░ CÂMERA OBSCURA

Guarda a realidade num espelho escuro
e que a luz estreita lhe dê vida.
Sobre o cristal manchado renascem as paisagens:
difusas porém mágicas.
Que conflito interior entre luzes e sombras,
entre química e tempo,
nos devolve os signos feitos signos?
Invertidas imagens, agora,
nas nossas mãos mostram as cidades,
as visões enigmáticas do mundo.
Olhamos com assombro esta esquina do tempo,
este cartão iluminado e claro
que com a sua luz nos salva do esquecimento.

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▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
Poema inédito em livro

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ CAMERA OBSCURA

 

Guarda la realidad en un espejo oscuro
y que la luz estrecha le dé vida.
Sobre el cristal manchado renacen los paisajes:
difusos pero mágicos.
¿Qué conflicto interior entre luces y sombras,
entre química y tiempo,
nos devuelve los signos hechos signos?
Invertidas imágenes, ahora,
en nuestras manos muestran las ciudades,
las vistas enigmáticas del mundo.
Miramos con asombro este rincón del tiempo,
este cartón iluminado y claro
que con su luz nos salva del olvido.

 

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▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
– Inédito –

 

░ Favorito

Quando me perguntam, “Quem é o seu poeta favorito?”
É melhor não mencionar o teu nome,
Embora tu sejas sem dúvida o meu poeta favorito
E eu também goste dos teus poemas.

 

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▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



Versão original/ Original version

 

░  Favourite

 

When they ask me, ‘Who’s your favourite poet?’
I’d better not mention you,
Though you certainly are my favourite poet
And I like your poems too.

 

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▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008

 

░ 15.

Da tua solidão ficou um círculo de sombras
Um talismã que uso em meu cabelo branco.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011



CASTELHANO

 

░  15.

De tu soledad sobró un círculo de sombras
Un talismán que uso en mi pelo blanco.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011
Mudado para castelhano por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 

░ MÃOS

límpidas mãos que na noite se erguem
pedintes de óbolos que outras mãos espargem

na rota do sândalo buscam essas mãos
a essência pura de África milenar

mãos esguias rudes mãos pretas de cor
lívidas de pensamento
doridas mãos que embalaram sóis
e luas e estrelas
e vidas sem porvir
mãos que desenharam rostos e palavras
e todas as cores das aves solitárias
mãos que colheram café e gengibre e fruta-pão
mãos doces como mel de abelhas em cresta de junho
profundas e místicas como amêndoas do Shara
mãos que acenderam lamparinas
para varrer da noite a escuridão
mãos que adormeceram como borboleta
em cima de uma flor
mãos de avó, de mãe, de irmã
mãos de todas as mulheres que carregam nas costas
a imortalidade do universo
para vós este poema
perfumado de cajamanga

 

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▪ Olinda Beja
(São Tomé e Príncipe, n. 1946)
in “Aromas de Cajamanga”, Escrituras Editora, São Paulo – Brasil, 2009

░ Ad Amatrice tutto è possibile

I bambini hanno cessato il gioco ad Amatrice.
Ora solo macerie
e vestigia dell’ultimo addio:
un crogiolo di zolfo,
le ferite delle nuvole,
e la delicata anatomia dei sismi.

Quasi senza volto,
la vedo sbirciare dall’altro lato dell’inferno della terra.

Chiama segnali d’insetti
e la piccola mano di un Angelo al di sopra.

Amatrice dorme su un ramo di pietre.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.

Mudado para italiano por – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



VERSÃO ORIGINAL

 

░ Em Amatrice tudo é possível

 

As crianças terminaram o jogo em Amatrice.
Agora só escombros
e vestígios do derradeiro adeus:
um cadinho de enxofre,
as feridas das nuvens,
e a delicada anatomia dos sismos.

Quase sem rosto,
vejo-a espreitar do outro lado do inferno da terra.

Clama sinais de insectos
e a pequena mão de um Anjo por cima.

Amatrice dorme num ramo de pedras.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.

 

░ Um chocolate quente para Kingsley Amis

Foi um sonho que tive na semana passada
E pareceu-me essencial registá-lo de alguma maneira.
Eu sabia que como poema não seria grande coisa
Mas adoro o título.

 

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▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in “Making Cocoa for Kingsley Amis“, Published by Faber & Faber, London UK, 1986
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)

░ AS FLORES DO MAL

Ninguém pode cortar por mim o mato do quintal. Ele invadiu o pomar, ameaça obstruir os caminhos. Digo-me que foi gerado pela força do meu silêncio ou da minha omissão. Mas de fato foi semeado pela mão que outrora o arrancou e involuntariamente semeou. Crescido forte e vigoroso, agora enche o trajeto de espanto, de amor-cego, de picão. O carrapicho, por exemplo, essa flor incisiva, nasce no centro de um círculo raiado e vai expandindo seus dedos, até entregar o bago louro de um trigo ruim. Visto de cima, ele tem a forma exata de uma íris. Pelo menos, é a forma que enxergo quando fecho os olhos. Ninguém pode cortar o mato, por mim. Nos dias de chuva, contemplo seu crescimento, sua tranquila absorção do influxo da vida, o percurso que o levará a sufocar a civilização criada em torno dele. Em dias como este, as mãos calejadas de sentido, me ajoelho e o ataco com as unhas. E no meio de ervas daninhas suo, me sujo, concentrado como um artesão, enfurecido como um filósofo, a extirpá-lo. Enquanto isso, suas sementes caem no chão limpo e a terra as acolhe, hospitaleira. Nuvens passam aos pedaços, quando me deito.

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “O roubo do silêncio”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2006