NO DESERTO

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia…

Disse-lhe: É bom, amigo?
É amargo – respondeu –,
amargo,
mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.

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▪ Stephen Crane
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por _ Herberto Helder

Qualquer coisa de intermédio

 

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
(e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Minha Senhora de Quê”, Quetzal Editores, Lisboa, 1999

X

 

doutora, hoje enviei o poema para a consulta, porque tenho a vida hasteada a meia altura. isto de ser eu, de cara destapada, já inundou muitos dedos na sede. muitas paredes enrugadas. durante a respiração, morre-me outra primavera nos braços e no sono e não sei o que fazer ao pássaro. a ligadura debaixo da pele vai segurando o corpo. e vou-me habituando à dor como árvore corcunda. doutora, eu sou os juros da ansiedade em estátua. o invisível em espaço farto, vazado pelo espírito levado aos bocados. cada pessoa, lugar, beijo, verso. coisa outra acontecida e tardia pela fala. a doação desmembrada, a rotura nos ligamentos pensados, o cansaço à queima-roupa. e esta linguagem toupeira, sem legendas, à procura. continuo a ensaiar no estúdio arcaico da solidão, repetidamente. há nódoas negras no ritmo, mas o casulo dilata o tronco. porque eu prefiro jantar com a morte do que a peste debaixo do tapete. porque a doutora sabe que a cidade da alegria está cheia de polícias contra o azul. em breve darei notícias. em tempo de hemorragia, falar é hospital

 

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

in “a depressão fala o fogo”, Edições Humus,2023

DIÁRIOS

Eu não saio, não ligo para ninguém. Cumpro uma estranha penitência.
O meu coração dói terrivelmente.
Tanta solidão. Tanto desejo. E a família pairando ao meu redor, sobrecarregando-me com a sua horrível carga de problemas diários.
Mas eu não os vejo. É como se eles não existissem.
Sinto, quando eles se aproximam de mim, uma aproximação de sombras irritantes.
É verdade que quase todos os seres me irritam.
Quero chorar. E faço-o.
Choro porque não existem seres mágicos.
O meu ser não estremece diante de qualquer nome ou olhar.
Tudo é pobre e sem sentido.

 

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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )

Manhã de Agosto

Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo “para esse universo
onde a vida é trocada por palavras”.

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.

E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
In “ O Duplo Dividido”, &etc Editora, Lisboa, 1993