SOM

Nem sequer é música isto que ouvimos,
é um arrastar de pés, de pedras, de pás que
escavam uma casa de cinzas,
são degraus que descemos,
martelando surdamente,
esmagando pétalas, insectos, cristais,
é um trabalho de facas no trono das acácias,
dos cedros,
facas que atravessaram os pulsos e o coração,
é um rangido de portas,
janelas que batem,
o vento nos ramos,
nas folhas quebradas do Outono,
não, nem sequer é música isto que ouvimos.

 

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▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Anjos Caídos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

CORVO GIGANTE

Na cidade existe um único pássaro
que grita.

Tudo se esboroa num momento
de silêncio.

Ele fica só
e chama as coisas pelos nomes
o mármore as pedras o cimento
a água os canos.

Tudo aquilo tem um sabor
que se estende pelo mar
como um corvo gigante.

É um pássaro lilás
que rouba as nogueiras
e desespera.

 

—
▪ Jaime Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A perfeição das coisas”, Editorial Caminho, Lisboa, 1988

A CASA GRANDE

Estamos a sair da casa grande.
Malas feitas, eu já me despedi
de toda a gente,
falta só ir à cozinha
dar um último abraço.

A casa grande.
Por que vamos embora?
Igual à vida,
um sítio de passagem?
Na vida não se fica,
é só viagem…

Enquanto digo adeus
trazem como oferenda
uma taça de vidro
com morangos
polvilhados de açúcar.
Escolho alguns e chega
entretanto um dos meus filhos
a quem também são dados
em partilha.

Comemos só
um ou outro morango
a taça ainda fica cheia.

Os morangos:
fruto do coração?
Fruto vermelho
como o sangue da vida?
A vida partilhada
na hora da despedida?

 

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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.

SOU DE VIDRO

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

 

–

▪ Lídia Jorge
( Portugal 🇵🇹 )

EN ROUTE

 

1 – SEM BAGAGEM

….. Viajar sem bagagem, dormir no comboio
….. num banco de madeira duro,
….. esquecer a terra natal,
….. sair de pequenas estações
….. quando um céu cinzento se levanta
….. e os barcos de pesca se dirigem para o mar.

 

2 – NA BÉLGICA

….. Na Bélgica chuviscava
….. e o rio serpenteava entre montes.
….. Sou tão imperfeito, pensei.
….. As árvores estavam nos campos
….. como padres de sotainas verdes.
….. Outubro escondia-se nas ervas.
….. Não, minha senhora, disse eu,
….. este é o compartimento de não faladores.

 

3 – UM FALCÃO ÀS VOLTAS POR CIMA DA AUTO-ESTRADA

….. Ficará desapontado se se lançar
….. sobre uma placa de ferro, gasolina,
….. uma cassete de música rasca,
….. os nossos corações apertados.

 

4 – MONT BLANC

….. De longe brilha, branco e cauteloso,
….. como uma lanterna para as sombras.

 

5 – SEGESTA

….. No campo um vasto templo—
….. um animal selvagem
….. aberto ao céu.

 

6 – VERÃO

….. O verão era gigantesco, triunfante—
….. e o nosso pequeno carro parecia perdido
….. na estrada para Verdun.

 

7 – A ESTAÇÃO EM BYTOM

….. No túnel subterrâneo
….. crescem pontas de cigarro,
….. não malmequeres.
….. Tresanda a solidão.

 

8 – REFORMADOS NUMA VIAGEM DE ESTUDO

….. Estão a aprender a andar
….. em terra.

 

9 – GAIVOTAS

….. A eternidade não viaja,
….. a eternidade espera.
….. Num porto de pesca
….. só as gaivotas são faladoras.

 

10 – O TEATRO EM TAORMINA

….. Do teatro em Taormina vê-se
….. a neve no cume do Etna
….. e o mar resplandecente.
….. Qual é o melhor actor?

 

11 – UM GATO PRETO

….. Um gato preto sai para nos saudar
….. como a dizer olhem para mim
….. e não para uma velha igreja românica.
….. Eu estou vivo.

 

12 – UMA IGREJA ROMÂNICA

….. No fundo do vale
….. uma igreja Românica em repouso:
….. há vinho neste barril.

 

13 – LUZ

….. Luz nas paredes de casas velhas,
….. Junho.
….. Transeunte, abre os olhos.

 

14 – DE MADRUGADA

….. A materialidade do mundo ao amanhecer –
….. e a fragilidade da alma.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, published by Farrar, Straus and Giroux, New York, 2008

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Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh | (https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57094)

As minhas mãos haviam esquecido Lorca

Embora o meu corpo estivesse cheio dele pois
passara parte do sábado anterior a discutir
a sua poesia com um marinheiro chileno, as minhas mãos
haviam esquecido Lorca.

………………………………. Até esta noite em que,
dando uma vista de olhos a uma antologia,
deparei com um poema dele chamado Córdoba.

E, abrindo um atlas para procurar
esta cidade, apercebi-me ao deslocar
os dedos sobre o mapa de Espanha

de que afagava a face de Lorca.

 

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▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “The Right Foot of the Giant“ publicado por Bumper Books em 1999

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho