SE UM QUARTO SE PODE ABRIR PARA O SONHO

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho
cobertor. Então o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.

 
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▪Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “«Fórmulas de uma luz inexplicável», D. Quixote”
 

DOIS POEMAS DE LUIS ALBERTO DE CUENCA

 

Bébetela

 

Dile cosas bonitas a tu novia:
“Tienes un cuerpo de reloj de arena
y un alma de película de Hawks.”
Díselo muy bajito, con tus labios
pegados a su oreja, sin que nadie
pueda escuchar lo que le estás diciendo
(a saber, que sus piernas son cohetes
dirigidos al centro de la Tierra,
o que sus senos son la madriguera
de un cangrejo de mar, o que su espalda
es plata viva). Y cuando se lo crea
y comience a licuarse entre tus brazos,
no dudes ni un segundo:
bébetela.

 

Bebe-a

 

Diz coisas bonitas à tua namorada:
“Tens um corpo de relógio de areia
e uma alma de filme de Hawks.”.
Di-lo muito baixinho, com os lábios
colados à sua orelha, sem ninguém
poder escutar o que estás a dizer
(ou seja, que as suas pernas são foguetes
dirigidos para o centro da Terra
ou que os seus seios são a madrigueira
de um caranguejo ou que as costas
são prata viva). E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços,
não hesites um segundo:
bebe-a.

 

No está muerta

 

Ella dijo, después de mil besos y abrazos:
“Soy tan feliz que quiero que el tiempo se detenga.”
Y él respondió: “No sufras, ya inventaré la fórmula
de que el tiempo no pase para ti.” Y la miraba
con los ojos nublados por la melancolía.
Y entonces ella dijo: “Si logras detenerlo,
que no vaya a dolerme y, sobre todo, que haga
juego con mi vestido.”

 

Não está morta

 

Depois de mil beijos e abraços, ela disse:
“Estou tão feliz que quero que o tempo páre.”.
“Não te preocupes, vou já inventar a maneira de o tempo
não passar para ti.”, respondeu ele. E olhava-a
com os olhos nublados pela melancolia.
Diz ela então: “Se conseguires detê-lo,
que não me doa e, sobretudo, que condiga
com o meu vestido.”

 

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▪ Luis Alberto de Cuenca
(España 🇪🇸 )

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Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho  🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático

 

LIMIAR

No corpo, onde tudo tem seu preço,
eu era um mendigo. Ajoelhado,

olhava, pela fechadura, não
o homem no banho, mas a chuva

a atravessar seu corpo: cordas de guitarra a
estalar sobre ombros em forma de globo.

Ele cantava, e é por isso
que eu lembro. Sua voz —

me preenchia até o osso
como um esqueleto. Até mesmo meu nome

se ajoelhava dentro de mim, pedindo
para ser poupado.

Ele cantava. É tudo que lembro.
Pois no corpo, onde tudo tem seu preço,

eu estava vivo. Eu não sabia
que havia motivo melhor.

Que certa manhã meu pai ia parar
— potro negro em tempestade —

& tentar escutar minha respiração contida
atrás da porta. Eu não sabia que o custo

de entrar numa canção — era perder
o caminho de volta.

Por isso entrei. Por isso perdi.
Perdi tudo com meus olhos

bem abertos.

 

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▪ Ocean Vuong
( Vietname 🇻🇳 )

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Mudado para português do brasil por _ Rogério W. Galindo _ 🇧🇷

 

OCÉANO

 
Las metáforas nacen en la piel. De la brisa húmeda que la ventana cuela. De una imagen que estremece recordar. De una caricia que se sintió durante un sueño. La piel da sentido a muchas palabras que prenden en las sensaciones del tacto. A otras que la cubren, en cantidad durante el invierno, com liviandad durante los días calurosos del verano. Y aun a términos que la explican, que la nutren, que la vivifican. Tanta locuacidad brota de la fuente incesante de sensaciones que es la piel. Pero lo decisivo, aquello que revive, dentro lo ya perdido, son las metáforas.

 
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▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in “Añil”, Editorial: Cypress Cultural, Sevilla (España), 2021

 

NA NOSSA VIDA

Na vossa vida,
Dizeis.
Não houve lágrimas nem nostalgia sob os ulmeiros.
Jamais escrevestes uma carta de amor
Nem pensaste em suicídio.
Como sabeis então que haveis vivido?

 

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▪ Izet Sarajlic
( Bósnia e Herzegovina 🇧🇦)
in o “Universo está Pintado à Mão” – Uma Antologia Fanática”, Língua Morta

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Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Professor