’il est plus facile de faire son travail quotidien et d’attendre dans une paix aveugle que la mort vienne un jour, les gens croient qu’ils ont assez fait pour le bien de l’homme en ne tuant personne directement. Mais, en vérité, aucun homme ne peut mourir en paix s’il n’a pas fait tout ce qu’il faut pour que les autres vivent et s’il n’a pas cherché ou dit quel est le chemin d’une mort pacifiée. Et d’autres encore, qui n’ont pas envie de penser trop longtemps à la misère humaine, préfèrent en parler d’une façon très générale et dire que cette crise de l’homme est de tous les temps. Mais ce n`est pas une sagesse qui vaut pour le prisonnier ou le condamné. Et, en vérité, nous continuons d`être dans la prison, attendant les mots de l’espoir.
Les mots d’espoir sont le courage, la parole claire et l’amitié. Qu’un seul homme puisse envisager aujourd’hui une nouvelle guerre sans le tremblement de l’indignation et la guerre devient possible. Qu’un seul homme puisse justifier les principes qui conduisent à la guerre et à la terreur et il y aura guerre et terreur. Il faut donc bien que nous disions clairement que nous vivons dans la terreur parce que nous vivons selon la puissance et que nous ne sortirons de la terreur que lorsque nous aurons remplacé les valeurs de puissance par les valeurs d`exemple. Il y a terreur parce que les gens croient ou bien que rien n’a de sens ou bien que seule la réussite historique en a. Il y a terreur parce que les valeurs humaines ont été remplacées par les valeurs du mépris et de l’efficacité, la volonté de liberté par la volonté de domination. On n`a plus raison parce qu’on a la justice et la générosité avec soi. On a raison parce qu’on réussit. Et plus on réussit, plus on a raison. A la limite, c`est la justification du meurtre.
Tout le monde aujourd’hui veut réussir, par l’argent ou par le jeu. Tout le monde veut triompher. Les nations ne souhaitent pas le succès parce qu’elles ont raison mais elles le veulent pour avoir enfin raison. Aucune d’elles ne veut plus écouter l’autre. Il n’y a plus de dialogues possibles dans un univers où tout le monde est sourd. Demain, ce sera le monologue du vainqueur et le silence de l’esclave. C`est pourquoi les hommes ont raison d’avoir peur, parce que dans un pareil monde c’est toujours par hasard ou par une arbitraire bienveillance que leur vie ou celle de leurs enfants sont épargnées. Et ils ont raison aussi d`avoir honte parce que ceux qui vivent dans un pareil monde sans le condamner de toutes leurs forces (c’est-à-dire presque tous) sont à leur manière aussi meurtriers que les autres.
Il n’y a qu’un seul problème aujourd’hui qui est celui du meurtre, toutes nos disputes sont vaines. Une seule chose importe qui est la paix. Les maîtres du monde sont aujourd’hui incapables de l’assurer parce que leurs principes sont faux et meurtriers. Que du moins, et dans tous les pays, ceux qui refusent le meurtre se réveillent, dénoncent les faux principes et entament pour leur propre compte la réflexion, le dialogue, le démarche exemplaire qui démontreront au moins que l’histoire est faite pour l’homme et non pas le contraire. Ceux qui ne veulent pas tuer doivent parler, et ne dire qu’une seule chose, mais la dire sans répit, comme un témoin, comme mille témoins qui n’auront de cesse que lorsque le meurtre, à la face du monde sera répudié définitivement.”

Albert Camus
in “Franchise No 3, novembre – décembre 1946”

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

 

▪Raul de Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )

CARTA DA INFÂNCIA

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
…………minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
…………nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
………….cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
………….da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

 

▪Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético”, 1998

 

IMAGENS

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais
e que se chove corra a apanhar
-te,
não te vás desbotar ou romper,
ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.

 

▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Coisas de partir”

A QUEM DEIXAREI O MEU CANSAÇO

A quem deixarei o meu cansaço,
as unhas sujas, as marcas
do martelo falhado, a quem
senão a quem…?
– Serão de quem viver depois do dia de hoje
o dia de hoje que eu vivi doado
e a obra pequenina que fabrico
no silêncio que a rua me permite.

 

 


▪ Pedro Tamen
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Livro do Sapateiro”