PÁSSAROS E SACOS

Bandos de pardais entristecem-me
quando, rápidos, voam pelos campos
e gorjeiam, secos e ásperos,
pela sua pobreza bem arada.
Não deixem nunca de fazer-me companhia.
Quase nada nos acompanha até ao fim.
Também não me abandona o cheiro dos sacos
que me serviam de cama no fundo do carro
quando andava, em criança, nas vindimas.
Saía antes da alvorada. Os sobressaltos
das rodas e o ritmo forte, calmo,
dos cascos cravados adormeciam-me.
Os sacos ainda fazem a vez de mãe.
O seu cheiro regressa, denso e cálido,
enquanto vejo como brilha ao sol a relva
e os bandos de pardais, desesperados,
procuram um lugar onde poisar
e saciar uma fome pequena e dura.
Voam, voam comigo até ao fim.

 

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▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸 )
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015

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Mudado para português por _ Miguel Filipe Mochila 🇵🇹  Poeta, tradutor e professor