Mudança

Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Selecção e Tradução de Marco Bruno 🇵🇹, Editora Tinta da China, Lisboa, 2017

UMA VEZ UM HOMEM

uma vez _______ um homem
disse: mãe é um nojo ______ mulher é um nojo

foi à cozinha ________ tirou uma espada
comeu numa pia _____ engoliu um caroço

uma vez um irmão _________ era um patrão
cresceu o outono

era um caixão

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Xeque Mate”, Editora Urutau, Galiza ESP/Brasil, 2018

Ilustrador – Luís Filipe Gomes 🇵🇹
 
 
 

CAFÉ DE LA GARE, AUSTERLITZ

Passeava dois cães enormes
pela estação de comboios
vi-a muitas vezes durante duas horas
e nunca mais a encontrei
Os olhos muito grandes não se reduziam a uma cor
tinham dos minerais a natureza indecifrável
não sei que preço teriam pago por essa beleza
sem intervalos
que representava contra nós
um mundo arcaico, desmedido
Não fazia tenção de embarcar
nem esperava noite após noite
a chegada de alguém
vi-a atravessar a longa estação em silêncio
como se apenas os abismos chamassem por si
dois cães enormes a seguiam
mas inocentes dessa imensidão

 

 

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▪ José Tolentino Mendonça
(Portugal 🇵🇹)
in “De igual para igual”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

OS MEUS LIVROS

Livros, ó mudos livros das estantes frias,
vivos no seu silêncio, ardentes na sua calma;
livros, os que consolam, veludos da alma,
e que sendo tão tristes nos dão alegria!

Ao dia afadigado as minhas mãos renderam-se;
mas à noite lá fui procurá-los, amantes,
no côncavo do muro onde, como semblantes ,
me fitam, confortando-me, aqueles que viveram.

Bíblia, tão nobre Bíblia, horizonte estupendo
onde um dia fixei os olhos longamente,
tens sobre esses teus salmos as lavas ardentes
e no seu rio de fogo o coração acendo!

Nutriste a minha gente com o teu forte vinho,
ergueste-os vigorosos no meio dos homens
e eu ergo-me enérgica ao dizer teu nome,
porque é de ti que venho, quebrei o Destino.

Depois de ti, com o seu amplo alarido eterno,
atravessou-se o sangue o sumo Florentino.
Perante a sua voz, como um junco me inclino;
e fantástica avanço nesse rubro inferno.

E para refrescar sobre o musgo orvalhado
a boca, ainda a arder com as chamas dantescas,
fui em busca das Flores de Assis, sempre tão frescas,
e na felpa deitei o peito descansado!

Eu vi Francisco, aquele tão doce como as rosas,
pelo campo passar, mais leve que um suspiro,
beijando o peito em chama e o aberto lírio,
pra beijar o Senhor, que respira das coisas.

Poema de Mistral, cheiro de sulco aberto
de manhã exalado, inspirei-te embriagada!
Vi Mireia espremer a fruta ensanguentada
do amor, e correr pelo atroz deserto.

Recordo-te também, refrão de mil doçuras,
verso de Amado Nervo, com peito de pomba,
que me suavizaste o contorno das lombas
quando te estava a ler nas minhas manhãs puras.

Nobres livros antigos, de folhas sebentas,
sois lábios sempre prontos a animar os tristes,
amargura que veste um novo manto e insiste
desde Job até Kempis nessa voz dolente!

Pròs que, tal como Cristo em Via Dolorosa,
estreitaram esses versos contra as rubras feridas,
é lenço de Verónica a estrofe dolorida;
cada livro é purpúreo qual sangrenta rosa!

Eu amo-vos, ó bocas dos poetas idos
que ainda me consolam, desfeitas em poeira,
e que falam comigo à noite, à cabeceira,
junto ao meu candeeiro, em seus doces gemidos!

Afasto o meu olhar dessa página aberta,
ó mortos! E o meu sonho tece os seus semblantes:
as pupilas febris, os lábios anelantes
lentamente desfeitos na terra encoberta.

 

 
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▪ Gabriela Mistral
(Chile 🇨🇱)
in “Antologia Poética”, Selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral 🇵🇹, Editorial Teorema, Lisboa, 2002