░ FAZ APENAS DIAS

há poucos dias morreu meu pai
faz apenas tanto.

caiu sem peso
como as pálpebras quando chega
a noite ou uma folha
quando o vento não arranca, embala.

hoje não eu com outras chuvas
hoje chove pela primeira vez
___________sobre o mármore de seu túmulo.

sob cada chuva
podia ser eu quem jaz, agora eu sei,
___________agora que morri em outro.

 

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▪ Hugo Mujica
(Buenos Aires, n. 1942)
in “Noche Abierta”, Editorial Pre-Textos, Argentina, 1999
Tradução – Jorge Melícias

░ MAR NEGRO

O mar na janela do avião
A terra acaba em Espanha
Eu choro em meu café
mar negro
os montes viram bicos
cinzas seios
seis da tarde em estado bruto
Ave Maria ao pé da nuvem
assento do alemão vizinho pai de um
menininho que chora mais que eu

O mar pela janela do avião é
pouso ou
pouco é o mar da
tela com suas linhas que sequestram
sempre os olhos do Gastão
que leu o Baudelaire florestalmente
Correspondência e beijo
a Guanabara e o Tejo
o frango a França a terra acaba e o

mar desta janela do avião
e eu nadando no café mar
negro entre a Alemanha e meus
segredos
Navego eu de mãos com Iemanjá
que fez a criancinha adormecer
de ver só céu com olho baixo
aberta boca

O mar numa janela de avião
tanto que sobe que é canhão
onda que nem o Carlos Burle ou Nazaré
Fotografei a nuvem coração que
diz você
parece mesmo um mapa de mina
sem tesouro lá os seios dos morrinhos

¿Ou mar pela janela do avião é só o
café que toma a mão do homem
tipo graxa tipo
medo invento incenso num cigarro
a farda do Vasco da Gama que minha
mãe dizia ser de gala?

O mar cá na janela do avião
acaba é França o mar conclui
a terra é outra a fresta esta fronteira a linha
e o cafezinho
fraco desta aérea e não acaba

O mar numa janela de avião
supõe contar nos dedos suas espumas
montantes traças vagas furadeiras
e vê tomar café o homem nu

Mar de janela de avião
nos olha sem
perguntar nada

Ave Maria cheia de graça
da graça do mar de meter na boca

 

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▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor

░ an american pray

pelas quedas não mencionadas
pelas violações
pelos vícios
pelas américas devastadas
milhões de vítimas vermelhas
tribos inteiras famílias filhas
com autoritarismo
palavras palavras
palavras inteiras
pelos que sobreviveram
os que nasceram
fronteiras derrubadas
igrejas reformadas
pelos inomináveis como todos os adjetivos
malditos
possuídos
milhões
perdidos
por todos os amores caídos
pelos inconcebíveis
os marginalizados
abandonados
abusados
esquecidos
catedrais sejam altas
como as vítimas
como os milhões
as palavras
redoma fascista

 

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▪ Fabio Riggi
(Brasil – SP, n. 1982)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autor.

░ INCERTO

que hora foi essa
que saltou do ventre
dos relógios
como um garrote
de cinzas?

devo ainda
esperar por mim,
enlouquecer no regaço
das catedrais como
pingo de sol num
peito de viúva?

eu quero dançar
sobre as lâminas rombas
deste tempo
quero cortar-me até ao osso
porque só a dor
é capaz de nos revelar
a grande mentira
que há por detrás
de todas as coisas

tranquilo, assim sereno
de saber que nunca
a posterioridade se
interessará por mim

 

_
▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014

░ I

Recordo os roseirais do tempo, as esmeraldas, as suas memórias
o verde é a cor das árvores seculares impenetráveis
ouço as noites cantar pelos campos dentro dos cedros
a morte acende dois castiçais movendo a pupila dos olhos

de um lado para outro há um agitar alto de crateras
a lua abre os lençóis da luz aos lábios dos vulcões da noite
poemas que se entranham noutros poemas dentro da aragem
e fundem-se as vozes dos jardins das corolas
luz inesgotável face da água
anjos da eternidade pedalando para sempre
cantando em violinos aéreos no perfume dos lilases

encontro-me na posição da chama que se desliga do corpo
sou uma paisagem vertical e grande
atravessada por um instrumento cirúrgico

sou uma limalha de sons uma borboleta ávida
que magneticamente atrai outras palavras ao tacto e à vidência
um renascimento uma lembrança uma vocação tremenda
pontos de água e fogo alimentam a boca-ânfora de uma criança
amor é o seu nome, um abstracto nome.
em grandes bosques do silêncio eu amo esta criança
dentro da aurora infantil dos seus dedos
pelas ramagens verdes o fresco fulgor das galerias de sombras
o mistério atravessa-a numa pedra acesa
da sua boca brotam o arbusto de um relâmpago uma flecha
em todo o seu lento e científico clamor
oh secretos lábios da minha amada infância
que rebenta em magnólias incendiadas em flor

e quando me inclino sobre os diques dos poentes
o fogo me recolhe em seus barcos de licor e mel
caio brutalmente latejando numa gruta aberta
perdida entre as altas torres das cidades
e as suas negras portas

os objectos parecem vozes nas pontas dos lápis
lá fora os semáforos estão cheios de fórmulas
apagamos as mãos mutilando os gestos
pela noite descem rosas de neve nos bosques

corro então alucinadamente para onde sou visível
os meus gritos mostram raras jóias na chaminé das casas
milhares de homens passam incessantemente
é nas palavras que me deposito em cinzas

uma raiz da noite aprende a respirar. estou acordada
vejo com outros olhos as aves e a pupila dos astros
dom que ascende da clareira dos bosques

 

_
Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, Edição de Autor, Lisboa, 2010



Castelhano

I.

Recuerdo la rosaleda del tiempo, las esmeraldas, sus memorias
el verde es el color de los árboles seculares impenetrables
oigo la noche cantar por los campos dentro de los cedros
la muerte enciende dos candeleros moviendo la pupila de los ojos

de un lado para el otro hay un agitar alto de crateres
la luna abre las sábanas de la luz a los labios de los volcanes de la noche
poemas que entrañanse en otros poemas dentro de la brisa
y se hunden las voces de los jardines de las corolas
luz inagotable mejilla del agua
angeles de la eternidad pedaleando para siempre
cantando en violines aéreos en el perfume de los lilas

me encuentro en posición de la llama que se desliga del cuerpo
soy una paisaje vertical y grande
atraviesada por un instrumento cirurgico

soy un enjambre de sonidos una mariposa ávida
que magneticamente atrae otras palabras al tacto y a la videncia
un renacimiento un recuerdo una vocación tremenda
puntos de agua y fuego alimentan la boca-ánfora de un niño
amor es tu nombre, un abstracto nombre.
en grandes bosques del silencio yo amo este niño
dentro de la aurora infantil de tus dedos
por las ramajes verdes el fresco fulgor de las galerías de sombras
el misterio la atravesa en una piedra encendida
de su boca brota el arbusto de un relámpago una flecha
en todo su lento y cientifico clamor
ho secretos labios de mi amada infancia
que revienta en magnolias encendiadas en flor

y cuando me inclino sobre los diques de los ponientes
el fuego me recoge en sus barcos de licor y miel
caigo brutalmente latiendo en una gruta abierta
perdidas entre las altas torres de las ciudades
y sus negras puertas

los objetos parecen voces en las puntas de los lápiz
fuera los semáforos están llenos de fórmulas
apagamos las manos mutilando los gestos
por la noche bajan rosas de nieve por los bosques

entonces corro locamente para dónde soy visible
mis gritos muestran raras joyas en las chimeneas de las casas
millares de hombres pasan incesantemente
es en las palabras que me deposito en cenizas

una raíz de la noche aprende a respirar. estoy despierta
veo con otros ojos las aves y la pupila de los astros
don que asciende del claro de los bosques

_
Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, Edição de Autor, Lisboa, 2010
Tradução – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

░ UMA NOVA ALIANÇA

Uma nova aliança atravessa
a descoberta do tempo

exploração periódica e lisa
da instabilidade dos sonhos.

Haverá asas no olhar
prisões nas partículas do sentir.

Haverá silêncios intermitentes
gritos, risos, turbulências
como febre em águas de passagem.

Mas os limites serão terra povoada
e o tilintar dos dias
dilatará de febre o círculo
imprevisível
de todas as solidões.

 

__
▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

░ ADAGIO

Eu também teria quebrado o vaso de porcelana da China,
falado demais,
corado todas as vezes.
Eu também teria perdido Agláia Ivánovna,
casado com Nastássia Filípovna,
enlouquecido com Rogojin.

Idiota?

 

_
▪ Maria Helena Nery Garcez
(Brasil SP, n. 1943)
in “Conta-gotas ”, Editora Scortecci, Brasil, 1987

░ CANÇÃO DE UM INICIADO

subi a escadaria azul até ao céu
subi até onde desabrochavam as rosas
_____ até onde falavam as rosas

não ouvi nada____nada que se ouvisse
_____ouvi o silêncio

subi até onde cantavam as rosas
____até onde aguardavam os deuses
____escadaria azul lá no alto do céu

mas não ouvi nada___nada que se ouvisse
____ ouvi o silêncio ___o silêncio

 

[Huichol]

 

__
▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “O DIA & A NOITE Não Podem Viver Juntos”
Poemas de índios americanos numa recreação de Vasco Gato, Edição Debout Sur l’Oeuf , Coimbra, 2016

░ 1974

Junto a um deus cheio de gosma
(¿quem me diria o gosto do açúcar do creme
do querosene do sexo amor rapto
penicilina?)
moleza e carne assada consta que
horas antes da criação do mundo e dias
antes do carnaval
(ô Xangô
as preta véia não mente não sinhô
coisa que hoje eu posso dizer que sei)
antes excessivamente de se abrirem as bicas mas depois
ó deus goto de gosma
de arder o Joelma com gente dentro que pulou
pra fora e meses antes
de Ademir entrar mudo e sair calado de uma disputa que
disputava mais nada
de Carvoeiro aparecer vivo numa outra bem antes de
sumir do mapa
de uns soldados com flores mudarem em português
de muita gente a cor do gesto
Eloy Rodrigues d’Almeida perdeu
sua carteira de motorista e desesperou calado vendo
dias dias dias
parada sua Brasília na garagem da casa em
Ponta Grossa Sobradinho Alfama Condomínio
dos funcionários do Ministério do Trabalho
Pampulha Rua Haddock Lobo esquina com
Matoso onde toda a confusão começou
(barba é coisa que não para de crescer e ninguém
ouve)
enquanto Liza Minnelli perdia a chance de entrar
cantando e sair suada sem incêndio em português claro
nem tão claro aos ouvidos de Sophia Cunha Pinheiro
que não perdera a carteira nem a chave
perderia
perdeu
(Put down the knitting the book and the broom it’s
time for a holiday)
o show de Liza Minnelli e
aquilo que deu depois da gosma e da
carne assada e que não diz
pula pra fora
ou diz
¿diz?
o gosto do repto do creme rinse da gosma
do deus da gosma
mas
¿do amor?
mas
put down the it’s time for

 

_
▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “40”, Editora Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2015