AMO-TE, NOITE…

Amo-te, Noite, mais velha que os deuses,
E os teus caminhos, que se enchem de estrelas,
E a tua fronte que as papoulas ornam
_________ Cegas de luz.

Fugindo frágil dos dois filhos teus,
Tal como o vento, enredo-me em teu manto,
E sob a sombra do tombado archote
_________ Não sei nem penso.

Pois sinto em ti, mãe negra, e não nos deuses
Outros diurnos, que a verdade existe,
E que em seu rosto, como o teu velado,
_________ Não morrerei.

 

_
▪ Alexei Bueno
( Brasil 🇧🇷 )
in “Desaparições”, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva, Editora Exclamação, Porto, 2017

EU NUNCA FUI CAPAZ DE REZAR

Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.

Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.

Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas

e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.

 

_
▪ Edward Hirsch
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Trocando dólares por cêntimos” – Alguma poesia norte-americana -, Versões de Luís Filipe Parrado 🇵🇹, Editora Contracapa, Amarante, 2020

 


 

I WAS NEVER ABLE TO PRAY

 

Wheel me down to the shore
where the lighthouse was abandoned
and the moon tolls in the rafters.

Let me hear the wind paging through the trees
and see the stars flaring out, one by one,
like the forgotten faces of the dead.

I was never able to pray,
but let me inscribe my name
in the book of waves

and then stare into the dome
of a sky that never ends
and see my voice sail into the night.

 

_
▪ Edward Hirsch
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Living Fire: New and Selected Poems, 1975-2010”, New York: Alfred A. Knopf, 2010

ANAMNESE

Não procures atravessar o espelho,
Não há nada atrás dele e nada nele,
Não é de vidro e prata a tua pele,
Nem te mira invertido o que há adiante —
É parede, não porta, esse aparelho
Que faz a luz mentir, presa no instante.

Mas no que há atrás de ti, e não se espelha
Ao fundo do teu simulado rosto,
Ali fica o portal, jamais exposto,
Que espera a chave nova e há eras lavrada,
Ali há um que contigo se assemelha,
E que a empunha a te olhar, e não diz nada.

 

21-9-2015
 
_
▪ Alexei Bueno
( Brasil 🇧🇷 )
in “Desaparições”, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva, Editora Exclamação, Porto, 2017

 

VIDA RETIRADA

não tenho pressa de sair da cama, agora não há nada a fazer em casa
não tenho nada em particular a iniciar, o sítio é pacífico
a luz dos bambus concentra a cor da paisagem
o reflexo da minha cabana move-se na corrente do rio
as minhas crianças não vão à escola, deixo-as preguiçar por aí
sempre pobre, a minha mulher preocupa-se
cem anos de preocupações, cem anos de delírio
há um mês sem me pentear

 

_
▪ Tu Fu
( China  🇨🇳 )
in “Entre Céu e Terra”, Editora Licorne, Évora, 2020

*

Transgressão de _ Manuel Silva-Terra 🇵🇹 Poeta e editor