Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros
_
▪ Ana Hatherly
(Porto, n. 1929-2015)
in “Fibrilações”, Quimera Editores, Lisboa, 2005
Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros
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▪ Ana Hatherly
(Porto, n. 1929-2015)
in “Fibrilações”, Quimera Editores, Lisboa, 2005
Continuas aí, Norma Jeane,
a romper os espelhos de Los Angeles
à espera de uma porta que se abra
e que te diga “amo-te”?
Deves saber
que os orfanatos não têm telefones
para o silêncio.
Um dia, se quiseres,
manda-me pelo WhatsApp uma mensagem.
Sabes que estou aqui.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Chove
E o mundo é grande
Igual a um deserto
Que não cabe em nós
Nunca somos de um mundo apenas
É isso que nos dói
Quando andamos sobre o soalho
Desta casa
Escoando para as fendas os barcos que a vida tem
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▪ M Céu Costa
( Portugal 🇵🇹 )
in “E eu era a casa“, Editora Urutau, 2022
Um pastor sempre tem necessidade de um carneiro que sirva de guia ao rebanho.
Ou então é constrangido a fazer-se de carneiro.
_
▪ Friedrich Nietzsche
( Alemanha 🇩🇪 )
in “Além do Bem e do Mal “, Aforismos
Portanto farei uma escada no coração.
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo.
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavras
Em silêncio, portanto, pisando o coração.
–
▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”
Hoje fazes anos, Mãe,
não de ter nascido mas de ter morrido.
Não quero fazer contas para saber quantos.
Não é preciso, não te vamos acender velas num bolo
nem cantar os parabéns.
Vamos lembrar-te de ti, eu e os teus netos,
como algo que desapareceu do Universo
que, sem ti, se tornou imperfeito e incompleto.
Só então ficámos mesmo a saber
o que morrer quer dizer
– e como faz doer!
Foi-se a última infância
para os que de nós ainda mantinham essa pele
– as cobrinhas mais jovens da família.
A minha tinha ficado esfarrapada
no arame farpado do exílio
e também dos amores imperfeitos
e desfeitos.
Sei que não morreste infeliz
porque, três meses antes, anunciaste:
“Quero viver ainda mais dez anos!”
O Tempo não te fez a vontade.
“Amaldeçoado!” – se diz na nossa terra algarvia
donde nunca saíste, apesar de teres andado comigo pelo mundo.
Agora onde estarás?
Juro-te que para lá partiria agora mesmo
se soubesse o teu endereço!
Há tanto tempo que não dás notícias!
É a única coisa que me espanta em ti
e não consigo entender nem perdoar!
Será que a morte é o fim?
Mas contigo não deveria ser assim!
Sorrio:
Talvez que esta rima a brincar
Sejas tu a mandar-me sorrisos e beijos!
_
▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,
Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.
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▪ Manuel Resende
( Portugal 🇵🇹 )
Porque e ainda, ainda perdura no discurso de Duma
uma exacerbada violência
acusatória
de impropérios de dilaceração e
despedaçamento — em que o filho a mãe acusa
de ser a tempo inteiro, de ser
Mãe mais que mulher ou amante
amanhecida — aquém e além da luz do dia: a acusa de ser
seu natural direito separar de si o filho. — Somos
programados para nos dissolvermos na origem
em que, por fim, o pó chorará “de alívio”.
Que significado terão hoje os
recentes Anjos da Noite
na claridade e crueldade espantosas
de uma sem lua: ausência sem retorno,
numa dor sem sinal de emoção; de graça e empatia?
_
▪ Eduarda Chiote
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘NERVO / 13 – colectivo de poesia’, Editora Maria F. Roldão, janeiro-abril, 2022
É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.
Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.
Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.
Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.
Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.
Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?
_
▪ António Manuel Couto Viana
( Portugal 🇵🇹 )
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