░ O caminho

O caminho a percorrer no teu espaço é talvez uma maneira
de resistir à desumanidade que nos rodeia, a tudo o que é opaco
e doloroso.
Falo-te, invento-te na noite perfumada e tudo isto não acontece
por acaso.
Pressinto-te por detrás do silêncio. E existo.
Mas de que negras raízes é feita a árvore do teu corpo?

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Transparências”, & etc, Lisboa, 1985

░ Cheguei ao fim. Andei de pé descalço

Cheguei ao fim. Andei de pé descalço
sobre os calhaus do rio, senti
a água fria, as vozes de outro
lado. Ergui-me na cisterna, ouvi
pelo tabique o toque do relógio
e desci noutra casa, ao longe,
a escada estreita. Mas sempre
em tudo isso sentei-me na cadeira.

Deslustrei a fama que me deram,
Soluçei os soluços que passei
com risos importunos. Abri mão
dos trunfos que os anos me dariam
se os olhos pudessem reabrir-se.
As músicas tocaram, mas falei
de arremedos sortidos, da beleza
da mão com sardas brunas, e vazia.

Matei-me esfarelado, e hesitei
entre a folha da agenda e a falha
geológica. Puxei cordas diversas
e alterei assim o rumo dos teus olhos
com a vela que os vela. Sou ainda
o feto minutado que o planeta quis
no país, no país, no campo e na cidade,
entre dentes e datas, azar de bruxaria.

Vário, variei. Pra trás e pra diante
tropecei, empecilho, no teu entendimento.
Vim dos poentes tensos, rapidíssimos,
sobre a terra crestada de moléstia,
vazio de uniforme e de uma carta a chegar.
Engrossei a gravata, fiz sorriso
da careta que a alma me ditou,
pontuei o discurso. __ Vindimei.

Andei de flor em flor nos intervalos
de cantar muito a sério que sem asas
é na cadeira que tenho de sentar
o cu dorido de toda a eternidade:
e a mão, a mesma, a mão direita
mas sinistra, passa do corrimão
para a caneta, a preta, não descreve,
e escreve. Páro de percorrer.

Discorro.__ Mais: decorro, e sem saber
de que novelo saio.
Por sobre o ombro (dói!) lobrigo
tantas confusas coisas, falo delas.
Colo então à própria vista a escrita,
o peso, o contrapeso, a palavra que digo.
Sufoco o medo a medo, e olho a esteira
remudo e quedo, sentado na cadeira.

 

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▪ Pedro Tamen
(Lisboa, n. 1934)
in “Memória Indescritível”, Editora Gótica, Lisboa, 2000

░ 15.

Da tua solidão ficou um círculo de sombras
Um talismã que uso em meu cabelo branco.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011



CASTELHANO

 

░  15.

De tu soledad sobró un círculo de sombras
Un talismán que uso en mi pelo blanco.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011
Mudado para castelhano por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 

░ Eu tenho de nação ideias desmembradas

Eu tenho de nação ideias desmembradas,
comungo do ranger de dentes
com os vizinhos,
comungo de açularem
os perros uns contra os outros,

mas não eu contra todos,
só contra alguns,
e mesmo assim
isolo-me no bosque do silêncio,
fujo para esta folha,
os cães ficam lá fora.

No entanto, eu que empunhei o fogo
sem Deus se ter lembrado
de chamar a águia,

quando os sinos e as sirenes
soarem a rebate, terei de ir,
o fígado desfeito por cirroses
somadas de desgosto,

embora aos meus vizinhos
pouco falte para se armarem
nos conflitos de bairro,
em defesa do quarto e da cozinha.

No fundo, sei que sou o tempo,
as minhas coordenadas e as alheias,
e daí que haja tempo para tudo,

um tempo para a paz,
um tempo para a vida,
um tempo para a guerra e para a morte,
um tempo para ser-se tudo e nada
ao mesmo tempo, a pele dos outros
que desvisto com suma falta de piedade.

Daí que não acredite em maiorias.
As maiorias são volúveis,
fácil é comprar-lhes
a consciência e o nome da rua,

e agora os estrangeiros chegam,
estendem as metástases,
ocultam lentamente o sol,
e os olhos de tal gente
tornam-se mortiços e cegam.

Somente um genocídio podia convencê-la
de que havia um reduto aqui

e não sei se acreditava,

tantas formas há de se confiscarem
as cidades, os campos, os mosteiros,
os palácios, a Língua,
um longo rol de fábricas,
a energia dos rios e do vento,
milhões de vozes
que constroem o amor
a partir de satélites,

e ninguém se interessa:
é pouco provável
que os estrangeiros entrem numa aldeia
ou assolem as ruas suburbanas
e sejam invisíveis,
embora não se vejam.

 

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▪ Nuno Dempster
(Ponta Delgada, n. 1944)
in “Uma paisagem na web”, Editora &etc, Lisboa, 2013

░ na lavoura os pais

na lavoura os pais
à semeia das mães
joeiram os filhos de
envolta com o grânulo
cereal lábios de sangue
escorrido entre as pernas
ânforas de vinho nunca
antes bebido traçado às
escuras em cochos curtidos
contendo o mênstruo doce
dos áceres no interior líquido
o estame amputado cerca
ao bojo regaço das mães
enquanto elas ausentes
amamentam os filhos por
abortar nos embriões da
terra o útero a céu aberto
os filhos enjeitados à feiura
à magreza triste dos cães
rente ao bordo das cantareiras
donde se vislumbram defronte
os cancros tumores brotando
ao dependuro das árvores
das tardes doentes mais as
velhas nos janelos a espreitar
cá para fora com os rostos
caiados de morte e uns olhos
póstumos a anteverem o fim.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ A pedra

A pedra
conserva o perfume do homem
seu gesto de cristalização cíclica
em busca de uma verdade solar.

A pedra
respira a paixão do excesso
pássaros e curvas de plenitude feliz
instrumento do oráculo.

A pedra
sangra de lucidez aflita
restitui o cântico
inventa o poema
ávido silêncio mineral
onde gritam gestos pacientes.

A pedra
é andrógina figura
atravessada de veias e rumores
ondulação das formas mais puras
entre rigidez e harmonia

sexo de mármore aberto
aos lábios do vento.

 
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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

░ Partida de xadrez com Ivan Junqueira

Disseste a um jornal é absurdo morrer,
irmo-nos sem um deus, mas não sei outro modo
de viver e morrer; e também lhes dizias
um poente não é poente sem poesia.
Todavia, assentemos, é o sol que se esconde,
ou melhor, o rodar contínuo do planeta,
e por rodar assim é que nós respiramos,
a luz nos ilumina e partimos sozinhos.
Mas isso é já sabido antes do eppur si muove,
e neste tabuleiro onde jogo contigo
os meus peões e bispos os deuses inventados
há muito o xeque-mate nos destinavam, cínicos.
E quando começamos o jogo, pensativos,
quando me falaste é absurdo morrer só,
jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,
nos bastava a alegria de um dia termos sido
altivos e distantes das mesas de xadrez.

 

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▪ Nuno Dempster
(Ponta Delgada, n. 1944)
in “Dispersão” – Poesia Reunida, Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008

░ as velhas novembram

as velhas novembram
de outubro a dezembro
em fainas novenas
varejam os ramos com
membros canhestros
erguem-se às hastes à
cata do fruto à flor da
ramagem sacodem-na
pra panos cerzidos
desde dezembro anterior
nos janeiros da apanha
colocam-nos ao chão
no plinto das árvores
os panos ao ombro as
talhas de azeite medas
de feno ou serapilheira
as velhas janeiram quais
espantalhos siderados
em pássaros moveres.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ BIPOLAR

IJuxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
– eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
– e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011