AUSCHWITZ

Porque e ainda, ainda perdura no discurso de Duma
uma exacerbada violência
acusatória
de impropérios de dilaceração e
despedaçamento — em que o filho a mãe acusa
de ser a tempo inteiro, de ser
Mãe mais que mulher ou amante
amanhecida — aquém e além da luz do dia: a acusa de ser
seu natural direito separar de si o filho. — Somos
programados para nos dissolvermos na origem
em que, por fim, o pó chorará “de alívio”.
Que significado terão hoje os
recentes Anjos da Noite
na claridade e crueldade espantosas
de uma sem lua: ausência sem retorno,
numa dor sem sinal de emoção; de graça e empatia?

 

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▪ Eduarda Chiote
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘NERVO / 13 – colectivo de poesia’, Editora Maria F. Roldão, janeiro-abril, 2022

LLUEVE

En la ventana
la calle y la habitación se hacen una.
No hay adentro ni afuera.
La puerta quedó del lado de la lluvia.
Alguien
quedó a la intemperie de sí mismo

 

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▪ Bibiana Bernal
( Colômbia 🇨🇴 )
in “Pájaro de piedra”, Valparaíso Ediciones, Granada, 2020
 

NATAL

Nasceu.
Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 


“Natal” de Álvaro Feijó dito por Mário Viegas

 
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▪ Álvaro Feijó
in “Diário de Bordo”
( Portugal 🇵🇹 )

É TEMPO DE NATAL

É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?

 

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▪ António Manuel Couto Viana
( Portugal 🇵🇹 )

POEMA DO NATAL

Caíram bombas em Seul, minha mãe
e dizem que não foi ninguém.
Vieram das sete partes da loucura
e em pássaros sombrios
e deitaram bombas em Seul
e não foi ninguém.
– Hoje é Natal, minha longínqua mãe.

Como eu o mundo tem a mãe ausente.
– Seul fica longe
mas é vizinha da nossa alma
amarga e doente…

Não foi ninguém
mas há cravos vermelhos e mortais
nos pulsos das crianças
e enquanto o Natal se pendura
nos pinheiros de todos os pontos cardeais
meteram-se estilhaços
na carne das esperanças
e as mulheres grávidas abrem os ventres
às estrelas das metralhas
e as entranhas estão quentes
de balas e vinganças.

Hoje é Natal e dizem que Cristo nasceu
e nós todos nascemos cada qual em sua cruz…
e depois cuspimo-nos nas caras
e morremos iluminados de pus.

Hoje é Natal, minha mãe
e caíram bombas em Seul
e apesar de não ser ninguém
secaram-se todos os pinheiros da pequena cidade.
– O mundo não tem Natal nem mãe.

 


▪ Herberto Helder
( Portugal 🇵🇹 )
in “Eco do Funchal,1953)