DÍVIDA ETERNA

Um dia descerão do céu
os novos anjos com as suas asas
e gravatas
as suas pastas com títulos e ações
do céu
em alta.

Descerão
ouvindo música pop
nos seus auscultadores de prata
e entrarão no templo
a trautear canções
e a exigir-nos os juros
de tudo quanto devemos.

A nós que tudo devemos.

Aqui na terra
como no céu.

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▪ António Quintas Mendes
( Portugal 🇵🇹 )

Apontamento para poesia generativa

fecham-se as cortinas
dos sentidos
desfaço-me no pensamento
e talvez um piano seja o espaço ideal
para uma palavra que não me cabe agora
¿que riso de criança alastrada é este?
a ecoar
entre a saudade de mim
e a morte
brincando ao baloiço arcaico da vida:
alma-sobe
alma-desce
alma-sobe
alma-desce
alma-sobe e um gato na minha língua
a querer saber porque é que nunca prevê as pancadas
alma-desce
e os pés da nudez
descalços
nas arcadas da saudade

és tu?
és tu
quota parte enigmática de mim
na persiana aberta do amanhã
à minha espera
de mão nua
ambos separados por este inverno granítico de ser
dentro do próprio verão de amar,
o palato da substancia crua das coisas
e o piano entre as mãos como cântaro
para a lama do coração na memória esquecida
– amei até enterrar-me com as sementes
e quem me colhe são as cruzes adiantadas
nos expoentes.

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

DONS DO AMANTE

 

Voz | Dizedor

 

Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.

Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.

Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.

E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.

 

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▪Herberto Helder
( Portugal 🇵🇹 )

 

O Trabalho da Formiga

 


Poema e Voz | Diogo Costa Leal
Guitarra | João Canedo

 

As formigas são eussociais
Pequenas reticências terrestres

As formigas são a força mais coesa esquecida pelos homens

Cada pequena formiga
segura as suas gerações inteiras num único ninho de abundância secreta
cada pequena formiga
cuida de patas dadas alastradas a uma só unidade
a prole insuperável, porque longe das coroas maiores que as formigas.
Cada pequena formiga divide e ausculta a sua minúscula indispensável tarefa
Cada pequena formiga é reprodutora
E outra é operária
Todas na sua tarefa sanguínea da sabedoria do verbo mais contínuo
Suor longevidade impenetrável inquestionável sob os nossos pés
E nós
Os monstros homens
A atropelarmo-nos a cada novo dia
Como grandes e tenebrosas formigas amnésicas
Homens ausentes dos próprios homens
Pisando os homens como quem pisa a negligência com o ombro que esbate na pressa
De um outro homem passado.

Vejo uma pétala sozinha a caminhar.
Não. É uma formiga que a leva.
A pétala é bem maior que a formiga e a formiga não se detém:
Chama mais uma formiga e outra e outra
Mil formigas a não descansar enquanto a pequena grande pétala não for levada
Para dentro de um pequeno buraco
Porta para uma grande vida geral.

Uma nova formiga sobe a minha mão
Faz-me amar a coerência perfeita da sua espécie…
Quem me dera que ela me chamasse as amigas
E me servisse pétalas à sua mesa..

Escrevo sobre o prolongamento invisível das formigas

Ah formigas pequenos deuses da derradeira coesão inquebrável

E nós, os homens
Essa longa interrogação egoexcêntrica
Cantamos quando devíamos suar.
Suamos demais quando devíamos cantar

Desço a mão
E uma formiga regressa a casa

E fica-me um formigueiro nos dedos
Prontos enfim
Para uma escrita de novo mais animal mais incansável
Uma escrita que leve um pequeno grão de areia
Ou uma pequena pétala
Ao amor abandonado da humanidade.

 

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

 

CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer…

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▪Miguel Torga
( Portugal 🇵🇹 )

Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo

Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo
vê-se pelas cicatrizes nos dedos da mão direita (a calosidade
amarelada de nicotina no dedo anelar é trabalhinho escravo)
também a espinha lixada e a falta de dentes o mostram bem
não tenho biografia não a procurem no canto mal cheiroso
no medo da noite (o catecismo não é igual para todos não é?)
a minha biografia se quiserem começa e acaba no registo civil
em mil novecentos e cinquenta e quatro também tive direito
a nascer numa geração rasca a de pais anónimos e mães solteiras
o que escrevo é impuro como os sangues menstruais e o mijo
a destilarem amoníaco a federem como as fábricas da cuf
na outra margem onde se escrevia em peles curtidas pelo silêncio
ou como o sangue coagulado dos mortos na guerra colonial
pestes é que não têm faltado na minha vida…
deambulo pelos sonhos onde me perco extenuado e amanheço
quase sucumbindo ao ar excessivo que me invade os pulmões
desremelo os olhos e a esbracejar inauguro o dia saído da noite
onde se pesca palavras e outros excrementos da alma.

 

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▪ Carlos Alberto Machado
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Registo Civil. Poesia Reunida”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

O HÓSPEDE

Perguntava-te tarde na outra noite
de onde brotam as violências do mundo
e tu abriste os teus olhos de farol em repouso
e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.

Há tantas coisas, amor, que não entendi,
mas a tua hospitalidade não é uma delas.

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▪ Juan Gabriel Vásquez
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice

 

SHIRLEY ANN EALES

Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.

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▪ Rui Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )

in ”Morada”, Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro de 2015