DOIS POEMAS DE J. R. SOLONCHE

 
Lazarus

 

“Lazarus, arise,” you said.
And I arose.
I walked out of the darkness into the sunlight.
I shielded my eyes with my hand against the sun.
I stood there and waited.
I waited for you to tell me what to do next.
What did you want me to do?
Did you want me to speak of what death was?
Did you want me to go to my family and resume my life?
Did you want me to follow you in your preaching?
To testify on your behalf as a maker of miracles?
I stood there.
I waited.
You never told me what to do.
So when all of you were gone, I took down my hand from my eyes.
I turned and walked into the tomb.
I waited to die again.
I waited to die from thirst.
I waited to die from hunger.
It took a long time.

 

Lázaro

 

“Lázaro, levanta-te!”, disseste.
E eu ergui-me.
Saí da escuridão para a luz do sol.
Protegi os meus olhos com a mão.
Fiquei ali à espera.
À espera de que me dissesses o que fazer.
Que querias que eu fizesse?
Que falasse sobre o que era a morte?
Que voltasse para a minha família e reatasse a minha vida?
Que te acompanhasse na pregação?
Que testemunhasse a teu favor como fazedor de milagres?
Fiquei ali.
À espera.
Nunca me disseste o que fazer.
Assim, quando todos abalaram, tirei a mão dos olhos.
Virei-me e voltei para o túmulo.
À espera de morrer de novo.
De sede.
De fome.
Levou imenso tempo.

 

*

That red wheelbarrow

 

How disappointed I was
when I found out
that the story wasn’t true,
that he had noticed it
through the window
of the room of the sick
little girl he was called
to tend to, but that it
actually belonged
to an old black street
vendor in Rutherford.
Of course, so much did
depend on it regardless
of whose it was,
and the rain water
did still glisten on it,
and the white chickens
were still white and
were still going to get
their throats cut. So
perhaps it’s a good thing
it was the street vendor’s.
The little girl would
have given them names.

 


O carro de mão vermelho

 

Que desapontado fiquei
quando soube
que a história não era verdadeira,
que dera conta dele
pela janela
do quarto da miúda
adoentada que fora
chamado a consultar, mas que
na verdade pertencia
a um velho vendedor ambulante
negro em Rutherford.
Claro que tanta coisa
dependia dele a quem quer
que pertencesse,
a água da chuva
ainda nele cintilava,
os frangos brancos
ainda eram brancos e
ainda iam ter os pescoços
cortados. Talvez fosse
pois uma boa coisa
pertencer ao vendedor.
A miúda ter-lhes-ia
posto nomes.

 

_
▪ J. R. Solonche
(U.S.A. 🇺🇲)

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho   Poeta, Tradutor e Matemático

 
 

A LOUCURA DAS FACAS

UMA FACA AZUL NOS DENTES

 

O espaço é uma grande máquina de sombras e
o poema uma miragem de letras
não posso escrever os meus gritos
não posso dizer-te quem sou

escrevo um testemunho inútil numa noite imensa
e o amor para sempre é um defunto
com uma faca azul nos dentes.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A loucura das facas“, pag.13, Editora Urutau (Galiza, Brasil, Portugal), 2021

 

JUDAS

Do lado de lá ouço a linha cortada
e às vezes julgo que a minha chamada
toca num dispositivo noutra dimensão,
porque a minha mão segura fria as
cadências das músicas que ouvias
e tudo são passos em lugares onde já estive
e é verdade, não consegui confiar
nessa escuridão, na minha própria sombra.

Escrevi num caderno, “You can love an addict,
but you can’t heal him” e tomei esta verdade
como se fosse o único valor na equação,
mas ao fim do dia o teu corpo escorregava
tornava-se líquido venoso, dentro de mim
e também eu cometia os mesmos erros que tu:
masturbava-me com a tristeza da tragédia
conservava a cor azul no centro dos pulsos
ouvia as canções com que pratiquei a morte.

Deitava-me ao teu lado,
era assim que os limites se quebravam
e a melancolia transformava-se em beleza:
queria dizer-te que não me sentia tão viva
que sorvia o paladar de todos os prazeres do mundo
que gostava de ter adormecido até à manhã seguinte;
agora sei como essa claridade nos bastava
e que poderias ter conservado o meu sorriso
e essa fosse a melhor última memória desses tempos.

Receio ter chegado tarde demais, outra vez
e que nenhum poema me possa substituir
jamais possa ser uma melhor versão de mim mesma
e que o carinho seja um labirinto do qual
não consigo encontrar saída — que estas palavras
sejam ecos em lugares onde nunca mais te possa encontrar.

 

_
▪ Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Fio de Ariadne”, Revista de Literatura, nº. 1 – Primavera de 2021, Organização: Armando Halpern, Lisboa