ASTRONOMIA

 

Vou buscar uma das estrelas que caiu
do céu, esta noite. Ficou presa a um
ramo de árvore, mas só ela brilha,
único fruto luminoso do verão passado.

Ponho-a num frasco, para não se
oxidar; e vejo-a apagar-se, contra
o vidro, à medida que o dia se
aproxima, e o mundo desperta da noite.

Não se pode guardar uma estrela. O
seu lugar é no meio de constelações
e nuvens, onde o sonho a protege.

Por isso, tirei a estrela do frasco e
meti-a no poema, onde voltou a brilhar,
no meio de palavras, de versos, de imagens.

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “O breve Sentimento do Eterno”,2008

Um sítio na floresta

A caminho ouvi um bater de asas assustadas. Foi tudo. A esse lu-
gar vai-se sozinho. É uma construção alta, totalmente escavacada,
um estrutura que oscila mas que nunca poderá desabar. O sol mi-
lenário penetra pelas fendas. Nesse jogo de luzes há uma lei da gra-
vidade ao invés: a casa parece estar assente no céu, e aquilo que cai,
cai de pernas para o ar. Nesse sítio temos de nos voltar para trás.
Nele é permitido estar de luto. Ali, atrevemo-nos a concordar com
grandes verdades, as quais quase sempre mantemos por desemba-
lar. Pensamentos profundos, meus, ali sobem à tona, ficam pendu-
rados como os crânios secos das palhoças de antepassados em al-
guma ilha minúscula da Melanésia. Um orvalho benéfico espalha-
-se à volta dos horríveis troféus. Quão suave pode ser a floresta!

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▪ Tomas Tranströmer
(Suécia  🇸🇪 )

in “50 Poemas”, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D’Água, Lisboa, 2012

Ensina-me a ouvir

Ensina-me a ouvir __ trinar os cantos
que soaram ditosos no passado:
essa harmonia que raiava quando
os gritos de crianças alcançavam
o céu que os acolhia __ deleitando-se.

Ensina-me a estender as mãos e ver
caírem nelas a brilharem estrelas
e espalhá-las depois pelos canteiros
do jardim tão florido e que no meio
tinha lagos, repuxos, cisnes tersos.

Ensina-me contando onde se cruzam
as ilusões __desilusões vividas
com frágeis confianças: que procuro
lembrar e perceber no farto livro
que fui ‘screvendo ainda que confuso.

Mas não te vou pedir que me devolvas
os cantos, as estrelas, o jardim
com lagos __ cisnes __ delicadas flores:
o que de mim agora se aproxima
é, no meio do livro, as secas folhas.

 

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▪ António Salvado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Repor a Luz”, Editora Fólio Exemplar, Lisboa, 2011

O TEMPO APRAZADO

Vêm aí dias difíceis
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefecem ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

 

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▪ Ingeborg Bachmann
( Áustria 🇦🇹 )
Mudado para português por _ Judite Berkemeier e João barrento 

CONFORMIDADE

Chego ao hotel e peço
o quarto mais barato que tiverem,
uma cama limpa e sem vestígios de humanidade.

Quero um quarto sem cortinas
porque a lua vai cheia e as cortinas não fazem falta,
também não desejo aquecimento e odeio ar condicionado.

Quero tudo reduzido à expressão mais simples –
não preciso de espelho para lavar os dentes,
não quero telefone nem televisão.

O cinzeiro deixem-no ficar,
embora eu não fume propiciará
o justo ritual de um auto-de-fé.

 

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▪ Soledade Santos
( Portugal 🇵🇹 )

 

REFLEXÕES

O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

 

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▪ António Lobo Antunes
( Portugal 🇵🇹 )