
“O HOMEM DO ADEUS”
Óleo s/ tela
Maria Azenha

“O HOMEM DO ADEUS”
Óleo s/ tela
Maria Azenha
Não gosto de pessoas que não têm sombras.
Não gosto de pessoas que não gostam de sombras.
Gosto de pessoas que se tornaram na sombra debaixo de uma árvore.
A luz do sol também precisa de sombra para brilhar e deslumbrar os olhos.
Sentado à sombra de uma árvore
observo a luz do sol brilhando entre as folhas,
que beleza a deste mundo.
Não gosto das pessoas que não têm lágrimas.
Não gosto das pessoas que não gostam de lágrimas.
Eu gosto das pessoas que se tornaram numa lágrima.
A alegria também não é alegria sem lágrimas.
Será que existe amor sem lágrimas?
A visão de alguém sentado à sombra de uma árvore
enxugando as lágrimas do outro,
beleza e quietude.
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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga
No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia…
Disse-lhe: É bom, amigo?
É amargo – respondeu –,
amargo,
mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.
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▪ Stephen Crane
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por _ Herberto Helder
em protesto
os frutos subiam às
árvores
prendiam-se
aos ramos
e recusavam-se a
cair.
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Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos
Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos
E mesmo se não foi ele quem disse
(e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro
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doutora, hoje enviei o poema para a consulta, porque tenho a vida hasteada a meia altura. isto de ser eu, de cara destapada, já inundou muitos dedos na sede. muitas paredes enrugadas. durante a respiração, morre-me outra primavera nos braços e no sono e não sei o que fazer ao pássaro. a ligadura debaixo da pele vai segurando o corpo. e vou-me habituando à dor como árvore corcunda. doutora, eu sou os juros da ansiedade em estátua. o invisível em espaço farto, vazado pelo espírito levado aos bocados. cada pessoa, lugar, beijo, verso. coisa outra acontecida e tardia pela fala. a doação desmembrada, a rotura nos ligamentos pensados, o cansaço à queima-roupa. e esta linguagem toupeira, sem legendas, à procura. continuo a ensaiar no estúdio arcaico da solidão, repetidamente. há nódoas negras no ritmo, mas o casulo dilata o tronco. porque eu prefiro jantar com a morte do que a peste debaixo do tapete. porque a doutora sabe que a cidade da alegria está cheia de polícias contra o azul. em breve darei notícias. em tempo de hemorragia, falar é hospital
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in “a depressão fala o fogo”, Edições Humus,2023
Eu não saio, não ligo para ninguém. Cumpro uma estranha penitência.
O meu coração dói terrivelmente.
Tanta solidão. Tanto desejo. E a família pairando ao meu redor, sobrecarregando-me com a sua horrível carga de problemas diários.
Mas eu não os vejo. É como se eles não existissem.
Sinto, quando eles se aproximam de mim, uma aproximação de sombras irritantes.
É verdade que quase todos os seres me irritam.
Quero chorar. E faço-o.
Choro porque não existem seres mágicos.
O meu ser não estremece diante de qualquer nome ou olhar.
Tudo é pobre e sem sentido.
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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
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Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo “para esse universo
onde a vida é trocada por palavras”.
Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.
Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.
Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.
E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.
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