O HÓSPEDE

Perguntava-te tarde na outra noite
de onde brotam as violências do mundo
e tu abriste os teus olhos de farol em repouso
e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.

Há tantas coisas, amor, que não entendi,
mas a tua hospitalidade não é uma delas.

 

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▪ Juan Gabriel Vásquez
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice

QUEM SOU EU ?

A minha cabeça bate contra as estrelas.
Os meus pés estão nos cumes dos montes.
As pontas dos meus dedos estão nos vales e litorais da vida universal.
Na espuma sonora das coisas primeiras estico as mãos
e brinco com os seixos do destino.
Fui ao inferno e voltei várias vezes.
Conheço bem o céu, pois conversei com Deus.
Chapinho no sangue e nas entranhas do terrível.
Conheço o arrebatado assomo da beleza
E a revolta maravilhosa do homem diante de todos os letreiros
a dizer “Não Entrar

O meu nome é Verdade e sou o prisioneiro mais esquivo
do universo.

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▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Vasco Gato

HOJE, AS CIDADES

Hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
Guarda o corpo como algas
E compotas de frio às seis da tarde…)
A rapariga do armário
Mata-se na cidade
Do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.

 

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▪ R. Lino
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sião”, Organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Editora Frenesi, Lisboa, 1987

Confesso

Andei a persegui-la
pelo mini-mercado: a sua coroa
de tranças imaculadas, presas na perfeição por um gancho prateado,
a sua postura direita, irradiando suavidade,
o modo como colocou os iogurtes e os abacates no cesto,
espalhando paz como a Estrela Polar.
Quis perguntar-lhe “Em que corredor encontraste
a tua serenidade, sabes como
se consegue estar casado durante cinquenta anos, ou como viver sozinho,
desculpa-me por estar a interromper, mas pareces ter
um grau de sabedoria que faz a terra arder e girar no seu eixo -“,
só que nós não pedimos este tipo de informações a estranhos
nos nossos dias. Pelo que me limitei a dizer, “Adoro o seu cabelo.”

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▪ Alison Luterman
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por L.F. Parrado

SILÊNCIO

Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

No peito
uma voz estranha despertou
e uma canção canta em mim longínquas lembranças.

Diz-se que os antepassados mortos antes de tempo,
com sangue ainda jovem nas veias,
com paixões intensas no sangue,
com sol ardendo nas paixões
retornam,
retornam para continuar
em nós
a vida não vivida.

Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

Ó, quem sabe, alma, em que peito cantarás
também tu mais além dos tempos
– nas doces cordas do silêncio,
em harpas de treva – a nostalgia afogada
e a frágil alegria de viver? Quem sabe? Quem sabe?

 

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▪ Lucian Blaga
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto

Dique

A minha mãe chama-me,
um som familiar, de duas notas,
que atravessa os campos
e me encontra aqui
de joelhos num regato,
os braços metidos em lama até aos cotovelos.

Regresso
e tento explicar
o que estive a fazer este tempo todo
tão longe de casa.
“A fazer diques?”, vai ela perguntar.
“Ou a fazer poemas sobre fazer diques?”

 

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▪ Hugo Williams
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Pedro Mexia
in “Última Semana”, Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2014

A esposa de Ló

Ninguém ainda nos esclareceu
se a esposa de Ló foi transformada
numa estátua de sal apenas como punição
pela curiosidade incontrolável
e pela desobediência,
ou se ela se voltou porque no meio
de todo aquele fogo terrível
ardia o coração que ela mais amava.

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▪ Amalia Bautista
( Espanha 🇪🇸 )