░ Na cidade breve as ilustres criaturas

Na cidade breve as ilustres criaturas
apodrecem de vidinha inveja e conversata
entre voracidade e íngreme bajulação

descuidadamente espirram teorias
enquanto os pés ensaiam uma dança
de fulgor e desencanto
tão longe já do voo imaginado

recolhidas viajam no silêncio
enquanto os olhos se fecham

levemente ausentes

com a certeza de que acabou
a incandescência.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Pequeno bestiário académico”, Ed. Licorne, Évora, 2014

ROSÁCEA

Passo a tarde dentro em ti A tarde
passa e eu em ti na humana rosácea de teu bico
lápis com a ponta na ponta da tarde e eu
ardo-te encontro na tarde que parte o
espinho e a cal que teu lápis de
feita ponta fez-me
de cor
no arder do hoje à tarde que passa e eu
em ti passando em branco e rubro em
ti e tudo

……………… Esta tarde é a carne das palavras que
eu não disse teu ouvido a carne pronta a
pôr o tempo em descarrilho e a mão na boca Tudo é a
carne que se coma a
boca livre a
chão aceso a
pedra e arte e extrema
sonda que parece a tua boca mas é só a tua
boca em uso estrito
em dente e carne em mim
deposta

 


▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor

░ Sede

Está vazio o teu peito__No lugar
do coração talvez um ataúde
ou nem isso__uma sombra
igual a essa noite onde procuras
o mar__o imenso mar__e só encontras
sede

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Revista Relâmpago, nº. 35″, Lisboa, 2014

░ comício

é preciso plantar uma solução
nos lábios clássicos da ascendência de orfeu

é preciso que um objeto novo
arrisque-se a maturar suas estruturas
sem que o aço ao sol em carne viva espelhe o céu

é preciso não haver necessidade
de uma escritura tão libertária
quanto as trocas capitalistas mais que isso

é preciso não se relacionar ao modernismo
para além de seus impulsos anarquistas

a europa caminha para o regresso
a mão invisível balança o berço

 

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▪ Fabio Riggi
(Brasil – SP, n. 1982)
in “Cidade adeus”, Patuá Editora, Brasil, 2014

░ Abdicação

Aceito morrer em breve
mas não irei ter contigo
às salinas escuras
por onde tens andado
ficando à minha espera.

Também não quero o mar
nem a montanha
locais de iniciação

Quero um regato ameno
de água fina correndo
por entre arbustos rasteiros.

E então ao longe
a figueira
de folhas enganadoras

com uma sombra que oculta
o gesto da maldição.
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▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Canções do Rio Profundo”, Asa Editores, Porto, 2002

░ Destino

Não bordo por destino
nem me dobro

Não cedo à mão da vida
nem me encubro

Não cumpro_ não aceito
nem me calo

Não amo o que é imposto
nem me afundo.

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom quixote, Lisboa, 2009

Conselho aos críticos do novo século

Desdenha de quem escreve coisas simples
e desconfia, desconfia sempre
dos sentimentos, das convicções.

Diz mal da tua época,
procura dar a tudo um ar difícil
e cita alguns autores que ninguém leu.

Se queres que te respeitem,
reserva a admiração e o elogio
pra certos mortos bem escolhidos,
de preferência estrangeiros,
e acima de tudo
não caias nunca na vulgaridade
de ser compreendido pelos que te lerem.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Pena Suspensa”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004

Ninguém nos tira a morte

Ninguém nos tira a morte

levamo-la nos ossos no sangue
cola-se a nós nos recantos da pele

e senta-se à espera
do momento de nos arrastar

ninguém nos tira a morte

nem quando levantamos a cabeça
e juntamos os joelhos

nem quando derrubamos os moinhos apesar de tudo
nem quando à força de ar ajustamos armaduras

ninguém nos tira a morte
sequer

quando nos escondemos sem fazer ruído sem ocupar espaço
para que não nos veja

ninguém nos tira a morte ainda
mas há quem se mantenha

íntegro
à sua passagem

 

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▪ María Gómez Lara
(Colômbia, n. 1989)
in “Nó de Sombras”, Editora Glaciar, Lisboa, 2015
Tradução – Nuno Júdice