POEMA DO NATAL

Caíram bombas em Seul, minha mãe
e dizem que não foi ninguém.
Vieram das sete partes da loucura
e em pássaros sombrios
e deitaram bombas em Seul
e não foi ninguém.
– Hoje é Natal, minha longínqua mãe.

Como eu o mundo tem a mãe ausente.
– Seul fica longe
mas é vizinha da nossa alma
amarga e doente…

Não foi ninguém
mas há cravos vermelhos e mortais
nos pulsos das crianças
e enquanto o Natal se pendura
nos pinheiros de todos os pontos cardeais
meteram-se estilhaços
na carne das esperanças
e as mulheres grávidas abrem os ventres
às estrelas das metralhas
e as entranhas estão quentes
de balas e vinganças.

Hoje é Natal e dizem que Cristo nasceu
e nós todos nascemos cada qual em sua cruz…
e depois cuspimo-nos nas caras
e morremos iluminados de pus.

Hoje é Natal, minha mãe
e caíram bombas em Seul
e apesar de não ser ninguém
secaram-se todos os pinheiros da pequena cidade.
– O mundo não tem Natal nem mãe.

 


▪ Herberto Helder
( Portugal 🇵🇹 )
in “Eco do Funchal,1953)

TODOS OS DIAS OS ENCONTRO

Todos os dias os encontro. Evito-os.
Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem.
Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade.
Sobretudo, vençam sem me chatear.

 

_
▪ Alexandre O’Neill
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

PASSEPARTOUT

estou aqui no mundo
acho eu, está nos registos
e acho que isso
não tem dúvida,
tanto para filósofos
idealistas como
realistas,
embora ambos
levantem dúvidas
acerca do que afirmam os registos
pois para uns
as palavras afirmam coisas e
nem sempre as coisas
que afirmam
confirmam as palavras
que as afirmam e,
para os outros é o contrário.
isso já se sabe,
mas a palavra estou
afirma tudo isso
ao mesmo tempo
e não é de há pouco,
afirma que estou lá
horas e horas, dias e dias, e até
meses, centenas e centenas
de meses, milhares acho que não
mas não tenho a certeza,
a matemática
é que ainda assim
ajuda a esclarecer:
dois caracóis
e dois ramos de salsa
são quatro,
mais dois alhos
são seis,
mas isso é na panela,
a magia está
nela, porque
passada meia hora
aliás vinte e tal minutos
— gosto de ser exacto —
já são outra vez
só dois, e depois
nem é nenhum,
porque a casca não conta;
volta a ser qualquer coisa
passadas horas mas não sei
se conta, nem quantos são.
mas fora a culinária,
hoje a matemática
é precisa para tudo,
não se faz nada sem ela,
nem sequer sexo: quantas são e
quais as variantes? só com algoritmo,
o simples ritmo claro que já não conta.
as excepções, além da culinária,
são só duas: apostas
na banca e no banco,
banco de futebol, claro: estas
é melhor na lua cheia,
na banca é melhor na nova,
já não pode haver mais perdas.
lua nova lua cheia
cinquenta por cento de cada,
mas com os quartos vazios, e depois
os repetidos carimbos
doze por cento por dia parece que é certo
mas pode ser mais pode ser menos,
pode-se ganhar um, pode-se perder outro,
e perto disso por dia,
mais tanto por noite,
depende dos marcados,
note-se bem!
nota-se e anota-se bem,
é a lua e a banca,
sobe, desce,
cresce mingua
daqui para ali
e depois para trás
e
de novo para a frente:
é o tempo que passa,
dito melhor passeia,
a matemática conta,
passa tempo passo eu no tempo
mas estou, fico
e pássaro (lindo jogo
tema tico-tico)

diz ela:
conhece Kirkegaard?

eu pergunto:
em que clube joga?

 

_
▪ Alberto Pimenta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Zombo”, Edições do Saguão, Lisboa, 2019

HOJE É

Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho género ou identificação bastantes

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco

 

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▪ Helga Moreira
( Portugal 🇵🇹 )
In “Agora que falamos de morrer”, & Etc Editora, Lisboa, 2006
 

SOMBRAS

Iluminar o mundo – com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz.

 
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▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ubi Sunt”, Edições Averno, Lisboa, 2014

 

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

 

_
▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )

 

QUEIXAS DUM UTENTE

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo, ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

 

_
▪ José Miguel Silva
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ulisses Já Não Mora Aqui”, Edição revista, Língua Morta, Lisboa, 2014
 

A CASA

Distraídos não víamos
a casa a envelhecer connosco
e no entanto a casa envelhecia:
tinha dores
achaques
tropeções
incómodos pequenos
lâmpada que falhava
e uma ou outra coisa,
vertigem passageira.

Assim corria o tempo
em pequenos derrames
que a todos por dentro
corroíam: a casa e com ela
as portas que rangiam
e umas résteas de luz
já quase a apagar-se.

A casa não andava
a casa já não via,
e nós ainda achávamos
que era coisa ligeira.

Não tem mal, dizíamos,
quando chegasse a hora
umas velas acesas,
candeeiros de avó
sem perigo de incêndio:
a casa envelhecida
sempre estaria ali,
sempre resistiria.

Sem dar por isso
o nosso envelhecer
ali juntos, fechados,
embora já morrendo
seria a última prova
de um grande amor
vivido
o dessa casa antiga
às vezes ainda rindo,
outras vezes zangada,
mas dividindo connosco
o tempo que faltava

 

Lisboa, 2018

 

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▪ Yvette K. Centeno
— Inédito

 

Alfarrabista

Hoje comprei um livro de Raul de Carvalho
por um euro, o que considero um escândalo!
Os poetas, regra geral, sempre foram pobres,
mas a sua poesia vale muito mais do que
o peso de mil resmas de rouxinol em oiro.
Isto, evidentemente, pouca gente sabe.
Se muita gente soubesse
os poetas seriam todos ricos.

 

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▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in Revista “Telhados de Vidro”, nº.12, 2009